Centenário de Nascimento de Godofredo Vidal



Palestra Proferida pelo Dr. Lino Machado Filho em 03/10/1995

Meus Senhores e Minhas Senhoras

O Museu Aeroespacial enganala-se hoje, para comemorar o raid do "DUQUE DE CAXIAS", que ocorreu em 1931, para enaltecer a façanha e a seus realizadores, cujos nomes "de guerra", declino: - ARQUIMEDES - ORSINI - VIDAL - MELLO.

Não saíram da vida para entrar na história, porque vivos a escreveram, na épica jornada que ouso comparar aos feitos de Mermoz, Antoinie de Saint'Exupéry, Gago Coutinho, Charles Lindenberg. Outros tantos aviadores, anônimos, mas presentes nas lembranças de seus companheiros, de seus familiares, precursores que também foram, Bandeirantes do Ar, por certo, na consciência de cada um, estão sendo homenageados.

Plêiade de vocacionados, de predestinados, desafiaram a lei da gravidade, as intempéries, toda sorte de dificuldades, e legaram, aos futuros homens do ar, com seu exemplo, coragem, desprendimento, estoicismo, características daqueles que souberam ter um ideal, alimentá-lo, e, um propósito de vida.

Suas lideranças ensinaram não transigirem consigo mesmo, não menosprezando a seus semelhantes, no conhecimento pleno de que todos nós estamos sempre aprisionados nas nossas grandezas e nas nossas limitações.

Porém, o que é marcante, é que se destacaram no seu tempo...

O Padre Vieira, na sua sabedoria, sentenciara que "cada um é suas ações, nem mais, nem menos".

A observação se auna ao exercício do livre arbítrio de que falou São Tomaz de Aquino.

Fundamento religioso, filosófico ou teleológico, seria divagar, seria semântico, procurar encontrar o conceito.

Aqui, agora, o que fazemos é proclamar que, por livre arbítrio, os bravos aviadores se lançaram à histórica aventura. Erich, Fromm, em "A Linguagem Esquecida", acentuou:

"Os sonhos do homem antigo e moderno são escritos na mesma linguagem que os mitos cujos autores viveram no amanhecer da história. ...
Creio que a linguagem simbólica é a única linguagem estrangeira que cada um de nós deve aprender.
Sua compreensão nos põe em contato com uma das mais significativas fontes de sabedoria. ...
Na verdade, tanto os sonhos como os mitos são importantes comunicações de nós mesmo para nós mesmo.
"

Os aviadores homenageados escreveram esta página, porque sonharam e realizaram a missão a que se propuseram.

Pano de fundo, o velho Campo dos Afonso, e a aeronave "AMIOT KG22", um dos melhores equipamentos da época, com um motor de 650 HP, autonomia de vôo de 13 horas, velocidade médica de 160 km/h, teto máximo de 4.000 metros.

Avião de guerra, com três tripulantes, que se encaixavam em três carlingas estreitas, descobertas, sem nenhuma proteção.

Seus tripulantes se comunicavam, uns com os outros, através de bilhetes, que passavam uns aos outros.

A proteção para chuvas e ventos eram o capacete, os óculos e uma jaqueta de couro.

Como instrumento de navegação, apenas a bússola, sendo a rota percorrida por indicações de terra, os acidentes geográficos, porque até estradas, a bem dizer, naqueles locais, inexistiam suficientes.

O plano de vôo, para percorrer 29.000 km, estimava uma viagem de 48 dias, e, os gastos com a empreitada, somaram 70 contos de réis.

Cabe registrar, que, decolando do Rio de Janeiro, o primeiro pouco previsto seria em Porto Alegre, e de Porto Alegre para Assunção, para percorrer etapas outras nas capitais latino-americanas, até a cidade do México.

Para chegarem ao intento, deveriam enfrentar a cordilheira dos Andes, e o fizeram. Logo no primeiro trecho da etapa internacional, Porto Alegre - Assunção, o motor começou a vazar óleo.

Na seguintes, entre Buenos Aires e Santiago, um dos magnetos apresentou defeito. Porém, prosseguia o Duque de Caxias.

Já em Arica, a primeira baixa: o Tenente Mello adoeceu, sendo obrigado a deixar o raid, sendo substituído pelo Tenente Orsini. Em Iquique, a preparação para a etapa mais difícil, para atingir La Paz, que fica a 4.000 metros acima do nível do mar, e o velho "Amiot" tinha um limite extremo: 4.200 metros.

Aos 28 de outubro de 1931, os Aviadores chegaram a Lima, para romper os Andes novamente, demandando Quito, onde seriam esperados a 03 de novembro.

Neste dia, às seis horas da manhã, o avião deixou Talara, no Peru, sendo visto, pela última vez, sem dar novos sinais, por volta das dez da manhã, sobre Guaiaquil.

