Escritor Historiador
Germano Seidl Vidal


XVIII - POLARIZAÇÃO DO PODER MUNDIAL

Sensível à sugestão do Freixinho (59) que me empurrou, no corredor da História, para tentar vislumbrar benefícios para o Brasil com a II Guerra Mundial, eu me pergunto: Por que não dar, agora, um salto de meio século nas considerações até aqui formuladas e me situar na realidade internacional que é a da autofagia econômica?

Por que não olhar em volta de cada cidadão, onde quer que esteja, para sentir insegurança, incerteza e pessimismo no futuro?

Por que não admitir, como importantes figuras asseguram, que o Mundo está em guerra e esta perda da racionalidade pode-se, por eufemismo, chamar III Guerra Mundial?

Porque, exatamente, é contra esse estado de coisas que resolvi escrever esta 3ª PARTE.

Se era tempo de agir, no passado, ainda o é no presente e será mais ainda no futuro. Militar por vocação.

Combatente na II Guerra Mundial por dever.
Prosélito de muitas guerras hipotéticas ao longo das minhas atividades castrenses.
Cidadão, antes, durante e após tudo isto, sinto insopitável desejo de me alinhar com o pacifismo ativo, diria melhor, humanista - dos muitos que gritam: Paz!

E dos milhões que tiveram a voz calada, imolados na guerra pela paz - um sofisma que se repete há séculos.

Estou, assim, dando curso a uma vontade interior, recapitulando temas que estão na mídia, mas como notícias de rotina.

Não assustam mais seus leitores, geram protestos esparsos, têm o beneplácito de todas as correntes de opinião, distraem uns e empolgam outros, conforme sejam seus partícipes indiferentes ou apaixonados.
Vou clamar pela Paz.

Se o clímax do uso do Poder Militar levar a humanidade às conseqüências insanas da efetiva III Guerra Mundial, existirão muito poucos remanescentes para, no próximo cinqüentenário, repetir um estudo de seu custo-benefício.

Porque não haverá benefícios...

É este meu estado de espírito ao redigir este capítulo. A aparente paz que durou durante a Guerra Fria (1945-1991) deixou à mostra, de forma transparente, as evidências da bipolaridade tanto política quanto econômica e social, com clara repercussão na expressão militar do Poder Nacional das Potências ocidentais e da URSS.

Segundo a exposição "O Desbravar do Século da Vida", apresentada na Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento" (Rio de Janeiro, em 1992 - conhecida por ECO - 92), após a Segunda Guerra Mundial ocorreram mais de 150 grandes conflitos armados no Mundo, que causaram cerca de 20 milhões de mortos, em sua maioria civis.

A exposição, que já foi vista por dezenas de milhares de pessoas, adverte sobre a necessidade de se mudarem os rumos do planeta Terra para que, no próximo século, a vida se sobreponha à destruição e a morte." (60)

Além disso, como herança trágica desses conflitos, estima-se que ficaram espalhadas no Mundo, nas suas áreas mais conturbadas, cerca de 120 milhões de minas terrestres, anti-pessoal, enterradas ou abandonadas pelos litigantes.

Imagina-se hoje que a maior parte esteja em Angola, no Egito e no Irã, seguidos pela China, Afeganistão, Iraque e Líbano.

Segundo especialistas no assunto, têm ainda não removido de seus territórios esse artefacto que mata ou aleija, principalmente civis de todas as idades, os seguintes países: Moçambique, Sudão, Somália, Ucrânia, Camboja, Vietnã, e, com muito menor expressão, a Namíbia e o Chade.

Nesse período, em que o confronto militar entre os blocos esteve por um fio, ocorreram também intervenções críticas, de ambos os lados, aqui enumeradas como simples lembrança: Os Estados Unidos: Coréia (1950-1953), Vietnã (1961-1973), Camboja (1975-1979), Guerra do Golfo (1990), 2º Ataque ao Iraque (1998) e Kosovo (na ex- Iugoslávia contra os Sérvios) (1999).

A URSS: Hungria (1950), Theco-Eslováquia (1968), Polônia (final de 70 e início de 80) e Afeganistão (1979) e Chechênia (após a constituição da CEI e o fim da URSS) (1991).

Acrescenta-se a isto a ousada tentativa da URSS de instalar mísseis em Cuba em 1962, com reação imediata e decisiva dos EUA.

Finda a Guerra Fria, surgiu a multipolaridade de poder, como realidade complexa no campo da geopolítica, sob a chancela de uma Nova Ordem Mundial, que "stricto sensu" mais parece desordem...

