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ONDE REBRILHA A GLÓRIA DE
MASCARENHAS
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do Escritor-Historiador Germano Seidl VidalVou tratar da figura de nosso homenageado como pessoa, não como pessoa comum, pois ele teve uma vida muito especial posta exclusivamente a serviço do país na ativa do Exército Nacional por 14 lustros. O escopo do trabalho não é reeditar a vida militar de Mascarenhas ao longo daquele tempo, mas simplesmente pontuá-la de fatos notáveis. 1. O Caráter Antes de abordar o tema epigrafado, tão apaixonante, buscarei os termos em que coloco sua avaliação na paz e na guerra. Foi esse mesmo espírito que transparece das palavras do então Gen. Humberto de Alencar Castello Branco, no comando da ECEME, quando assim se expressou: "Ser Chefe Militar é ser capaz de conduzir homens atribulados pelo tumulto da guerra, sem perder a lucidez e a serenidade." Não é mais possível, nem como método de raciocínio, separar a figura de Mascarenhas para examiná-la com os atributos demonstrados em tempos de paz e os de guerra. Ele é o Marechal que se projetou em ambos. O Gen. Meira Mattos escreveu preciosa síntese sobre a "Personalidade do Comandante da FEB". Diz ele: "Três características essenciais ornavam o seu caráter: SERIEDADE - homem sério de pensamento e de ação [...]; MODÉSTIA - modesto por natureza, sem humildade e sem afetação; HONRADEZ - [...] criava em torno de sua pessoa e de suas atividades um ambiente de dignidade tão elevado, que os impuros, os sem caráter, ou dele se afastavam ou se sentiam incomodados [...]." Com estes predicados, granjeava sólida confiança daqueles a quem comandava. Orlando Geisel, em discurso admirável, num momento de reverência cívica, que mais adiante descreveremos, fez uma síntese brilhante da trajetória luminosa de Mascarenhas de Moraes como cidadão, homem público e chefe militar. Dizia então: "Se grande foi o general na guerra, maior foi o cidadão. O triunfo, a popularidade e a glória poderiam tê-lo levado, facilmente, a rendosas atividades econômicas ou à vida política.[...]." 2. O Destemido Este tópico avulta de importância pelos fatos históricos a seguir relatados, que se referem a atitudes pessoais do Gen Mascarenhas durante os combates. Fujo das palavras oficiais, como heroísmo e bravura, que constam das citações nos diplomas da Cruz de Combate brasileira, uma vez que elas também existem em quase todos os Exércitos em campanha. Fico com a simplicidade do biografado ao relatar um desses episódios, que ele descreve no seu livro de memórias. Mas o fato passa a História em testemunho superqualificado, como o do Gen. Vernon A. Walters, do Exército norte-americano, em seu livro já traduzido pela BIBLIEX em 2000. O autor citado foi mais eloqüente, como se segue: "O Comandante da FEB estabeleceu o seu quartel-general avançado na pequena estação balneária de Porreta Terme, cercada toda de montanhas repletas de tropas inimigas. Rapidamente, os alemães localizaram o QG da Divisão e começaram a bombardeá-lo com regularidade perturbadora. Estes bombardeios iniciavam-se normalmente às seis horas da tarde em ponto e provocaram muitas baixas. As granadas eram de grande calibre (170mm) e atiradas à distância de mais de vinte quilômetros." "Em relação a estes bombardeios, contarei uma passagem que assisti pessoalmente. Um dia, o General Crittenberger disse ao General Mascarenhas: "Sei que este fogo do inimigo está dificultando o funcionamento de seu Posto de Comando. Se o senhor achar conveniente, tem minha permissão para recuá-lo, fora desta zona batida pelo inimigo." O General Mascarenhas respondeu calmamente: "General Crittenberger, o senhor é norte-americano, e seus compatriotas têm muitos PC's na Itália; podem deslocá-los para frente e para trás sem ninguém notar. Este, sendo o único brasileiro, quando eu