O piloto, Tenente Orsini, relata que, na ocasião, notou o timão de direção preso, sendo impossível o pouso em Quaiaquil, face às condições atmosféricas. Resolveram os três tripulantes, Orsini, Arquimedes e Vidal, retornarem a Quito, para tentar planar e aterrissar de frente, o que conseguiram, mas o avião capotou, pois o terreno era movediço.

Todos se feriram. Arquimedes e Orsini, todavia, quase ilesos, mas o Tenente Vidal, que viajava na última Carlinga, sofreu graves ferimentos.

O resgate não foi fácil. Detenho-me aqui,para dizer algumas palavras sobre o Major Brigadeiro Godofredo Vidal, que, nesta data, completaria cem anos de vida.

Conheci-o como cidadão, como soldado, como chefe; conheci-o na intimidade de seu lar.

Fui dele subordinado, em duas ocasiões, durante os dois lustros em que tive a honra de integrar a Força Aérea Brasiliera.

A primeira vez, quando na Diretoria do Pessoal, recém criado o Ministério da Aeronáutica, Vidal, sempre com idealismo, em verdade criou a reserva da Aeronáutica, estruturando-a sob padrões novos, visualizando a formação de especialistas, hábeis a atenderem ao chamamento da Pátria, quando necessário, profissionalmente treinados para pronto emprego.

Ao depois, com o mesmo entusiasmo, na realidade, foi o grande executor na instalação da Escola de Comando e Estado Maior da Aeronáutica, na rua Pereira da Silva, em Laranjeiras.

Capitão que eu era, fui ajudante de ordens de seu primeiro Comandante, Brigadeiro Netto dos Reys, que, como Vidal, sonhava de olhos abertos.

Olhava à frente, perseguindo com denodo realizar sempre, não se acomodando no desempenho do dia-a-dia. Netto dos Reys, oriundo da Marinha, Vidal, da 5ª Arma do Exército, já se haviam encontrado antes, quando participaram da criação no Touring Club do Brasil, da Comissão de Aeronáutica, integrada, ainda, por Ivo Borges, Álvaro de Araújo, José Bento Ribeiro Dantas e Aristo Viton de Carvalho. Vidal, naquela ocasião, instituiu a Semana da Asa, que se repete a cada ano, como forma de manter rediviva a história da nossa aviação.

Mas Vidal não parou por aí, perseguindo a realização de seus sonhos. Fundou, em Curitiba, o primeiro Grupo de Escoteiros do Ar - que foi, no mundo, o primeiro grupo de escoteiros voltados à aviação.

Deu o nome a este Grupo, em reverência: Tenente Ricardo Kirk, também um dos precursores da nossa Aviação Militar. Sua sede, no Campo de Bacaheri, em Curitiba, Estado do Panamá, no aquartelamento do 5º Regimento de Aviação.

Em sua sofreguidão, Vidal criou também o Serviço Meteorológico do Exército, em 1932.

A figura humana de Godofredo Vidal se mostrou sob vários ângulos e aspectos. Seu perfil, proteiforme, respondia, com idoneidade, a todos os desafios.

Demandou à Suíça quando ainda jovem, onde, por dois anos, estudou e estagiou em fábricas européias.

Retornando ao Brasil durante a Primeira Guerra Mundial, matriculou-se na Escola Militar do Realengo, aspirante de cavalaria, em 1921.

No ardor da juventude, dedicou-se ao pólo, integrando a equipe brasileira em visita ao Chile.

Recém criada a Arma de Aviação, matriculou-se na segunda turma de pilotos observadores, e, em 1928, já era instrutor da Escola de Aviação Militar, por indicação da missão militar francesa.

Compartilhou do pioneirismo do Correio Aéreo Militar. Já em 1941, novo grave acidente de avião sofreu, durante um vôo noturno num monomotor Waco Cabine. Seus companheiros, naquela ocasião, o então Tenente Coronel Carlos Pfaltzgraff Brasil e Capitão Rosemiro Menezes.

Ao se aproximarem do campo de pouso, na altura de Honório Gurgel, o avião perdeu a hélice em pleno vôo, mas a perícia do piloto redundou em que todos saíssem ilesos, embora os danos fossem totais na aeronave.

Em 1942, houvera cursado a Escola de Estado Maior do Exército, passando a integrar seu quadro de instrutores, e da Escola de Guerra Naval. Nos Estados Unidos, cursou a Escola de Comando e Estado Maior de Fort Leavenworth, como também o Curso Superior de Tática Aérea, em Orlando, estagiando, após, na aviação Naval Americana e na Força Aérea dos Fuzileiros Navais.

Durante a Segunda Guerra Mundial, participou do patrulhamento do Atlântico Sul. Inquieto, ardoroso, não se limitando às atividades restritas à vida da caserna, dirigiu o Curso de Defesa Passiva da Legião Brasileira de Assistência.

Em 1948, transferiu-se para a reserva, atingindo o generalato. Dominava vários idiomas, falando fluentemente alemão, espanhol, francês e inglês.

Várias condecorações lhe foram outorgadas, nacionais e estrangeiras.

