RELEITURA SOBRE O PODER DAS ARMAS

Texto do Escritor-Historiador Germano Seidl Vidal

Pensamento:CARL SAGAN, cientista consagrado, astrônomo respeitado e um dos mais influentes divulgadores da Ciência, apresentando na TV americana a série COSMOS, secundando LINCOLN, WILSON, ROOSEVELT E EISENHOWER, foi o orador oficial da consagração do Memorial da Luz Eterna da Paz, no Parque Militar Nacional de GETTYSBURG, na Pensilvânia (EUA), no dia 3 Jul. 98, por ocasião do 125º aniversário da batalha, que ali se realizou, no final da Guerra de Secessão nos Estados Unidos.

É um discurso memorável do qual vou me utilizar, por transcrição de alguns trechos, para alinhar-me a ele.

Não que me faltem argumentos para fazer da História lá ocorrida uma denúncia e um apelo ao Mundo, mas porque aquela voz tão eloqüente e respeitada já se calou para prestar contas ao Senhor e porque suas idéias têm a marca universal da perenidade.

É tempo de agir, disse ele!

Antes, ALBERT SCHWEITZER2 notabilizou-se por sua campanha a favor da paz mundial. Em abril de 1954, em carta divulgada pelo "Daily Herald", de Londres, denunciou o perigo para a humanidade com a existência da bomba atômica. Até sua morte, em 1965, haviam sido realizados 640 testes atômicos, por 5 países, a saber:

- 403 nos Estados Unidos;
- 250 na União Soviética;
- 25 na Grã-Bretanha;
- 16 na França e
- 2 na China.

Em 1996, contou-se o número total dessas insanidades: 1662, inclusive o da Índia.

Para onde vamos?

A forma lúcida, racional, diria mesmo matemática de SAGAN, nos dá uma pequena amostra desse sombrio horizonte.

Dizia ele, então, referindo-se à Batalha de GETTYSBURG, em 1853:

"Cinqüenta e um mil seres humanos foram mortos ou feridos aqui - ancestrais de alguns de nós, irmãos de todos nós. Esse foi o primeiro exemplo plenamente desenvolvido de uma guerra industrializada, com armas fabricadas com precisão e transporte ferroviário de homens e equipamentos. Foi o primeiro indício de uma era futura, a nossa era; uma sugestão do que poderia ser capaz a tecnologia voltada para os fins da guerra."

"Algumas centenas de peças de artilharia foram empregadas nos três dias da Batalha de Gettysburg. O que podiam fazer? Como era a guerra então? "


Esses projéteis balísticos, lançados dos canhões que podemos ver em todo esse Memorial de Gettysburg, tinham um alcance, na melhor das hipóteses, de algumas milhas.

A quantidade de explosivos no mais formidável deles era de cerca de vinte libras, ou nove quilos - aproximadamente um centésimo de tonelada de TNT.


O bastante para matar algumas pessoas."

E, dando curso à sua comparação com o avanço da tecnologia posta a serviço da guerra, denunciou ele, de forma curiosa e aterradora:

"No final da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos usaram as primeiras bombas atômicas para aniquilar duas cidades japonesas. Cada uma dessas armas, lançadas depois de uma viagem de às vezes 1600 quilômetros, tinha a potência equivalente a cerca de 10 mil toneladas de TNT, o bastante para matar centenas de milhares de pessoas. Uma única bomba. Alguns anos mais tarde, os Estados Unidos e a União Soviética desenvolveram as primeiras armas termonucleares, as primeiras bombas de hidrogênio. Algumas delas tinham um rendimento explosivo equivalente a 10 milhões de toneladas de TNT; o bastante para matar alguns milhões de pessoas. Uma única bomba. As armas nucleares estratégicas podem agora ser lançadas em qualquer lugar do planeta. Todos os lugares na Terra são agora um campo de batalha potencial. Cada um desses triunfos tecnológicos fez a arte do assassinato em massa avançar, sendo multiplicada por um fator de mil. De Gettysburg à bomba arrasa-quarteirão, mil vezes mais energia explosiva; da bomba arrasa-quarteirão à bomba atômica, mil vezes mais; e da bomba atômica à bomba de hidrogênio, outras mil vezes mais. Mil vezes mil, vezes mil, vezes mil é 1 bilhão; em menos de um século a nossa arma mais temível se tornou 1 bilhão de vezes mais mortal. Mas não nos tornamos 1 bilhão de vezes mais sábios nas gerações que se passaram de Gettysburg até nós."

