XVII - RELAÇÃO CUSTO - BENEFÍCIO

Revisado em Agosto de 2006



Escrevo este capítulo num misto de tristeza e inconformismo.

Tais sentimentos retiraram-me temporariamente a condição de historiador, de renitente pesquisador, de analista moderado de acontecimentos passados, presentes e de projeções futuras, questões que constituem o cerne de todo esse longo trabalho.

Sinto os arroubos da juventude que não chegam além da minha pena.

Lamento que nossos Aliados na guerra não honraram nossos mortos, que, se não foram muitos em relação aos milhões sacrificados na Europa e no Pacífico, são o nosso pranteado quinhão dos imolados no cumprimento das missões que nos couberam na Campanha da Itália e na do Atlântico Sul.

Nem se aperceberam de que submetemos nossa população, com cerca de 20 milhões de jovens de menos de 20 anos de idade, a longo racionamento alimentar de 3 anos, para nos dedicarmos ao abastecimento de materiais estratégicos e alimentos de nossos então Aliados.

Não consigo reler as páginas que já escrevi, nas 1ª e 2ª PARTES deste livro, sem vir a pelo um total inconformismo com o tratamento que nos foi dado no pós-guerra.

No Capítulo XVI anterior, sem mencionar explicitamente tal propósito, demos curso à revisão da estratégia "tupiniquim" para a instalação de nosso primeiro parque siderúrgico, a de vencer a pressão dos "trusts" estrangeiros, tornando vitoriosa a tese nacionalista do monopólio estatal do petróleo e de criação de seu instrumento de independência econômica, a nossa PETROBRÁS.

Sem esse caráter ideológico, mostrou-se como se chegou à estatização no setor de energia elétrica, que, nessa condição, instalou e operou 50.000 MW.

Tudo isto para quebrar tabus de que para desenvolver aquela estratégia dependeu-se de benesses do governo americano como ressarcimento por nossa atuação na Guerra.

Não foi.

A historiografia brasileira e estrangeira, que trata da participação do Brasil na II Guerra Mundial, aponta, de forma diferente mas quase exaustiva, as conseqüência para o nosso país de natureza política, econômica, social, psico-cultural, científica-tecnológica e militar.

Nesses textos, sempre muito elucidativos, sob os vários ângulos do flagelo da guerra, vê-se o nosso país sair da obscuridade no concerto mundial como um dos componentes dos Aliados e, conseqüentemente, da vitória final sobre o nazi-facismo. Homenageando o autor da mais completa obra sobre o assunto, o saudoso companheiro TenCel MANOEL THOMAZ CASTELLO BRANCO, extraí trecho de seu livro "O BRASIL NA II GUERRA MUNDIAL" (BIBLIEX - 1960):

"XXVIII CONSEQÜÊNCIAS DA GUERRA

Pelo montante e natureza dos serviços prestados pelo Brasil à defesa das democracias, ninguém duvidaria que, no após-guerra, passasse a desfrutar de invejável posição no concerto internacional.

No campo político, tanto se solidarizou à causa aliada, arcando com todas as responsabilidades que pudessem advir de tal atitude, como fortaleceu, no plano continental e mundial, a posição dos aliados, no exato momento em que a união, mais do que nunca, representava força.

Na esfera econômica, a sua contribuição foi inestimável, cabendo-lhe fornecer, aos Estados Unidos e à Inglaterra, materiais estratégicos indispensáveis ao esforço de guerra, tendo ainda arrendado àqueles, ao preço simbólico de dólar mensal por unidade, 12 navios de sua frota mercante, assumindo ainda o compromisso de destinar 23 dos que restavam ao tráfego exclusivo entre os seus portos e os deles.

Tão importante foram estes serviços, que a United States War Production Board declarou, mais tarde, que "sem a produção brasileira de materiais estratégicos e a ponte aérea os Estados Unidos não teriam cumprido as suas metas."

Finalmente no campo militar, a sua participação foi igualmente expressiva.

Defendeu o litoral contra possíveis incursões inimigas que poderiam afetar a segurança do hemisfério, protegeu o tráfego marítimo aliado dentro das suas águas territoriais, bem como o tráfego aéreo entre a África e o Brasil na ocasião em que os norte-americanos se transferiam da Europa para o Pacífico, participou diretamente da luta na Itália, cooperando com o V Exército norte-americano num momento em que se encontrava em grandes dificuldades para encerrar a última fase da campanha, e não vacilou em ceder aos Estados Unidos bases aéreas existentes no norte e nordeste do país, que lhes serviram de instrumento da sua estratégia.

