Entrevistador - Eng. Israel Klajberg

Prof. Israel

No Compasso do IME de hoje, vamos retroceder no tempo 65 anos atrás. Foi uma época difícil para o Brasil quando sofremos a agressão da guerra submarina nazista. O Brasil perdeu mais de 30 navios, mais de 1000 preciosas vidas brasileiras foram ceifadas, mas o Brasil soube reagir à altura. Mandamos para a Itália a nossa Força Expedicionária Brasileira, nosso grupo de Aviação de Caça e a Marinha do Brasil assumiu o controle das nossas águas nacionais.

Cel. Germano

O Brasil foi levado à guerra por solidariedade continental. Estava desprevenido e militarmente despreparado quando a Alemanha nazista desfechou violenta ofensiva na Europa a partir de 1939. Hitler parecia, então, dominar o cenário mundial. Foi quando os Estados Unidos deixaram a neutralidade e procuraram articular a defesa do Hemisfério. Em Natal, no Rio Grande do Norte, os presidentes Franklin Roosevelt e Getúlio Vargas traçam as primeiras linhas de um duradouro acordo. O rompimento das relações com o eixo desasperou os ditadores da Alemanha e da Itália que resolveram desfechar represálias contra nossa navegação. Com os 36 navios afundados em nossas costas e centenas de mortes, inclusive mulheres e crianças. O Brasil preparou revide altivo, através de uma Força Expedicionária, cujo contingente, reuniu no Rio de Janeiro aí mostrada preparando-se para um desfile formada na Praça Paris numa vista já esmaecida. A FEB desfilou pela Av.Rio Branco, anunciando pela primeira vez na história a nossa disposição de lutar em terras européias. Essa atitude em prol do ideal de liberdade contou com a participação da mulher brasileira, voluntariamente incorporada à FEB para prestação do serviço de enfermagem.

Prof. Israel

E nesse contexto da Força Expedicionária Brasileira, entre os 25 mil homens que foram lutar no teatro de operações na Itália, um jovem Tenente de Artilharia, Germano Seidl Vidal.

Cel. Germano

No embarque se deu, em completo sigilo, nem as famílias foram avisadas. Após 15 dias de viagem, com a travessia do Atlântico sem escolta, desembarcamos em Nápoles.

Prof. Israel

Cel. Germano, gostaria que o senhor falasse um pouco como foi a atuação do Tenente Expedicionário como Comandante da Linha de Fogo da 2ª Bateria do IV Grupo Artilharia de Campanha (2ª Bia / IV GAC).

Cel. Germano

Eu tenho que recuar com você os 60 anos passados para recordar o que fez um Tenente de 22 anos na guerra, promovido à 1º Tenente depois de ter chegado ao teatro de operações. Nós fomos distinguidos, lá na Itália, com o recebimento de equipamento moderníssimo americano, que não existia no Brasil. Um desafio próprio para a adaptação do brasileiro, porque tínhamos os manuais, mas nos servíamos mais pelas ilustrações do que pelos textos. E nos desincumbimos a contento: o Grupo fez 31 mil tiros de calibre 155 com granada pesando 43 quilos. Foi uma missão bem cumprida.

Prof. Israel

Cel., hoje em dia nem todo mundo continua recordando a FEB. A juventude, ao que parece, não tem mais cultuado os feitos heróicos. Parece incrível quando o senhor desembarcou aqui na Av. Rio Branco, o povo rompia os cordões de isolamento para aplaudir os heróis da FEB e com o tempo isso foi, de certo modo, se desvanecendo e hoje são relativamente raras as manifestações. Como o senhor considera esse fato na atual conjuntura?

Cel. Germano

Israel, eu creio que historiadores e, particularmente aqueles escritores que formam opinião, têm uma obrigação com o país, que é manter os pontos de referência dos nossos valores, porque falar de guerra para jovens que sabem o que aconteceu há 60 anos, devem achar que é outro mundo, e na verdade nós estamos em outro mundo. A guerra, que se deveria pensar, é a futura, que não deverá existir. Essa é a do nosso tempo, a outra já passou, e entre os meus dedos caíram as condecorações que trouxe da Itália. Porque agora vale competência, conhecimento, análise crítica da história para tirar ensinamentos, não ficar repetindo o que os nossos autores consagrados descreveram sobre os valores épicos da Força Expedicionária Brasileira e do Grupo da FAB na Itália. Sob condições adversas, de chuva e lama, e depois de rigoroso inverno, nosso pracinha teve que enfrentar o experiente inimigo, adaptando-se ao meio hostil. A ação intensa exigiu a eficiência, coragem e cooperação para o acionamento dos recursos bélicos. A nossa artilharia fustigou severamente às condições inimigas de dia e de noite. Nos abrigos, nas casamatas, nas trincheiras, nos "fox-roles", o princípio de solidariedade humana sobrepunha-se a sanha da guerra. Eram todos irmãos lutando pelo mesmo ideal. Aquecendo-se do frio ou minorando as saudades da pátria distante. Alguns mais sacrificados foram feridos em combate. E enquanto Deus e a ciência permitisse tudo era feito para salvá-los.