A experiência destruidora a longo alcance por artefatos lançados de terra havia de fato começado na II Guerra Mundial, quando os alemães, correndo contra o tempo, lançaram sobre a Inglaterra as primeiras "bombas-voadoras" - V1 a distâncias de até 240 km.

Entre 1944-45, cerca de 9700 mísseis V1 e V2 haviam sido lançados sobre os ingleses, causando cerca de 10 mil mortes, na sua maioria de civis.

Quase ao final da guerra no Pacífico, forças americanas enfrentaram defesas obstinadas dos japoneses, com grandes perdas em vidas da promissora juventude americana.

GUADACANAL, GUAM, OKINAWA foram batalhas muito penosas para ambos os lados. IWO JIMA, que se tornou emblemático para os fuzileiros navais americanos - materializado na foto clássica que virou monumento -, exigiu o emprego de dois Corpos de Exército americanos para conquistar uma ilha defendida por 26 mil japoneses dos quais só mil se renderam.

Os Estados Unidos perderam nessa batalha 12500 homens.

Mac Arthur já planejava como chegar a TOKIO.

Foi quando cientistas americanos deram por concluída a bomba atômica - (tipo A).

No deserto de NOVO MÉXICO, dentro do maior segredo, numa aldeia denominada ALAMOGORDO, foi detonada a bomba-teste.

O clarão, dizem, foi muito mais brilhante que o do Sol.

Essa experiência mudou o curso da Conferência, que, então, se realizou em POTSDAM, pois não pareceu mais necessário aos americanos fazer concessões para a participação da URSS na guerra contra Japão.

Em 5 Ago. 44, o Presidente TRUMAN, a bordo do cruzador AUGUSTA, autorizou o lançamento de duas bombas atômicas sobre o Japão.

Do B-29, batizado com o nome da mãe do piloto, ENOLA GAY, a 9150 metros de altitude, foi lançada a primeira bomba sobre HIROSHIMA, regulada para detonar a 600 metros do solo.

Em 9 Ago. 44, outra bomba, que se destinava a NOKURA, dadas as condições meteorológicas locais, foi lançada, nas mesmas condições da anterior, sobre NAGASAKI.

A explosão pareceu mais violenta que a primeira.

O arsenal atômico americano estava esgotado. Entretanto o interrogatório de um piloto de B-29 abatido levou o governo japonês a imaginar que uma terceira bomba estava destinada a ser lançada sobre TOKIO em 12 Ago. 44.

Não era verdade, mas isto apressou a decisão dos japoneses propondo a capitulação sob uma única condição: manter o Imperador HIROHITO no poder, ao que foi acrescido pelos norte-americanos "desde que subordinado ao Governo Militar que se instalaria, como de resto ocorreu em toda a Europa Ocidental ocupada".

Segundo os cientistas americanos, devem ter morrido em cada cidade atingida pelas explosões atômicas cerca de 120 mil pessoas.

Este era o "veredictum" para o início da Era Atômica... Cada bomba, à época, possuía o poder de uma explosão equivalente a 20 mil toneladas de TNT.

Em 1º Mar 54, sob deliberado sigilo, os Estados Unidos detonam, como teste, uma bomba ainda mais potente que a bomba A.

Tratava-se de uma bomba de fusão com potência estimada de 15 megatons. O resultado foi uma bola de fogo de 4,8 km de diâmetro e um "cogumelo" indo até a estratosfera.

Essa bomba funcionava em 3 fases, quase instantâneas.

A primeira era a provocada pelo detonador acionado por uma bomba A. Em seguida, entrava em ação os componentes da bomba H.

Nessa 2ª fase, a fusão do deutério com o trítio formava átomos de hélio e neutrons de alta energia.

Finalmente, na 3ª, se iniciava o impacto desses neutrons com a superfície externa da bomba, feita de urânio natural (U238).

Os resultados dessa complexa explosão são provocados tanto pela "onda de expansão", a "sobrepressão" que antecede essa "onda" e graves efeitos térmicos e da radioatividade, com repercussão climática, ou seja, na linguagem que todos entendem, terra arrasada e ausência de vida...

