Saudação feita por Israel Blajberg


Coronel Germano, eminente confrade e estimado padrinho, e sua DD esposa Da. Eunice, filhos, netos, bisnetos, familiares e amigos:

Sinto me extremamente honrado e muito grato pela invulgar oportunidade que me foi concedida, de proferir algumas palavras no dia de hoje, em que festejamos com grande satisfação para todos a comemoração de um evento marcante, quando o "site" GUERRAPROSCRITA.com alcança 2 milhões de acessos, passando o respectivo livro a figurar in totum na Internet, verdadeiro best-seller.

Valioso aporte sobre os efeitos do conflito, visao humanista de alguem que conheceu a guerra, e sessenta anos depois nos traz uma lição, de extrema lucidez.

Vamos recordar como tudo começou.

Corria o ano de 1944. Eunice, uma simpática mocinha, estava em casa, pensativa.

Parece que foi ontem.

Enquanto isso, em Deodoro, ao longo da linha da Central do Brasil, lento e constante desfilar de imenso comboio de vagões rolando sobre os trilhos, carregando as tropas prontas, para embarcar no Cais do Porto, onde um imenso navio americano de transporte aguardava, junto com unidades navais da Marinha do Brasil, que comporiam a escolta até Gibraltar.

Em total sigilo, as tropas vinham da Vila Militar e de Minas.

Mesmo no inverno, o sol do Rio de Janeiro já era quente de manhãzinha, bem diferente da Itália gelada para onde o noivo de Eunice estava iniciando uma longa viagem naquele trem, a viagem que não para todos teria retorno.

Mesmo longe, de casa, a intuição de Eunice lhe dizia que Germano estava partindo, e mentalmente lhe desejava boa-sorte.

Assim, com as bênçãos da noiva distante, o jovem Tenente de Artilharia GSV, Oficial Subalterno da 2a. Bateria do 4º. Regimento de Obuses 155, seguiu para o front, junto com os seus soldados.

A tradição militar da família vinha de longe.

Seu avô, Gen Alfredo Vidal criou o Serviço Geográfico do Exército, e seu pai, Major Brig Godofredo Vidal, foi um dos pioneiros da aviação militar no Brasil.

Até hoje, seus descendentes continuam mantendo aquela tradição.

Correspondendo aos anseios da família, o menino Germano era estudioso, e aprovado no difícil concurso de seleção, tornou-se um Cadete do Realengo, usando com orgulho a cintura o espadim, a miniatura do sabre invicto de Caxias.

Praça de 1940 da Escola Militar, optou pela Arma dos fogos largos, poderosos e profundos, tendo sido declarado Aspirante a Oficial da Arma de Artilharia em março de 1943.

Antigos retratos demonstram a alegria do pai, Godofredo, e da sua dedicada genitora Da. Beatriz Seidl Vidal.

Seu filho Germano, um Oficial, do Exercito de Caxias, da Artilharia de Mallet, envergando com garbo o Primeiro Uniforme, na cerimônia a que compareceu o Presidente da Republica.

Ali começava a carreira exemplar de um Soldado Brasileiro, que duraria quase 33 anos.

Designado para a Guarnição do Distrito Federal, foi mandado servir no histórico Grupo Escola, logo em seguida promovido a 2°. Ten.

Naquela época a Artilharia era hipomóvel, com as peças tracionadas por cavalos das linhagem Bretã e Percheron.

Assim, as unidades de artilharia muito se assemelhavam as da Nobre Arma Ligeira, a Cavalaria.

Tinham baias, veterinários, enfim, tudo que fosse necessário para o deslocamento dos canhões Krupp 75, lenta e seguramente, daí a tropa de artilharia seguir uma cadencia diferente das demais, como bem demonstra o ritmo peculiar da Canção da Artilharia.

Naquele ano, o Brasil tinha declarado guerra aos paises do Eixo.

Era a resposta aos torpedeamentos de navios mercantes inocentes ao longo da nossa costa.

Aquele cujo nome nos abstemos de pronunciar, havia decidido se vingar desencadeando contra nós, um país pacífico e ainda rural, uma cruel guerra submarina sem aviso prévio.

Mas soubemos resistir, honrando o exemplo do nosso passado de lutas - em esforço nacional supremo nos capacitamos a reagir, enviando para a Itália a FEB - Força Expedicionária Brasileira, um Grupo de Aviação de Caça, e guarnecendo o litoral com a nascente FAB e a Marinha do Brasil.

Somente na FEB foram 25 mil homens, dos quais quase 500 não voltaram, além de outros milhares nas tripulações dos navios de guerra e mercantes, e centenas de aviadores e pessoal de terra.

Segundo o Mein Kampf, o III Reich deveria durar 1000 anos.

As populações polonesas, russas e outros eslavos seria transformadas em escravos dos "arianos", sem nenhum direito a não ser trabalhar para a Alemanha.

Os judeus, ciganos, comunistas, homossexuais e deficientes físicos e mentais nem esta sorte teriam.

Deveriam ser impiedosamente exterminados nas câmaras de gás; apenas a pretensa "raça pura" teria direito a viver.

Os brasileiros e os africanos, também considerados raça inferior de mestiços, seriam explorados quando chegasse a sua vez, apenas fornecendo matérias primas e deixados a própria sorte.

Germano seguiu para a Itália em 19 set 1944, desembarcando já sob o frio que prenunciava o inclemente inverno europeu.

Logo sua Bateria foi enviada para a frente de combate.

A Artilharia da FEB era comandada pelo General Cordeiro de Farias, recebendo diretamente dos Estados Unidos os obuses mais modernos, de que ainda não dispúnhamos no Brasil.