Referindo-se a estes últimos aspectos, Cordell Hull, num preito de reconhecimento e admiração aos seus esforços, assim se expressou nas suas memórias, repetindo, parcialmente, o que a United States War Production Board já havia dito:

"Sem as bases aéreas a vitória na Europa e na Ásia não teria ocorrido tão cedo.

Essas bases, projetando-se á distância no Atlântico Sul, permitiram que voassem os nossos aviões em grande número para a África Ocidental e dali para os teatros de operações na Europa e no Extremo Oriente.

Não fossem as bases brasileiras, não nos teria sido possível ajudar os ingleses no Egito como fizemos no momento crucial da batalha de El Alamein".


E prossegue:

"Enviou ainda o Brasil uma Força Expedicionária à Europa.

Sua Marinha de Guerra contribuiu para o patrulhamento do Atlântico.

No esforço para abastecer os Estados Unidos, perdeu o Brasil parte considerável da sua Marinha Mercante".

Se adicionarmos a esta folha de serviços, os prejuízos decorrentes da sua atitude, veremos que a sua contribuição representou, inegavelmente, algo de ponderável no desenlace da guerra.

Entretanto, para surpresa dos que aguardavam melhor sorte, mantiveram-no numa situação discreta, cujos primeiros indícios residiam no fato de não ter sido chamado a participar da Conferência que se realizou em Paris para rateio das cotas de reparações, bem como na solução pouco satisfatória dada à questão, equiparando-o àqueles países americanos que pouco ou quase nada haviam realizado em proveito da vitória final, ao lhe comunicarem que poderia lançar mãos dos bens dos súditos alemães, já penhorados para tal efeito, esquecendo-se de que, na realidade, estavam integrados à economia nacional e que, sendo um país eminentemente de imigração, não ficaria bem punir aqueles que o procuravam livremente para cooperar no seu engrandecimento, quando outras soluções poderiam ser apresentadas.

Enquanto os Estados Unidos se mantiveram no firme propósito de fortalecer a política pan-americana, cujo apogeu correspondeu ao período governamental de Roosevelt, as diversas repúblicas americanas desfrutaram duma situação cômoda e futurosa.

Todavia, a partir da Conferência de São Francisco, realizado no ano de 1945, quando começaram a inclinar-se por uma política de concepção global e de segurança afastada, foram sendo aos poucos esquecidas e relegadas a segundo plano.

Suas vistas voltaram-se, assim, para os continentes europeu, africano e asiático, onde aplicaram fabulosos recursos através do chamado Plano Marshall, com a finalidade de ajudar os seus povos a recompor as suas economias e as suas Forças Armadas, levando a sua influência aos mais afastados recantos da terra.

O Brasil estava a exigir o mesmo amparo, mas é que a sua posição estratégica já não tinha a mesma expressão anterior, nem como fonte de matérias primas, nem tão pouco como base de operações, fatores esses decisivos para a conduta da guerra. Não obstante, porém, esta brusca mudança de rumos, o Governo brasileiro continuou a insistir junto aos norte-americanos, "não na base de donativos - como frisou o Embaixador Antônio Camillo - mas de inversões reembolsáveis, com os respectivos juros, como sempre temos feito", convicto de que, por maiores que fossem os seus interesses fora do hemisfério, não poderiam enfraquecer velhos e tradicionais laços de amizade que remontavam o período áureo e decisivo da Independência."


Meu escopo agora é outro.

Preciso, simplesmente, confrontar os ônus financeiros da guerra com os benefícios que, obviamente, teriam decorrido de tais ônus, voltados para a nossa população, sejam eles diretos ou indiretos.

E o que vimos?

Internacionalmente, é estarrecedor o confronto dos nossos ônus, estimados em US$ 6 bilhões, com os recursos postos pelo Banco de Reconstrução Mundial (hoje Banco Mundial) da ordem de US$ 13,5 bilhões para a reconstrução da Europa.

O gráfico abaixo mostra a repartição dessa ajuda pelos países beneficiados:


NOTA - Total distribuído pelo Congresso norte-americano: 13,150 bilhões de dólares, de 3 de abril de 1948 a 30 de junho de 1952.
FONTE - CLÁUDIO VICENTINO e REINALDO SCALZARETTO - "CENÁRIO MUNDIAL - A NOVA ORDEM INTERNACIONAL" - EDITORA SCIPIONE - 2ª EDIÇÃO - 1999

Se a nossa situação no período de 1942-45 era de extrema pobreza, com carências graves para a população, como vimos estatisticamente no Capítulo XII desta 2ª PARTE, o confronto de dois "brasis" - um paupérrimo e outro pródigo - é constrangedor.