Estava criada a arma mais mortal de todos os tempos, capaz dela própria destruir o Mundo, como ocorreu há 65 milhões de anos no suposto impacto de um cometa com a Terra, à época dos dinossauros.

É essa bomba ou similar que está nos arsenais de ogivas nucleares, podendo ter o tamanho reduzido igual a uma bola de beisebol.

Ampliando seus efeitos, para se tornarem "globais", desenvolveram-se meios de lançá-la a distância.

Sem um catálogo, que provavelmente circula na mesa dos projetistas, ouso enumerar genericamente os meios de lançamento hoje conhecidos, supostamente capazes de levar ogivas nucleares, a arma do século, aqui relacionados a título de exemplo entre outros:

- Mísseis estratégicos de longo alcance (limitado pelas negociações EUA x URSS
- SALT I e II);
- Mísseis de alcance intermediário (mais de 2400 km): " com ogivas simples ou múltiplas " intercontinental " balístico " balístico, lançado por submarino " de cruzeiro, lançado por submarino " superfície - superfície
- Mísseis de curto alcance (160 - 2400 km) " de cruzeiro, lançado por submarino " superfície - superfície
- Mísseis táticos (de alcance até 160 km) " superfície - superfície " ar -ar " superfície - ar
- Granadas de artilharia
- Bombas usadas em bombardeiros estratégicos, de longo raio de ação " com ogivas simples ou múltiplas
- Bombas usadas em bombardeiros, de raio de ação intermediário
- Bombas usadas em apoio aéreo-tático - Bombas usadas em aviões baseados em navios-aeródromos (de ataque)
- Bombas usadas em aeronaves de patrulhas marítimas (de defesa) " baseados em navios aeródromos " baseados em terra

Essa sumaríssima listagem está ainda muito longe do que se emprega hoje pelas grandes potências ocidentais, particularmente pela OTAN.

Como simples informação do amplo leque de opções para escolha e aquisição dessas armas - que Deus nos livre de sua venda aos países sul-americanos - leio na REVISTA DA FORÇA AÉREA -Ano 3 - N.º 13 - Dez/Jan. 99, em página dupla, ilustrada a cores, com as respectivas silhuetas em escala, uma apresentação de 46 diferentes tipos de mísseis ar-ar da mais variada procedência, a saber: ÁFRICA DO SUL, BRASIL, CHINA, ESTADOS UNIDOS (8 modelos), FRANÇA, INGLATERRA, ISRAEL, ITÁLIA, JAPÃO, RÚSSIA (13 modelos), SUÉCIA e TAIWAN.

Além desse elenco de mísseis de ataque e defesa, os Estados Unidos cuidaram de seu Sistema de Defesa Anti-míssil, como o conhecido PATRIOT e seu sucedâneo inglês. No governo REAGAN, surgiu o projeto de um sofisticadíssimo sistema de uma abóbada celeste de proteção dos Estados Unidos e o Canadá, conhecido como "Guerra nas Estrelas", que não passou no Congresso tal seu elevado custo.

Agora, em 18 Mar 99, a Câmara dos Representantes (deputados) dos Estados Unidos aprovou por 917 votos contra 105 o Projeto NMD (já aprovado pelo Senado) para criar um Sistema de Defesa Anti-míssil.

O Programa deve entrar em prática até o ano de 2005. Para tanto, as Forças Armadas deverão receber um acréscimo de US$ 10,5 bilhões anuais em suas verbas até aquele ano.

Também para aquele ano (2005), que parece marcar um "clímax" de super-armamento dos Estados Unidos de defesa e ataque, estão sendo encomendados 340 aviões de combate F-22, ao custo de US$ 179 milhões cada um.

Reforçando todo esse vasto potencial militar para a próxima década dos Estados Unidos, tem-se notícia do emprego pela 1ª vez em combate de um superbombardeiro.