Com o agravamento da crise econômica asiática, ascenderam, preponderantemente, os aspectos econômicos para influir no destino do Mundo.

E nesse quadro, destacam-se, como Poder Econômico Mundial, os Estados Unidos, a União Européia e o Japão, com suas respectivas áreas de influência.

Sob o "facies" político-militar, sobrepujando-se à Organização das Nações Unidas, ditam as regras de conduta internacional os países do G-7 (Estados Unidos, Alemanha, Japão, Canadá, França, Itália e Reino Unido), considerados os mais industrializados do Mundo e capazes de financiar custosas operações militares, como a Guerra do Golfo, que resgatou a autonomia do Kuwait, mas ainda sem vencedores quanto ao seu propósito secundário de extirpar o perigo da ditadura de SADDAM HUSSEIN e, mais recentemente, a custosíssima operação KOSOVO.

E o que restou do confronto militar OTAN versus PACTO DE VARSÓVIA?

"Em 8 de dezembro de 1991, a Rússia, Ucrânia e Bielarus assinaram o Acordo de Mensk (capital de Bielarus), proclamando a formação da Comunidade de Estados Independentes (CEI) e declarando "que a União das Repúblicas Soviéticas como sujeito da lei internacional e da realidade geopolítica não existe mais".

Era oficialmente o fim da União Soviética, substituída pela CEI." (61)

A OTAN cresceu exponencialmente e o PACTO DE VARSÓVIA se extinguiu.

Ambos deixaram uma herança tenebrosa no seu arsenal nuclear (1990):

Artefatos Nucleares - União Soviética & Estados Unidos
- mísseis balísticos intercontinentais (ICBM)
- contendo uma ogiva nuclear URSS=360 USA=450
- contendo até 10 ogivas nucleares URSS=100 USA=550
- mísseis balísticos
- curto (ACBM) URSS=1 730 USA= 1 250
- alcance intermediário (IABM) URSS= 1 640 USA=1 360
- médio (MABM) URSS=1 040 USA=2 160
- mísseis balísticos em submarinos (SLBM) URSS=140 USA=380
- aviões de bombardeios estratégicos URSS= 130 USA=240
- ogivas nucleares URSS=10 831 USA=12 071
Fontes: SPIRI YEARBOOK 92, LONDRES, 1992; THE MILITARY BALANCE,WASHINGTON, 1992; ET ALII.

Embora esse número de armas nucleares, em 1990, seja suficientemente elucidativo para o nosso propósito anti-belicista, vale apontar um quadro aterrador, fruto do efeito multiplicador e expansivo dessa terrível arma de destruição em massa.

Em 1970, quando os EUA e a URSS acordaram em propor conjuntamente o Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares, os dos países tinham juntos 7.455 ogivas nucleares.

Em 1995, após negociarem dois acordos SALT I e SALT II (Strategic Arms Limitation), Três Tratados START I, II e III (Strategic Nuclear Arms Reduction Treaty - o último ainda não assinado) e estar em curso umas das ferramentas mais eficazes do Departamento de Defesa dos EUA, no Mundo após a Guerra Fria, o Programa de Redução de Ameaças (Cooperation Treaty Reduction (CTR) Program), assim mesmo consta estarem estocados, nos seus respectivos territórios, 21.550 ogivas nucleares (incluindo a Rússia como sucessora da URSS), isto significa 4,2 toneladas de dinamite para cada habitante do planeta, o que é capaz de acabar com a vida na Terra 14 vezes!

... A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) é hoje uma poderosa força militar, reunindo 19 países, cujos efetivos militares atingem 4 745 400 homens.

Ela nasceu por Tratado firmado em Washington, em 4 de abril de 1949, pelos Governos dos Estados Unidos, Canadá, Bélgica, Dinamarca, França, Holanda, Islândia, Itália, Luxemburgo, Noruega, Reino Unido e Portugal, visando unir suas forças para a defesa coletiva e preservar a paz e a segurança. (62)

No Congresso dos Estados Unidos, votando contra a ratificação do Tratado, o Senador Republicano Robert A. Taft fez constar, na ocasião, que "este Tratado é uma aliança militar e, por conseguinte, significa inevitavelmente, uma corrida armamentista.

Necessariamente, dividirá o Mundo em dois campos armados e fará mais para provocar uma III Guerra Mundial do que manter a paz no Mundo."