deslocá-lo será para frente e não para a retaguarda." O General Crittenberger abraçou-o sem uma palavra. E assim foi." Isto é o que chamo de destemor, pois classifica seu detentor como intrépido, valente, que não tem temor... Mas, o Gen. Vernon Walters foi além e cita, no mesmo livro, outro acontecimento inusitado. Ele conta que estavam regressando do "Front" de Gaggio Montano o Gen Mascarenhas, o Gen Zenóbio, o Cel Lima Brayner e ele, num mesmo veículo, quando foram obstados de prosseguir, ao chegar no desvio de Croaciale, por um soldado da PE que avisou estar a área sob bombardeio de artilharia alemã. Avançar seria perigoso... O Gen Mascarenhas ficou impaciente e disse ao policial: "Rapaz, estou com pressa e tenho que passar." E, dirigindo-se ao motorista, falou: "Ayrton, toca p'ra frente!" Aproveito essa posição privilegiada do Gen. Vernon Walters, que acompanhou a FEB desde os primórdios, no Brasil, até a vitória final na Itália, para tornar mais conhecido o seu conceito final sobre o chefe que acompanhou, quase diariamente, naquele período. O Gen. Vernon, que exerceu os mais altos cargos militares e os da área de informações dos EUA, conclue: "O Brasil honrou o seu maior soldado deste século. Impressionante na paz e glorioso na guerra." 3. O Comandante O Marechal Mascarenhas de Moraes escreveu completo relato de sua vida profissional. Em seu livro, publicado logo após a Campanha da Itália, detalha, da maneira simples que lhe é peculiar, sem ufanismos exagerados, toda a saga da FEB, desde seus pródromos no Brasil e sua repercussão interamericana à vitória sobre o nazi-fascismo na Europa. Nas suas Memórias, conta sua vida inteira de 82 anos de idade com absoluta precisão. Como avaliador de fatos tão ricos de ensinamentos para os seus pósteros, ninguém supera seu principal biógrafo, o Gen. Div. Carlos de Meira Mattos, consagrado historiador, ex-combatente, respeitado, amigo estimado do Marechal, autor de valiosas publicações sobre História e Geopolítica. Basta-me, pois, pinçar alguns fatos por eles descritos, sem a idéia de classificá-los pela importância de que se revestiram, segundo nosso escopo neste tópico. Os primeiros cinco anos da vida militar de Mascarenhas, ele os dedicou como voluntário, ao trabalho de demarcação de limites nas fronteiras de Mato Grosso e do Acre, trabalhando na Comissão criada para tal fim. A respeito da tarefa dessa Comissão, diz Meira Mattos: "[...]Em vez de se maravilharem com as riquezas adormecidas no território palmilhado, eles deslumbravam, com profunda tristeza, os deprimentes quadros sociais, as condições de abandono do homem, que tinha de ser, afinal de contas, a riqueza maior para a Nação, a célula viva de seu organismo social, a matéria-prima de sua força de trabalho. [...]" Depois, ao longo da carreira brilhante, de tenente a coronel, Mascarenhas aperfeiçoou-se técnica e taticamente, tendo sido o 1o aluno do curso inaugural na Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais, então conduzido com suporte da Missão Militar Francesa. Aos 54 anos de idade, atingiu o generalato, aonde poucos chegavam. Mas é, ainda nesse período, que vão ocorrer importantes acontecimentos de que participa na vida do país, sendo sempre decidido e leal em época de efervescência revolucionária. Sintetizando, assegura Meira Mattos: "[...]Para aí chegar não faltaram sofrimentos, não faltaram méritos excelsos [...]" Como oficial-general, enfrentou sérios desafios impostos pela guerra já em curso na Europa e na África. No comando da 7a RM, viabilizou o Plano de Defesa do Nordeste, preparado pelo EME, inclusive com a colaboração norte-americana, tendo em vista a cessão de uso de Bases Aéreas e Navais naquela Região e a aprovação do "lend-lease" para o rearmamento do Exército e da própria FEB. Ao deixar aquele comando, Mascarenhas havia conseguido elevar o efetivo da 7a RM de 5 mil