A respeito transcreve-se trecho recente de jornal carioca:

"O bombardeio B-2, a estrela do arsenal de alta tecnologia mobilizado pela OTAN, entrou em ação pela primeira vez no ataque a Iugoslávia (sic) de quarta-feira. Apresentado a imprensa em 1988, o avião teve de esperar mais de dez anos para ser posto em combate. Seu altíssimo custo foi motivo de uma longa controvérsia mantida entre os militares e o Congresso americano: o preço de cada um fica em torno de US$ 2 bilhões. O custo total da esquadrilha de 21 B-2 planejada pelo Pentágono seria de US$ 44 bilhões. Concebidos originalmente para lançar bombas nucleares no interior da extinta União Soviética, os B-2 foram adaptados para a guerra convencional. Construídos com material especial, são virtualmente invisíveis aos radares inimigos. Os dois aviões usados no ataque da OTAN chegaram a Iugoslávia depois de 11 horas de vôo, diretamente da base aérea de Whiteman, em Missouri, EUA, reabastecendo em pleno ar. Depois de atingir vários alvos (em 25 Mar 99), os dois bombardeios voltaram aos Estados Unidos. Sua tripulação - apenas piloto e co-piloto também é menor que a dos outros modelos"

Nem sempre esse afã armamentista responde bem a estratégia americana de domínio hegemônico na área militar.

No número 3 de maio de 2000, a revista VEJA publicou matéria assinada na qual denuncia, referindo-se ao novo avião ainda na linha da fabricação.

Entre esses está o B-2 Stealth Bomber, quando diz, fazendo juz ao titulo de artigo "Caríssimos e Quase Inúteis", destacando:

"Custo do projeto: 45 bilhões de dólares. Preço de um avião: 2,2 bilhões de dólares Situação: o bombardeiro invisível é o avião mais caro de todos os tempos e ficou pronto tarde demais. Foi projetado para lançar bombas nucleares na União Soviética. Com o fim do comunismo, tornou-se um elefante branco."

E, mais adiante, na mesma Revista; "Um relatório da Comissão de Segurança Nacional, divulgado na semana passada, recomenda ao Pentágono a reavaliação dos objetos estratégicos do país. Dìz que, tendo em vista a falta de inimigos à altura, talvez seja a hora de reduzir os arsenais."

Além desse terror de preparação para a guerra nuclear, acrescentam-se os terríveis efeitos, ainda não testados em massa, das armas químicas ou biológicas.

As primeiras surgiram na I Guerra Mundial para superar a luta nas trincheiras. A substância mais conhecida naquela ocasião era o gás de mostarda, capaz de queimar a pele e provocar danos graves ao pulmão.

Estima-se que foram feridos ou mortos por essa "arma" cerca de 800 mil pessoas. Entre as mais temidas hoje estão os agentes organofosforados que agem sobre o sistema nervoso, provocando convulsões e morte.

Recentemente, tem-se notícia do uso dessa arma na Guerra Irã x Iraque (1980-1988) e no bombardeio iraquiano a aldeias curdas, utilizando um tipo de gás que atua no sistema nervoso - o Tabun, matando mais de cinco mil pessoas.

Após a assinatura do tratado de não-proliferação de armas químicas, tem-se noticias de claras violações:

A Rússia anunciou que faria uma destruição de 4.000 toneladas dessas armas, porém não a efetivou devido a seu elevado custo.

A China, que assinou aquele tratado em 1997, foi denunciada por vender aquelas armas ao Irã.

Israel acusou a Síria de estar desenvolvendo um mortífero gás XV, mas, de outro lado, esta devolveu a acusação alegando estar Israel fabricando armas químicas em instalações próximas a Tel-Aviv.

Segundo reportagem da Folha de São Paulo/março de 95, sobre armas químicas e biológicas, há ainda, neste tenebroso elenco, o gás Sarin, que é tão mortal quanto um ataque militar de 100 projetis de artilharia por Km quadrado.

Nesta escalada, acrescenta aquele jornal:

"A toxina do Botulismo é 10.000 vezes mais letal que o Sarin e os esporos de Antraz são 10.000 vezes que a toxina do botulismo."

"Lato sensu" podem ser incluídos no elenco da guerra química o "agente laranja", que retira a cobertura vegetal do terreno, sem efeito imediato sobre as pessoas, usado pelos americanos na Guerra do Vietnã.

Também alguns incluem nesse contexto o uso de bombas de gasolina gelatinosa, o "napalm", que horrorizou o Mundo diante da famosa fotografia de uma criança vietnamita, despida pelas chamas, correndo na estrada em patética expressão de dor e desespero.