Tal feito se verifica na adesão do Brasil ao Acordo de Bretton Woods, que em 1945 criou o Banco de Reconstrução Mundial, depositando logo US$ 1 bilhão dos US$ 2 bilhões que tínhamos de saldos congelados de exportação nos EUA e permanecermos ainda como dos maiores credores do Banco em 1957!

Vale dizer, por absurdo, que fomos financiadores do famoso PLANO MARSHALL com 7,4% do total distribuído pelo Congresso Americano, como investimentos para os países beneficiados.

Um verdadeiro descalabro diante de nossas prementes necessidades de bens de capital logo após a guerra.

Acrescenta-se a isto a nacionalização das estradas de ferro de companhias inglesas no Brasil, com material obsoleto e desvalorizado, pelos US$ 877 milhões de nossos saldos congelados na área da libra, por exportação para a Europa de alimentos e matérias-primas, sob um severo racionamento interno.

Finalmente, chamamos atenção para o total estimado do custo assumido pelo Brasil na guerra, detalhadamente arrolado nas tabelas do Capítulo IV da 1ª PARTE e completadas, estimativamente, para os itens ainda não-contabilizados, com o propósito de se ter, como uma primeira avaliação, aquele custo total, que monta a US$ 3 bilhões 337.

Tal valor não chegou a ser levado pelo Brasil à Conferência de Reparações da Guerra de Paris, por ter nosso país sido excluído de comparecer à mesma, embora outros países com menor valor estratégico e efetiva contribuição para a vitória final dos aliados tenham usufruído dessa condição e recebido reparações, como, por exemplo, Austrália, Egito, Índia, Nova Zelândia e União Sul-Africana, que foram contemplados com o rateio da frota comercial alemã.

Tudo isto referido ao "dólar da guerra", cujo valor hoje pode ser calculado, com razoável aproximação, multiplicando-se aqueles valores por 10 (1998).

Também, é importante ressaltar que nossa participação na Campanha da Itália foi expressiva, uma vez que levamos para o "front" uma Divisão de Infantaria, chegando a ter no Teatro de Operações entre Órgãos não-Divisionários e o Depósito de Recompletamento de Pessoal um total de 25334 homens, tendo feito 20573 prisioneiros.

A França, que saiu de um governo colaboracionista do Marechal PETAIN, só pôde incorporar aos Exércitos Aliados, após a epopéia da Normandia, 9 divisões.

E a Itália, que passou metade da Campanha com dois governos, o de Badóglio do Sul e o de Mussolini ao Norte, não deu contribuição alguma aos Aliados.

Nossos soldados granjearam várias medalhas de bravura norte-americana, a "Distinguished Service", a "Silver Star" e a "Bronze Star" e um elogio, em conjunto, do Gen. MARK CLARK e do Gen. CRITTENBERG, Comandantes do V Exército e do IV Corpo de Exército respectivamente, que nos comandaram nas ações de combate.

O Grupo de Caça "Senta a Pua" teve 16 aviões abatidos com 5 pilotos mortos e se destacou no número de saídas dos P-47 muito acima da média das unidades semelhantes dos EUA, com 2546 saídas ofensivas em 239 dias de ação, pelo que mereceu a "Presidential Unit Citation", só concedida a mais 2 outras organizações militares estrangeiras.

Tínhamos Oswaldo Aranha e Souza Costa para assessorar o Governo no terreno político-diplomático, porém faltava disposição para enfrentar grandes interesses internacionais, acobertados pelos nossos antigos Aliados.

Só esses dados seriam suficientes para um balanço desfavorável na relação Custo & Benefício, conseqüente de guerra para o Brasil.

Mas para mostrar que a redemocratização do país, em 1945 e a conseqüente onda de liberalismo nas relações internacionais não nos elevaram ao 1º Mundo nem nos salvaram dos índices sociais deprimentes de 3º Mundo, mesmo passados 15 anos do término da guerra, apresentamos as tabelas e séries estatísticas do Capítulo XII.

Concluo, menos como historiador e mais como patriota, que, na verdade, fomos usurpados de nossos "direitos de guerra" e condenamos o povo a "pagar a conta" da vitória estrondosa...

Não houve benefícios!

Germano Seidl Vidal
Escritor e Historiador

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