Prof. Israel

Cel., o senhor nos deu um livro muito interessante, A Guerra Proscrita, que teve sua edição inteiramente esgotada, foi um "best-seller" e ele agora está na internet. Comemoramos, recentemente, mais de 2 milhões de acessos ao site. Gostaria que o senhor nos contasse um pouco sobre o livro, sobre a sua contribuição nos aspectos operacionais e o que o país gastou na II Guerra Mundial.

Cel.Germano

Tenho muita coisa para dizer. Especialmente quando você toca no custo da guerra para o Brasil. O meu trabalho publicado, no livro A Guerra Proscrita, dá quanto custou ao Brasil a II Guerra Mundial, em valores atualizados e fechadas as contabilidades daquilo que não pode ser ainda contabilizado por falta de informações. Então nós fechamos a contabilidade geral desse custo com valores estimados, e ele foi muito alto. O jornalista Barbosa Lima Sobrinho, chamou a atenção disso. O Brasil gastou na guerra, disse ele, repetindo o que o Seidl falou, 60 bilhões de dólares. Pelos valores atuais, isso é um valor representativo que coube ao povo pagar a conta. O livro, na verdade foi todo produzido, inicialmente, para o manuscrito, quando meu filho, em 98, me provou que o computador seria a peça mágica para produzir com velocidade meu material. Eu passei a usar o computador em 98, e o livro ficou pronto em 99. Eu queria que ele saísse antes do século XXI, que poderia ser o ano 2000, mas na verdade é o ano 2001. E eu acabei encontrando uma editora que se propôs a fazer, com muita rapidez e boa qualidade, um livro de 411 páginas. Quando o livro se esgotou nós já estávamos avançados no site com uma boa resposta do público internauta. No Rio de Janeiro, os estudantes desfilam em passeata pela Av.Rio Branco. O clímax dessas demonstrações pode ser visto no flagrante da chegada do 1º escalão da FEB, em 18 de julho de 1945.

Prof. Israel

Cel., o seu livro traz uma mensagem do "pacifismo ativo" e como foi isso? O senhor esteve na guerra, voltou depois de ver tanta coisa, tanta tristeza, certamente perdeu companheiros. E como é essa coisa? O senhor se autotransformou num "pacifista" ao voltar da guerra ou levou algum tempo refletindo?

Cel. Germano

Eu não fui pacifista quando estava na ativa, seria um contra-senso. Eu passei ainda 40 anos, pesquisando. Agora, meu pacifismo nasce de algumas opiniões ponderadíssimas que estão colocadas no nosso site a favor da racionalidade do homem. E está perdendo o valor nº 1 da vida humana, que é o espírito de solidariedade. Porque se ele não respeita o seu semelhante e muito menos a vida desse semelhante, nós estamos no campo da barbárie. Essa guerra futura, que se chama, por eufemismo, de guerra ao terror para a hegemonia dos Estados Unidos, ela traz um conteúdo de que as pessoas têm que descruzar os braços. Não basta, retoricamente, dizer que é contra a violência, que é a favor da paz. É importante fazer alguma coisa nesse campo. Descruzando o braço, diferentemente do Mahatma Gandhi, que mandou cruzar os braços a qualquer colaboração do Império Britânico e ganhou, com 100 milhões de indianos, de braços cruzados, a independência do Império Britânico, nós estamos propondo descruzar os braços e ir para o campo da comunicação, ir para a educação, produzir homens de bens, preservar valores, não discriminar, não excluir qualquer participação desse terreno. O pacifista ativo é, por excelência, um racional, uma pessoa que está voltada para a garantia da humanidade. Sem isso, o homem foi capaz de produzir armas de destruição em massa de tal ordem, que um astrônomo americano, Carl Sagan, provou que, desde a batalha de Gettisburg até agora, quantas vezes o homem tinha multiplicado por mil a sua capacidade de destruição. E chegou à conclusão de que, hoje, as armas de destruição em massa são 1 bilhão de vezes mais potente do que as de 1851 (Gettisburg). O que corresponde poder destruir o mundo 14 vezes. E ele disse, o homem não ficou nem mais sábio, nem mais feliz, nem mais seguro. Mães, esposas, filhas e noivas não continham a alegria de ver seus entes queridos de volta à pátria. Os heróis vivos descem o tombadilho do navio transporte de tropa que os trouxe ao convívio dos seus. No fim da guerra, nossos soldados retornam para o trabalho fecundo de reconstrução da nossa exaurida economia.