As armas biológicas são compostas de substâncias originárias de seres vivos. Podem matar ou incapacitar pessoas, atuando também sobre animais e plantas. Atualmente, entre essas "armas", estão as bactérias (ou suas toxinas), vírus e fungos.

Durante a Guerra Fria, os Estados Unidos e a União Soviética desenvolveram pesquisa sobre o assunto, restando a dúvida se, eventualmente, produziram estoques desses terríveis agentes contra a Humanidade.

Chineses e japoneses, nas guerras entre 1930 e 1940, fizeram experimentos do emprego desses agentes contra o inimigo ou em seus prisioneiros de guerra. Uma das armas biológicas que hoje mais ameaça o mundo, como uma das mais mortíferas, é o bacilo do Antraz.

Ele penetra no pulmão e gera bactérias que se multiplicam no organismo com morte em dois dias. Uma matéria do Washington Post, de nov/97, dizia que um nono de um milionésimo de grama de Antraz é suficiente para matar uma pessoa com 100% de probabilidade.

A violência do bacilo do Antraz é semelhante ao vírus do Ebola. A engenharia genética, cuja ética vem sendo discutida, poderá desenvolver um vírus contra o qual não existiriam meios de se proteger.
Além disso, deve-se considerar que esses meios de agressão, tanto químicos como biológicos, podem ser produzidos também por países do 3º Mundo. Como quase tudo na guerra moderna, clamam por um efetivo Controle Internacional de Armas para "gregos e troianos"...

Dando tratos à minha imaginação ou talvez premonição, incluo nesse elenco o que não consta, explicitamente, da literatura especializada. Trata-se da infiltração nas tropas invasoras do uso de drogas, intencionalmente estimulada por parte da população das zonas ocupadas, tal qual se viu, ao final da Guerra do Vietnã, quase sempre fruto do contato da soldadesca com mulheres exploradas pela prostituição.

E vem então o vício nefasto e altamente desmoralizador de conhecidas substâncias, já amplamente disseminadas pelo Mundo. São elas classificadas como depressoras, estimulantes, perturbadoras e com efeito misto, trazendo a reboque o vírus da AIDS. Esse complicador deve ser levado em conta nessa "guerra do vale-tudo".

Faltou mencionar, nesse crescimento exponencial do poder das armas, o avanço tecnológico de altíssima sofisticação para o armamento convencional, atingindo resultados espantosos, multiplicando por milhares de vezes a capacidade dos combatentes das forças terrestres, aéreas e navais.

Todo esse potencial militar, circunscrito aos meios bélicos, não faz a guerra sozinho.

Depende, evidentemente, de formidáveis estruturas para pôr em ação não somente em regiões limitadas, como no passado se chamou de "Teatro de Operações", mas também atualmente sem aquelas delimitações.

A guerra, sendo total, se estende ao Mundo como um todo e, conseqüentemente, aquelas estruturas político-militares deverão estar capacitadas à nova abrangência de atuação das Forças Terrestres, Aéreas e Navais.

Todo esse aparato estará inexoravelmente amparado de poderoso e flexível suporte eletrônico, em todos os escalões de comando, chamado, pela sua decisiva importância, de "guerra eletrônica", que, ao mesmo tempo procura desorganizar esse suporte de comunicações e de transmissões de imagens e dados - na área da Informática - no âmbito do inimigo.

A aparente paz que durou durante a Guerra Fria (1945-1991) deixou à mostra, de forma transparente, as evidências da bipolaridade tanto política quanto econômica e social, com clara repercussão na expressão militar do Poder Nacional das Potências ocidentais e da URSS. "Segundo a exposição "O Desbravar do Século da Vida", apresentada na Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento" (Rio de Janeiro, em 1992 - conhecida por ECO - 92), após a Segunda Guerra Mundial ocorreram mais de 150 grandes conflitos armados no Mundo, que causaram cerca de 20 milhões de mortos, em sua maioria civis.

A exposição, que já foi vista por dezenas de milhares de pessoas, adverte sobre a necessidade de se mudarem os rumos do planeta Terra para que, no próximo século, a vida se sobreponha à destruição e a morte."

Além disso, como herança trágica desses conflitos, estima-se que ficaram espalhadas no Mundo, nas suas áreas mais conturbadas, cerca de 120 milhões de minas terrestres, anti-pessoal, enterradas ou abandonadas pelos litigantes. Imagina-se hoje que a maior parte esteja em Angola, no Egito e no Irã, seguidos pela China, Afeganistão, Iraque e Líbano.

