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É natural tal estado de espírito para acontecimentos ocorridos há mais de meio século os quais parecem nada ter a ver com a situação atual do Brasil. Tal acepção não só é equivocada como, de forma desconcertante, tem muita relação com nosso atual estágio de desenvolvimento. Basta lembrar um retrato dramático da dependência econômica do Brasil ao capital estrangeiro e da exploração que o mesmo fazia, de forma tão afrontosa quanto ineficaz, dos serviços públicos dos nossos centros urbanos mais populosos e, por isto mesmo, mais lucrativos. Chamo a testemunhar essa situação triste para os brasileiros, o consagrado historiador FRANK MC CANN, que em seu livro, antes citado, diz o seguinte: "Quando foi à guerra em 1942, o Brasil era dependente economicamente da Europa e dos Estados Unidos, com capitais de investimento internacional totalizando 2.242.200.000 dólares norte-americanos. Desse montante, 48 por cento era inglês, 25 por cento norte-americano, 18 por cento canadense e 9 por cento de diversas outras fontes. O controle internacional estendia-se a uma variedade ampla de empresas. A situação do Rio de Janeiro era dolorosamente típica do País como um todo. A Brazilian Traction Light and Power Co. Ltd. of Canada fornecia energia elétrica, gás artificial e serviços de bondes. Uma empresa britânica, Wilson & Sons Ltd., importava a maior parte do carvão para o Rio da Wales and West Virginia, enquanto a Standard Oil, The Caloric Co., The Texas Co., e a Anglo-Mexican Petroleum forneciam petróleo dos campos da Venezuela, México e Estados Unidos. O processamento e o suprimento de comida, quando não de propriedade estrangeira, dependia de equipamento importado, enquanto a Standard Brands fornecia mercadorias enlatadas. Três dos quatro moinhos da área do Rio eram de controle estrangeiro; um deles - o Moinho Fluminense - pela Bunge and Born, de Buenos Aires. Instalações de estocagem a baixa temperatura dependiam de equipamento norte-americano, francês e alemão e, dos seis principais frigoríficos, dois tinham administração alemã e um, inglesa. Embora o Rio fosse 90 por cento auto-suficiente em cimento, a única fábrica da cidade (uma das seis do Brasil) era 100 por cento norte-americana (Portland-Lone Star). Muitos dos rebocadores, lanchas e pranchas na grande baía eram de propriedade de firmas como a Lighterage Co., Wallace & Co. e Herman Stolz & Co. A comunicação telegráfica com o resto do mundo seguia pelos cabos da British Western Telegraph Co., The American All - America Cables and Radio, Inc. e da Compagnia Italiana dei Cavi Telegrafici Sottomarini. O investimento estrangeiro tinha produzido lucros até em serviços de esgoto; a British Rio de Janeiro Improvement Co. Ltd., vinha recolhendo o esgoto dos bairros velhos da cidade desde 1857. Um órgão municipal utilizava equipamento estrangeiro para descartar o lixo dos bairros mais novos da Urca, Ipanema e Leblon"'. "A Marinha do Brasil não podia se fazer ao mar sem o petróleo das companhias petrolíferas americanas e, antes da guerra, do carvão da Inglaterra; nem podia se engajar com o inimigo sem projetis e pólvora importados. O material do Exército era uma mistura de artigos alemães, ingleses, tchecoeslovacos, norte-americanos e italianos. Em 1942 havia, supostamente, material para armar e equipar 150.000 homens mas, para chegar ao nível de presteza operacional, pelo menos 50 por cento de todo o material bélico consumível teria de ser importado. Oitenta por cento das 220 aeronaves da Força Aérea (somente 30 delas eram caças) eram de fabricação norte-americana; o remanescente era de origem inglesa, francesa, alemã e italiana. A grande maioria dos sobressalentes, todo o combustível e o óleo eram importados." "No campo do entretenimento os grandes estúdios de Hollywood, como Paramount, RKO e Twentieth Century Fox, dominavam as telas e, na grande maioria dos casos, suas próprias salas de projeção. As empresas norte-americanas foram tão longe que conseguiram que o Departamento de Estado exercesse pressão sobre o regime de Vargas para evitar medidas que se esperavam de proteção da recém-nascida indústria cinematográfica brasileira, o que fez com que uns poucos filmes nacionais fossem produzidos e os que foram não encontraram distribuição nos cinemas de propriedade estrangeira. Dos 21 jornais então funcionando no Rio, os ingleses subsidiavam o Correio da Manhã, enquanto a Embaixada alemã apoiava o Meio-Dia, A Pátria, O Imparcial e A Nação. As únicas fontes de notícias do exterior