homens para 50 mil, sendo 4 mil em Fernando de Noronha. Foram tais os êxitos obtidos que o Governo dos EUA lhe concedeu a Ordem da Legião do Mérito, em cujo Diploma constou: "[...]Por conduta excepcionalmente meritória na execução dos serviços notáveis como general comandante da 7a Região Militar[...]". Antes, o Interventor Federal em Pernambuco, Dr. Agamenon Magalhães, em entrevista ao jornal local, também se pronunciara, após dois anos de convívio em clima de guerra, afirmando que: "[...] O Gen. Mascarenhas de Moraes é um grande chefe militar. As populações do Nordeste podem confiar nele. Confiar e ajudá-lo [...] Ele é um chefe que prevê, organiza com senso de medida e uma precisão admirável; [...] Um chefe assim impressiona, despertando nos comandados mais do que confiança, despertando entusiasmo, a crença e a exaltação patriótica [...]." Depois, comandou brevemente a 2a Região Militar, dedicando-se ao recrutamento e adestramento de tropa e provendo os recursos necessários para pôr em prática a Defesa Civil e a Mobilização Industrial. Finalmente, aceitou, de pronto, o convite do Ministro de Guerra, Gen. Eurico Gaspar Dutra, para organizar e comandar a Força Expedicionária Brasileira. No Teatro de Operações da Itália, é o mesmo chefe sereno e confiante em si mesmo e nos seus comandados. Diante de algumas adversidades no Vale do Reno, assume a coordenação pessoal de seu Estado-Maior, dando primazia à atuação do seu Chefe da 3a Seção. Não substituiu ninguém. Usou seu estilo conciliador e enérgico e passa a conduzir diretamente as operações, com presença marcante nas frentes de combate. Rompida a Linha de Defesa Alemã nos Apeninos, após a conquista de Zocca, tomou a iniciativa estratégica de motorizar a sua Infantaria, utilizando as viaturas da Artilharia Divisionária (AD) e dos outros órgãos divisionários. Em rápida manobra, cerca e prende duas Divisões, uma alemã (148a DI) e outra italiana (a Bersaglieri Itália), além de remanescentes de uma Divisão Panzer alemã. É a vitória de Collecchio e Fornovo. Tais êxitos estão referendados pelas manifestações dos chefes aliados, como se seguem: - Do General Mark Clark, Comandante do XV Grupo de Exércitos: "A captura da 148a Divisão alemã trouxe novo brilho para a glória das armas brasileiras." - Do General Lucien Truscott, Comandante do V Exército: "Acabo de ter conhecimento da sua grande vitória com a rendição total da 148a Divisão alemã. Peço aceitar minhas calorosas felicitações, não só em meu nome, como de todo o V Exército e de minha Pátria. Seus valorosos soldados cobriram-se hoje de glórias que sei que o seu povo, no Brasil, está justamente orgulhoso deles." - Do General Willis Crittenberger, Comandante do IV Corpo de Exército: "Desde a derrota do inimigo no Serchio e agora a rendição final de 148a DI alemã, com pesadas perdas, deve ser motivo de grande satisfação para V. Excia e para todos os brasileiros. Estou orgulhoso de ter tido a 1a DIE-FEB como parte do IV Corpo nessa Campanha." Esse repertório de referências elogiosas à atuação da FEB, ainda durante a Campanha, dá bem conta da excelência do estilo de comando de Mascarenhas, como muito bem retratou seu ilustre biógrafo, o Ministro Tristão de Alencar Araripe, que afirmou: "[...] Por isso, ao comandar tropa em operações de guerra, ele se apresenta com o feitio pessoal de comando, em que as linhas mestras são o senso pessoal da responsabilidade, a serenidade, a prudência nos seus pronunciamentos, a tendência personalista de não se deixar influenciar pelas opiniões de outrem, a firmeza de sustentar as decisões próprias, o rigor nas exigências da disciplina e no cumprimento das ordens recebidas, aliado a certa tolerância nos casos justificados de fraqueza ou insuficiência dos subordinados. Acima de tudo, por ser um chefe disciplinador ponderado, era um subordinado extremamente disciplinado e