Segundo especialistas no assunto, têm ainda não removido de seus territórios esse artefacto que mata ou aleija, principalmente civis de todas as idades, os seguintes países:
Moçambique, Sudão, Somália, Ucrânia, Camboja, Vietnã, e, com muito menor expressão, a Namíbia e o Chade.

Nesse período, em que o confronto militar entre os blocos esteve por um fio, ocorreram também intervenções críticas, de ambos os lados, aqui enumeradas como simples lembrança:
Os Estados Unidos: Coréia (1950-1953), Vietnã (1961-1973), Camboja (1975-1979), Guerra do Golfo (1990), 2º Ataque ao Iraque (1998) e Kosovo (na ex-Iugoslávia contra os Sérvios) (1999).

A URSS:
Hungria (1950), Theco-Eslováquia (1968), Polônia (final de 70 e início de 80) e Afeganistão (1979) e Chechênia (após a constituição da CEI e o fim da URSS) (1991).

Acrescenta-se a isto a ousada tentativa da URSS de instalar mísseis em Cuba em 1962, com reação imediata e decisiva dos EUA.

Finda a Guerra Fria, surgiu a multipolaridade de poder, como realidade complexa no campo da geopolítica, sob a chancela de uma Nova Ordem Mundial, que "stricto sensu" mais parece desordem...

Com o agravamento da crise econômica asiática, ascenderam, preponderantemente, os aspectos econômicos para influir no destino do Mundo. E nesse quadro, destacam-se, como Poder Econômico Mundial, os Estados Unidos, a União Européia e o Japão, com suas respectivas áreas de influência.

Sob o "facies" político-militar, sobrepujando-se à Organização das Nações Unidas, ditam as regras de conduta internacional os países do G-7 (Estados Unidos, Alemanha, Japão, Canadá, França, Itália e Reino Unido), considerados os mais industrializados do Mundo e capazes de financiar custosas operações militares, como a Guerra do Golfo, que resgatou a autonomia do Kuwait, mas ainda sem vencedores quanto ao seu propósito secundário de extirpar o perigo da ditadura de SADDAM HUSSEIN e, mais recentemente, a custosíssima operação KOSOVO.

E o que restou do confronto militar OTAN versus PACTO DE VARSÓVIA?

"Em 8 de dezembro de 1991, a Rússia, Ucrânia e Bielarus assinaram o Acordo de Mensk (capital de Bielarus), proclamando a formação da Comunidade de Estados Independentes (CEI) e declarando "que a União das Repúblicas Soviéticas como sujeito da lei internacional e da realidade geopolítica não existe mais".

Era oficialmente o fim da União Soviética, substituída pela CEI."

A OTAN cresceu exponencialmente e o PACTO DE VARSÓVIA se extinguiu.

Ambos deixaram uma herança tenebrosa no seu arsenal nuclear.

Embora o número de armas nucleares, em 1990, seja suficientemente elucidativo para o nosso propósito anti-belicista, vale apontar um quadro aterrador, fruto do efeito multiplicador e expansivo dessa terrível arma de destruição em massa.

Em 1970, quando os EUA e a URSS acordaram em propor conjuntamente o Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares, os dos países tinham juntos 7.455 ogivas nucleares.

Em 1995, após negociarem dois acordos SALT I e SALT II (Strategic Arms Limitation), Três Tratados START I, II e III (Strategic Nuclear Arms Reduction Treaty - o último ainda não assinado) e estar em curso umas das ferramentas mais eficazes do Departamento de Defesa dos EUA, no Mundo após a Guerra Fria, O Programa de Redução de Ameaças (Cooperation Treaty Reduction (CTR) Program), assim mesmo consta estarem estocados, nos seus respectivos territórios, 21.550 ogivas nucleares (incluindo a Rússia como sucessora da URSS), isto significa 4,2 toneladas de dinamite para cada habitante do planeta, o que é capaz de acabar com a vida na Terra 14 vezes! ...

Na nova leitura de meu trabalho de pesquisa para concluir que o número de ogivas nucleares, herança da Guerra Fria, é simplesmente aterrador, sendo pois cabível e elogiável, o resultado de negociações que levou a um documento histórico de 24 de maio de 2002, as relações atuais dos Estados Unidos e a Federação Russa que deve ser lido, na íntegra, pelos atuais estrategistas.