De fato, a resposta dos países da "Cortina de Ferro" foi o Pacto de Varsóvia de 14 de maio de 1955, firmado pela Albânia, Bulgária, Checoslováquia, República Democrática Alemã, Hungria, Polônia, Romênia e União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (representando 12 Repúblicas).

Essa organização do mundo comunista foi dissolvida em 1991, após longo período de Guerra Fria, com a transformação da Europa Oriental. Portanto não existe mais oponente para a OTAN.

Já aderiram à Aliança: a Grécia e a Turquia, em 1952; a antiga Alemanha Ocidental, em 1955; a Espanha, em 1982 e a Hungria, Polônia e República Checa, em 1999.

Outros três países do Leste já manifestaram desejo de fazer parte da Organização: Romênia, Bulgária e Letônia.

Enquanto nos Estados Unidos a palavra-chave nesse mister é integração, a Rússia continua criticando essa expansão, denunciando o perigo que ela trará.

"A ampliação da aliança atlântica não promoverá o fortalecimento de confiança e de estabilidade nas relações internacionais.

Pelo contrário, poderá provocar o aparecimento de novas linhas divisórias", anunciou recente comunicado do Kremlin."


Embora o Tratado da OTAN afirme em seu Artigo 1º que as Partes se comprometem, segundo o estipulado na Carta da ONU, a resolver os conflitos internacionais por meios pacíficos e a abster-se da ameaça ou do emprego efetivo da força, a organização militar dele resultante - as Forças da OTAN - desequilibrou a multipolaridade pós-Guerra Fria.

Ela é capaz de intervir, a qualquer tempo, com os mais modernos recursos de defesa e de ataque, onde se fizerem necessários, por decisão única de seu Conselho, liderado por um Secretário-Geral e fora do contexto da ONU.

Isto cria um paradoxo: segurança para os seus membros é insegurança para os demais...

Ademais, como potência isolada, com forte mobilização para a guerra e fora do concerto das nações, surgem os Estados Unidos da América, capazes de sozinhos atacar em qualquer ponto do planeta, com armas convencionais e/ou nucleares de maior sofisticação, seja para os bombardeios ditos "cirúrgicos", seja para destruição indiscriminada com matança em massa, sempre sob a alegação de garantia de sua segurança nacional ou, agora, sob o argumento de "defesa humanitária".

Além disso, em sua estratégia de defesa à distância, os EUA pretendem substituir o Reino Unido, como no fim do século XVIII e início do XIX, no domínio total dos mares, garantindo assim suas fontes de suprimentos e materiais estratégicos, inclusive do petróleo.

É exatamente isto que faz o perigo aumentar: a Paz Mundial está ameaçada! A Rússia, a China, a Ucrânia, a Índia e o Paquistão têm armas nucleares. Outros países, fora das salvaguardas do "Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares", poderão seguir tal exemplo.

A tecnologia de fabricação de armas nucleares é conhecida e de possível consecução pelos países emergentes, diante dos avanços conhecidos da Ciência.

Essa capacidade de atacar ou defender-se com tais armas, inclusive com mísseis de longo alcance para ações de retaliação, poderá quebrar um equilíbrio instável cuja base é o poderio militar.

Nesse contexto, deve-se considerar que surgem novas formas de Guerra Irregular, apoiadas por mercadores de armas convencionais sofisticadas, envolvendo facções cujas lideranças não alcançam o consenso popular, com suspeitos objetivos, explorando o patriotismo natural do povo ou mesmo usando forças mercenárias para criar focos de tensão internacional ou de difícil solução.

E, potencializando toda a ira de adeptos radicais de conflitos étnicos, religiosos, ideológicos ou sociais, aparece com disseminação mundial o terrorismo - chaga do qual vamos tratar no capítulo sobre Crimes Contra a Humanidade (XXVI).

Estariam recriando uma nova tensão Leste/Oeste do tipo da Guerra Fria do passado ou outros eixos de confronto Norte/Sul ou entre os países ricos e os pobres?

Quem vai se opor para conter o ímpeto dos Estados Unidos de conservar-se a um só tempo árbitro e justiceiro, com plena autonomia de ação?

Kosovo tem maior importância do que a África em chamas?

Com tantos esforços para o desarmamento mundial e a redução de ogivas nucleares, uma posição radical de qualquer país com armas nucleares desencadearia nova corrida armamentista e haveria risco iminente para a Paz Mundial.

É tempo de agir!

Germano Seidl Vidal
Escritor e Historiador

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