eram os serviços noticiosos internacionais - Associated Press, United Press, Reuters e a alemã Trans-Oceania - e todos os jornais dependiam de papel importado." Mas, veio a guerra e nossa adesão aos Aliados acabou se efetivando, com um claro referendo à ditadura Vargas, a despeito da nossa precaríssima situação econômico-social, como vamos mostrar estatisticamente para análise mais profunda dos estudiosos do assunto. Mas, é bom que se diga, o tempo tem se encarregado de apagar essa nódoa de subdesenvolvimento e escancarada dependência ao capital estrangeiro, característica do Brasil de 1939 a 1945, período de minha pesquisa atual. Nos arquivos do IBGE, estão presentes aquelas marcas de pobreza da população e da falta de vitalidade de nossos agentes econômicos internos, porém as séries estatísticas mais recentemente divulgadas já não remontam àqueles tempos, por óbvias razões. Uma excelente publicação do IBGE (1997) - "BRASIL EM NÚMEROS" - que me vai orientar na busca e tratamento dos dados e na forma de apresentá-los neste capítulo, entre 81 tabelas, somente 4 trazem informações daquela época e nos 98 gráficos, de reconhecida técnica, só 3 tratam da questão ora posta em relevo. Além do IBGE, outras fontes foram utilizadas. Nesse caso, deve-se levar em conta que os Índices Econômico-Sociais são fruto de metodologias diferentes do que decorrem resultados nem sempre unívocos e, muitas das vezes, discutíveis... Toda essa dramaticidade não pretende a priori uma atitude de predisposição do autor contra nossos Aliados na guerra. Levei os números colhidos em insistente pesquisa na Biblioteca do IBGE, no bairro do Maracanã, no Rio de Janeiro, até o ano de 1960, com a finalidade de, inicialmente, fazer uma comparação da nossa situação econômico-social interna e, a seguir, analisar a condução do nosso esforço rumo ao desenvolvimento nas duas décadas de 40 e 50. Volto a usar da isenção de pesquisadores estrangeiros sobre a precariedade de nossa situação, como aparece, claramente, no Relatório da Organização das Nações Unidas, ONU, divulgado em Set 98, em semanário nacional. Abrindo a matéria sobre o Relatório da ONU, feito com dados de 1995, o articulista destaca: "O Brasil aparece pela primeira vez entre os países de alto desenvolvimento humano. Quatro décadas atrás, estava no bloco dos mais pobres." Ao mencionar nossa posição pelo "Índice de Desenvolvimento Humano (IDH)", a ONU faz comparações que não me parecem tão desvanecedoras. Diz assim: "1960 - IDH 0,394 O Brasil ocupava o 51o lugar, entre os 110 países, no nível de desenvolvimento em que estão ZÂMBIA e BANGLADESH" "1970 - IDH 0,507 O país alcança os últimos colocados da escalação intermediária, com pontuação hoje igual à do ZIMBÁBUE e PAPUA NOVA GUINÉ" "1980 - IDH 0,673 A renda per capita aumenta e o país galga várias posições no ranking. Chega hoje onde estão GUIANA e MONGÓLIA". E tenta explicar: "A vantagem do índice é que ele não se limita a observar os dados econômicos de um país, como o crescimento do produto interno, explica José Carlos Libânio, assessor das Nações Unidas, e um dos responsáveis pelo estudo. Mede também o aumento das potencialidades humanas resumido em três fatores - a educação, a expectativa de vida e a renda." Para nos comparar com o passado (a saber, quinze anos após o término da guerra), diz o citado artigo: "Essa era a realidade do Brasil em 1960, um país rural, com expectativa de vida equivalente à dos países mais pobres do mundo, alto índice de analfabetismo e elevadas taxas de mortalidade infantil causadas por doenças endêmicas, como a diarréia e a esquistossomose." Mas não é só essa a realidade que desejo mostrar. Nos comentários e análises que se seguem, há alguns aspectos mais sugestivos da situação econômico-social do país, restringindo-a, ao período da guerra (1942-45) e, sempre que possível, estendida à série comparativa entre os anos de 1940-50-60, com base nos dados censitários daqueles anos. Germano Seidl Vidal Escritor e Historiador Volta a página principal ========================================================================== Nota importante: Todo o texto deste "site" tem Direitos Reservados (All Right Reserved), não podendo ser reproduzido total ou parcialmente, sem autorização expressa do autor. As opiniões aqui emitidas são de exclusiva responsabilidade dos autores, na sua visão, não podendo servir de base para eventuais causas de questionamentos, seja de que tipo e objetivo forem. Maiores informações sobre DIREITOS RESERVADOS, visite a página neste "site" - Direitos |