Ei-lo:

"Os EUA e a Federação Russa, daqui em diante referidos como as partes, lançando-se no caminho de novas relações para um novo século e comprometidos com a meta de fortalecer seu relacionamento por meio da cooperação e da amizade, acreditando que os novos desafios e ameaças globais exigem a construção de uma base qualitativamente nova para as relações estratégicas entre as partes, desejando estabelecer uma parceria genuína, baseada nos princípios de segurança, cooperação, confiança, abertura e previsibilidade mútuos, comprometidos com a implementação de reduções significativas nas armas ofensivas estratégicas, partindo da base das declarações conjuntas feitas pelo presidente dos Estados Unidos da América e o presidente da Federação Russa sobre questões estratégicas, de 22 de julho de 2001, em Gênova, e do novo relacionamento entre os Estados Unidos e a Rússia, de 13 de novembro de 2001, em Washington, cientes de suas obrigações previstas no Tratado entre os Estados Unidos da América e a União de Repúblicas Socialistas Soviéticas sobre a Redução e a Limitação das Armas Ofensivas Estratégicas, de 31 de julho de 1991, daqui em diante referido como Start, cientes de suas obrigações previstas pelo artigo 6º do Tratado sobre a Não-Proliferação de Armas Nucleares, de 1º de julho de 1968, e convencidos de que esse tratado vai ajudar a criar condições mais favoráveis para a promoção ativa da segurança e da cooperação e para aumentar a estabilidade internacional, acordaram conforme segue:
Artigo I - Cada parte vai reduzir e limitar suas ogivas estratégicas nucleares, conforme afirmado pelo presidente dos Estados Unidos da América em 13 de novembro de 2001 e conforme afirmado pelo presidente da Federação Russa em 13 de novembro de 2001 e em 13 de dezembro de 2001, respectivamente, de modo que, até 31 de dezembro de 2012, o número agregado de ogivas não supere de 1.700 a 2.200 para cada parte. Cada parte determinará a composição e a estrutura de suas armas ofensivas estratégicas, baseada no limite agregado previsto para o número de tais ogivas.
Artigo II - As partes concordam que o tratado Start permanece em vigor, segundo seus termos.
Artigo III - Para a finalidade de implementação deste tratado, as partes promoverão encontros, pelo menos duas vezes por ano, de uma Comissão Bilateral de Implementação.
Artigo IV - 1. Este tratado será sujeito à ratificação de acordo com os procedimentos constitucionais de cada parte. Este tratado entrará em vigor na data da troca dos instrumentos de ratificação: 2. Este tratado permanecerá em vigor até 31 de dezembro de 2012 e poderá ser prorrogado por acordo entre as partes ou suplantado antes disso por meio de um acordo mútuo; e 3. Cada parte, no exercício de sua soberania nacional, poderá retirar-se deste tratado mediante aviso prévio entregue à outra parte, por escrito, com três meses de antecedência.
Artigo V - Este Tratado será registrado em conformidade com o artigo 102 da Carta da ONU."


A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) é hoje uma poderosa força militar, reunindo 19 países, cujos efetivos militares atingem 4 745 400 homens. Ela nasceu por Tratado firmado em Washington, em 4 de abril de 1949, pelos Governos dos Estados Unidos, Canadá, Bélgica, Dinamarca, França, Holanda, Islândia, Itália, Luxemburgo, Noruega, Reino Unido e Portugal, visando unir suas forças para a defesa coletiva e preservar a paz e a segurança.

No Congresso dos Estados Unidos, votando contra a ratificação do Tratado, o Senador Republicano Robert A. Taft fez constar, na ocasião, que "este Tratado é uma aliança militar e, por conseguinte, significa inevitavelmente, uma corrida armamentista.

Necessariamente, dividirá o Mundo em dois campos armados e fará mais para provocar uma III Guerra Mundial do que manter a paz no Mundo."

De fato, a resposta dos países da "Cortina de Ferro" foi o Pacto de Varsóvia de 14 de maio de 1955, firmado pela Albânia, Bulgária, Checoslováquia, República Democrática Alemã, Hungria, Polônia, Romênia e União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (representando 12 Repúblicas).