Prof. Israel

Cel., nós estamos passando, durante o programa, alguns dos vídeos que o senhor tão diligentemente elaborou e quando eu pergunto se deu muito trabalho, como foi esse acontecimento, o senhor teve alguma colaboração do governo para formar tantos vídeo-documentários?

Cel. Germano

Quando eu passei para a reserva, eu imagine ter um tempo disponível para fazer as coisas que eu apreciaria ter feito em tempo, quando estava na ativa. E um dos casos que surgiram foi exatamente o registro, em filme VHS da época do vídeo, a participação do Brasil como história, para filme fundamental e outro dois filmes educativos, sendo o primeiro de caráter didático para primeiro grau. Além dele, há outros dois filmes A Guerra que Eu Vi, Cemitério Militar Brasileiro, ambos documentários de caráter cultural que são as minhas impressões da guerra. Ali já desponta a minha característica de humanista no sentido de preservar a racionalidade da vida humana, nos conflitos futuros. Hoje, sabe-se que o grande sacrifício coube ao povo brasileiro, que suportou o ônus pesado da guerra, contribuindo para a vitória da liberdade.

Prof. Israel

O seu apartamento está muito bem decorado com seus quadros, suas pinturas e desenhos. Como isso começou? O senhor já sabia desenhar, fez algum curso?

Cel.Germano

Eu tinha alguma aptidão, tanto que na guerra eu criei uma figura caricaturada no padrão Walt Disney de um coelho com a túnica da FEB e os soldados passaram a chamá-lo de Cabo Coniglio. E todas as minhas ordens eram precedidas de uma instrução do Cabo Coniglio, porque os soldados achavam que esse Cabo Coniglio, que não existia, sabia de tudo. Então eu tenho a figura do Cabo Coniglio, que eu desenhei quando não tinha nenhuma informação. Quando eu vim ganhar informação de uma pintora excelente, que me guiou por 3 anos. Eu comecei a praticar fazendo quadros a carvão. Fiz uma coleção de 27 quadros, que eu achei que era uma forma diletante de me colocar em busca da perfeição e a perfeição se busca pela arte.

Prof. Israel

Já estamos nos aproximando do final do programa, e eu gostaria de fazer uma última pergunta. Considerando que a FEB se mobilizou muito rapidamente, o Brasil se levantou como se fosse um só homem, em defesa da democracia foi lutar na Itália. Eu queria sua opinião sobre hoje em dia, e se houvesse uma ameaça externa ao Brasil, o senhor acha que haveria uma mesma mobilização? O Brasil se poria de armas para defender o seu território de uma eventual ameaça? O que o senhor nos diz a respeito?

Cel.Germano

Eu digo e conto no meu livro, fazendo uma estratégia pessoal. O Brasil está num mundo globalizado, não está no mundo sozinho. Então, para esse tipo de conflito futuro, nós temos que ter parceiros confiáveis. Nós temos que trocar essa informação e formar esse espírito de comunidade sul-americana para resistir aos grandes já saciados ou os que ainda não se deram por saciar suficientemente. E aí está aberta a porta da Amazônia. Estão nos indicando, claramente, o desejo internacional de sua internacionalização para dividir com o mundo o quinhão que pertence ao brasileiro há 500 anos.

Prof. Israel

Foi um prazer ter estado consigo aqui e esperamos contar sempre com a sua colaboração. Obrigado.

Cel.Germano

Obrigado você por ter feito essa gentileza.

Nota importante:
Todo o texto deste "site" tem Direitos Reservados (All Right Reserved), podendo ser reproduzido total ou parcialmente, desde que mencionado o autor. As opiniões aqui emitidas são de exclusiva responsabilidade do autor, na sua visão de Historiador e Escritor, não podendo servir de base para eventuais causas de questionamentos, seja de que tipo e objetivo forem.
Maiores informações sobre DIREITOS RESERVADOS, visite a página neste "site" - Direitos