consciente. Sem arrogância e sem exterioridades, era o senhor de sua tropa e de seus subordinados imediatos." Voltou vencedor, mais do que nunca, patriota. Ao pisar o solo brasileiro, foi depositar, no Monte Guararapes, os louros das vitórias conquistadas por seus soldados, declarando, em memorável discurso, que "a memória dos expedicionários mortos unir-se-á à daqueles que, no passado, tombaram pela soberania do Brasil." Desencantado no ostracismo em que ficou, no pós-guerra, pediu transferência para a reserva em maio de 1946, o que se efetivou no posto de General do Exército em agosto de 1946. Distinguido com as honras de Marechal pela Assembléia Constituinte de 1946, veio a merecer do Congresso Nacional, em 1951, a investidura no posto de Marechal em serviço ativo do Exército enquanto vivesse. Nesse período, pôde dedicar-se aos seus pracinhas, deixando marcas perenes dos que se imolaram na guerra. Aí estão o Monumento Nacional dos Mortos na Segunda Guerra Mundial, no Rio de Janeiro, e o Monumento Votivo Militar, em Pistóia. Afirmou, solenemente, o Marechal: "Eu os levei para o sacrifício, cabia-me trazê-los de volta para receberem as honras e as glórias de todos os brasileiros." 4. O Ídolo A Enciclopédia Ilustrada do Conhecimento Essencial, editada pelo Reader's Digest em 1998, no capítulo de História do Brasil, inclui o verbete "Carlos Lamarca" e não faz qualquer referência ao Marechal João Baptista Mascarenhas de Moraes. Enquanto tentaram perpetuar tão grave erro, talvez por inspiração de algum detrator dos valores da nacionalidade, lê-se, no recente livro "Chefes, Líderes e Pensadores Militares", de Michael Lee Lanning, a inclusão do Mar. Mascarenhas de Moraes entre cem figuras mundiais selecionadas, com o seguinte trecho: "Nunca um chefe militar brasileiro assumira tão complexas responsabilidades em tempo de guerra, fora do território brasileiro, como o fez o General Mascarenhas de Moraes. [...]." Ao falecer, em 18 de setembro de 1968, Mascarenhas teve exéquias dignas. Ao ato compareceu, representando o Presidente da República, o Gen. Ex. Orlando Geisel, Chefe do EMFA, que, à beira do túmulo, escolhido pelo Marechal para permanecer junto à esposa já falecida, disse, com voz grave e embargada: "Deixou, hoje, o serviço ativo do Exército e a própria vida, um homem que somente viveu para o Exército e o Brasil. [...]." "Sexagenário já, no ápice de uma carreira militar feita de dedicação e serviço à gente e à terra de todos os brasis, a nação lhe confiou a imensa tarefa de levar à guerra externa os seus soldados e de voltar vencedor. [...]" Prossegue dizendo uma frase emblemática: "Soube fazê-lo com a firmeza e a serenidade de um pai, de um juiz, de um chefe, de um verdadeiro condutor de homens." Os presentes, emocionados, silenciaram, ouvindo pungente toque de um clarim da FEB. Cena de profundo sentimento. Desaparecia, naquele momento, do cenário político e militar do país, após quase 70 anos de relevantes serviços prestados à Pátria, um venerado Marechal e surgia um Ídolo, o do General vencedor na Campanha da Itália! ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]()
Germano Seidl Vidal Escritor e Historiador Este artigo foi escrito em Março de 2005. Posteriormente, foi publicado na Revista do Exército Brasileiro Vol. 142 - 2o. Quadrimestre de 2005 ========================================================================== Nota importante: Todo o texto deste "site" tem Direitos Reservados (All Right Reserved), não podendo ser reproduzido total ou parcialmente, sem autorização expressa do autor. As opiniões aqui emitidas são de exclusiva responsabilidade do autor, na sua visão de Historiador e Escritor, não podendo servir de base para eventuais causas de questionamentos, seja de que tipo e objetivo forem. Maiores informações sobre DIREITOS RESERVADOS, visite a página neste "site" - Direitos |