Essa organização do mundo comunista foi dissolvida em 1991, após longo período de Guerra Fria, com a transformação da Europa Oriental. Portanto não existe mais oponente para a OTAN.

Já aderiram à Aliança:
a Grécia e a Turquia, em 1952; a antiga Alemanha Ocidental, em 1955; a Espanha, em 1982 e a Hungria, Polônia e República Checa, em 1999.

Outros três países do Leste já manifestaram desejo de fazer parte da Organização: Romênia, Bulgária e Letônia.

Enquanto nos Estados Unidos a palavra-chave nesse mister é integração, a Rússia continua criticando essa expansão, denunciando o perigo que ela trará.

"A ampliação da aliança atlântica não promoverá o fortalecimento de confiança e de estabilidade nas relações internacionais. Pelo contrário, poderá provocar o aparecimento de novas linhas divisórias", anunciou recente comunicado do Kremlin. Embora o Tratado da OTAN afirme em seu Artigo 1º que as Partes se comprometem, segundo o estipulado na Carta da ONU, a resolver os conflitos internacionais por meios pacíficos e a abster-se da ameaça ou do emprego efetivo da força, a organização militar dele resultante - as Forças da OTAN - desequilibrou a multipolaridade pós-Guerra Fria.

Ela é capaz de intervir, a qualquer tempo, com os mais modernos recursos de defesa e de ataque, onde se fizerem necessários, por decisão única de seu Conselho, liderado por um Secretário-Geral e fora do contexto da ONU. Isto cria um paradoxo: segurança para os seus membros é insegurança para os demais...

Ademais, como potência isolada, com forte mobilização para a guerra e fora do concerto das nações, surgem os Estados Unidos da América, capazes de sozinhos atacar em qualquer ponto do planeta, com armas convencionais e/ou nucleares de maior sofisticação, seja para os bombardeios ditos "cirúrgicos", seja para destruição indiscriminada com matança em massa, sempre sob a alegação de garantia de sua segurança nacional ou, agora, sob o argumento de "defesa humanitária".

Além disso, em sua estratégia de defesa à distância, os EUA pretendem substituir o Reino Unido, como no fim do século XVIII e início do XIX, no domínio total dos mares, garantindo assim suas fontes de suprimentos e materiais estratégicos, inclusive do petróleo.

É exatamente isto que faz o perigo aumentar: a Paz Mundial está ameaçada!

A Rússia, a China, a Ucrânia, a Índia e o Paquistão têm armas nucleares. Outros países, fora das salvaguardas do "Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares", poderão seguir tal exemplo (como vem ocorrendo com a Corea do Norte e o Iran).

A tecnologia de fabricação de armas nucleares é conhecida e de possível consecução pelos países emergentes, diante dos avanços conhecidos da Ciência. Essa capacidade de atacar ou defender-se com tais armas, inclusive com mísseis de longo alcance para ações de retaliação, poderá quebrar um equilíbrio instável cuja base é o poderio militar.

Nesse contexto, deve-se considerar que surgem novas formas de Guerra Irregular, apoiadas por mercadores de armas convencionais sofisticadas, envolvendo facções cujas lideranças não alcançam o consenso popular, com suspeitos objetivos, explorando o patriotismo natural do povo ou mesmo usando forças mercenárias para criar focos de tensão internacional ou de difícil solução.

E, potencializando toda a ira de adeptos radicais de conflitos étnicos, religiosos, ideológicos ou sociais, aparece com disseminação mundial o terrorismo - chaga do qual vamos tratar no capítulo sobre Crimes Contra a Humanidade (XXVI). E

stariam recriando uma nova tensão Leste/Oeste do tipo da Guerra Fria do passado ou outros eixos de confronto Norte/Sul ou entre os países ricos e os pobres?

Quem vai se opor para conter o ímpeto dos Estados Unidos de conservar-se a um só tempo árbitro e justiceiro, com plena autonomia de ação?

Kosovo tem maior importância do que a África em chamas?

Com tantos esforços para o desarmamento mundial e a redução de ogivas nucleares, uma posição radical de qualquer país com armas nucleares desencadearia nova corrida armamentista e haveria risco iminente para a Paz Mundial.

É tempo de agir!

Germano Seidl Vidal
Escritor e Historiador

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