Sob a proteção da Augusta Padroeira Santa Bárbara, a guerra estava começando.

Germano entrava em ação.

No sopé do Monte Bastione um vento gelado já prenunciava os rigores do inverno que vinha chegando.

O Comandante do IV Grupo era o então Ten Cel Hugo Panasco Alvim.

O 2º Tenente Germano foi designado Comandante da Linha de Fogo da 2ª Bateria do então I Grupo do 1º Regimento de Artilharia Pesada Curta (Grupo Escola) - I/1º RAPC (GE), o IV GO 155 da FEB, função na qual permaneceu durante toda a Campanha da Itália.

Germano exerceu também a função de observador avançado, junto às primeiras linhas da Infantaria, em pontos considerados extremamente perigosos, inclusive no quarto e bem sucedido ataque a monte Castelo.

Na Citação de Combate concedida pelo Marechal Mascarenhas, lê-se que " o IV Grupo confirmou nos campos de batalha da Itália seus méritos... e as esplendidas qualidades da Art brasileira ... soube elevar bem alto as nobres tradições da Art de Mallet. "

No total, foram disparados pelo Grupo 30 mil tiros de artilharia, sendo 10 mil somente no mês de abr de 45.

A FEB conquistou ao inimigo mais de 400 km ao longo da Itália, libertou dezenas de cidades e vilas, fez mais e vinte mil prisioneiros.

Esforço acima das suas possibilidades, em temperaturas de -18 °C, terreno montanhoso e minado, precipícios, cotas elevadas de onde o inimigo entrincheirado dominava as vistas e os fogos sobre nossas posições.

O Brasil se sacrificou, seu povo, sua economia, submetidos a um esforço que não poderia fazer, não recebeu ressarcimento, e ainda ajudou paises como a Itália, hoje membro do G7, como bem descrevem em detalhes os artigos de Germano Seidl Vidal na ADN, Revista da ESG, e outras, afinal consusbstanciados no livro A Guerra Proscrita lançado em 1999 e que hoje podemos consultar na Internet já com mais de 2 milhões de acessos.

Livro esgotado, autentico best-seller a desfraldar bem alto a bandeira pro-pacifismo ativo, na luta já agora sem armas a que se dedicou Germano.

No seu depoimento para a História Oral do Exército Brasileiro, Germano recorda o dia em que chegou de volta da guerra: " Em 22 ago 45, desembarcamos no Cais do Porto, de onde saímos com as viaturas, os tratores e os obuses para um desfile motorizado ... passamos sob aplausos pela Av Rio Branco... o povo nos recebia com entusiasmo e demonstrações de carinho. "

Nessa horas, certamente Gemano pensou nos irmãos de armas que não voltaram.

Não existe consolo, mas suas almas se elevaram pela certeza de que um mundo melhor passaria a existir.

Finalmente acabara a longa separação, os noivos estavam juntos outra vez, e assim permaneceriam até hoje.

Germano e Eunice se casaram em 1946, tendo no ano passado comemorado as Bodas de Diamante, em memorável cerimônia na Igreja Santa Margarida Maria.

Em 48 Germano era Capitão, já tinham 2 filhos, em 55 Major, 3 filhos, cursando a ECEME, exercendo seu primeiro comando na 1ª./4°. GACosM de Salvador, e recebendo a Ordem do Mérito Militar.

Germano comandou o CPOR de Salvador, onde também ajudou a impulsionar o escotismo.

Até hoje antigos alunos, muitos em posições relevantes na vida nacional, são seus amigos.

Oficial superior sempre promovido por merecimento, integrou o Corpo Permanente da Escola Superior de Guerra.

Ao deixar o serviço ativo em 1972, uniu-se ao esforço de construção da UHE Itaipu, a qual dedicou com o entusiasmo que lhe é peculiar década e meia de intenso labor.

Ao longo da carreira redigiu um sem numero de livros e artigos publicados em revistas civis e militares, alem de vídeos e material áudio visual.

Pela relevância da sua obra, tornou-se socio-titular do IGHMB, tendo sido ainda elevado ao grau de Acadêmico Emérito da AHIMTB.

Senhoras e Senhores, neste breve relato foi com grande satisfação que procurei traçar em breves pinceladas alguns destaques da carreira exemplar do Cel Germano, soldado e cidadão brasileiro, pai e avô que sempre aglutinou a família a sua volta, admirado e respeitado por todos, grande amigo dos amigos, além de artista plástico e admirador da música, ensinanod a todos nós uma lição de vida, um exemplo a ser seguido pelas novas gerações.

O Todo Poderoso, que levou Germano para o combate, permitindo que retornasse são e salvo, reservou-lhe uma vida plena de trabalho e realizações, tendo transmitido aos filhos e netos, pelo seu exemplo de vida e postura profissional, tanto militar quanto civil, elevados princípios morais e valores humanos, eles que tão bem se desempenham em tantas facetas da atividade humana, seja o direito, a engenharia, medicina, artes cênicas e visuais, cultura e informação.

Hoje, aqui reunidos, não só comemoramos juntos mais uma etapa vitoriosa na vida do estimado Cel. Germano, significativo marco alcançado lançando A GUERRA PROSCRITA na Internet, com mais de 2 milhões de acessos, como também prestamos a maior homenagem que poderia receber pela sua carreira exemplar, o melhor elogio que poderia merecer, como nobre escritor Coronel Germano Seidl Vidal - Velho Artilheiro.

Cumpriu o seu Dever Bravo e Exemplar Soldado Brasileiro !

Israel Blajberg
Engenheiro e Professor
Membro da AHMTB e do IGHMB

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