Sua vida, plena de realizações, levou-o a dedicar-se a rádio comunicações, como amador, chegando à direção da LABRE, obtendo o prefixo PY-1-AT, que manteve com extremado carinho, até o findar de seus dias.

Poeta e escritor, sobre variados assuntos, publicou trabalhos. Sobre história, "Próceres da Independência da América"; sobre a geografia, "Estudos de Geo Política"; sobre a aviação, "Batalhas Aero-Navais da Última Guerra"; traduzindo, do original italiano, a obra clássica de Douhet, "O Domínio do Ar". Membro efetivo do Instituto de Geografia e História Militar, ocupou a cadeira nº 13, cujo patrono foi Bartolomeu de Gusmão, o que o fez publicar, sobre ele, um estudo biográfico inédito. Compôs o quadro dirigente do Instituto Brasileiro de Geopolítica.

Membro de inúmeras sociedades, dentre tais, a Academia Valenciana de Letras. Fundou e dirigiu o Museu Santos Dumont de Petrópolis, cuja organização esteve a seu cargo, instalando-o na casa "Encantada", onde residia o Pai da Aviação.

Após curta enfermidade, faleceu aos 08 de dezembro de 1958. A cultura, a dedicação às armas e à ciência, à literatura, à história, à geografia, uma vocação hereditária. Seu bisavô, Engenheiro José Maria Vidal, combateu na Guerra do Paraguai, e seu pai, General Alfredo Vidal, foi o fundador do Serviço Geográfico do Exército.

A hereditariedade, de que lhes falo, vem se transmitindo de geração em geração. Seu filho, Germano Seidl Vidal, responsável pela efeméride de hoje, sob patrocínio do Instituto Histórico e Cultural da Aeronáutica (INCAER), também soldado, voltou-se ao estudo, sendo, autor de inúmeras obras, escrevendo em assuntos variados.

O neto, Germano Serra Vidal - acompanha. Mas Vidal não parava; durante o período de convalescença do acidente aeronáutico, matriculou-se em curso livre, na Escola de Belas Artes, e vários são os quadros que pintou.

Para dar um traço final a este modesto trabalho sobre a fecunda existência do Major Brigadeiro do Ar Godofredo Vidal, permito-me transcrever, dentre tantos escritos seus, as lições de brasilidade e de fé que transmitiu aos pósteros.

Em 1937, em palestra no Rotary Club no Rio de Janeiro, falando sobre o tema "Voando no Correio Aéreo Militar", assim se expressou:

"Antes de finalizar, permiti, rotariano de todo o Brasil, esta minha exortação. Crede nesta terra virente, formosa, florida e opulenta, cheia de maravilha; crede na sua grandeza pela imensidade dominadora dos seus horizontes; crede na sua força admirando a pujança altaneira de suas florestas; crede no seu heroísmo pela arrancada esplendorosa de suas montanhas; crede na sua bravura, ouvindo o rugido selvagem dos seus mares; crede na sua glória pelo luseiro fulgurante do seu sol; crede na sua bondade, fitando o azul imaculado de seu céu; crede na sua fé, vendo o fulgor das estrelas nas suas noites; crede na sua beleza, sorvendo o perfume macio de suas flores; crede na sua justiça, vendo a fertilidade miraculosa do seu solo, crede no seu destino, contemplando a harmonia luminosa das suas alvoradas; crede na sua paz, pelo melancólico e suave de seus luares; crede enfim - senhores - na sua eternidade pela afirmação de trabalho e pelo devotamento infinito dos seus filhos".

Discorrendo sobre ética e moral, na sede da Liga Brasileira de Radio Amadores, em abril de 1937, com ênfase afirmou:

"Não é livre quem faz o que quer, mas quem faz o que deve".

Foi também professor, no Colégio Anglo Americano e Lafayette. Quando da fundação do Grupo de Escoteiros do Ar em Curitiba, em 1939, em carta dirigida ao General Eurico Gaspar Dutra, a certo trecho, assim se expressou:

"O fundamento essencial de qualquer obra construtora é a solução do problema educacional, encarado em seu duplo aspecto de preparação do futuro e de organização do presente".

De outra feita, se dirigindo aos moços, em exaltação à família, afirmou:

"A Pátria é nossa grande família. A família é nossa pequena pátria. Pátria e família são dois nomes que soam terna e nobremente aos nossos ouvidos".

Paraninfando uma turma de Chefes Escoteiros do Ar, como forma de orientação a educadores, asseverou:

"A vida espiritual é o cinzel incomparável do caráter. Ela se serve da experiência, da observação, do sofrimento, e o torneia ao modelo da imagem divina, procurando, como possível, fazer obra perfeita".

Dissertando sobre as bases racionais para o exercício da direção e do comando, eis seu pensamento:

"A aviação, que constitui o apanágio do progresso de um povo, apresenta-se sob seus dois aspectos - o construtor e o destruidor. Construtor porque, acercando os povos, eliminando as fronteiras, facilitando a marcha do progresso através ínvios sertões, através de infindos mares e oceanos, através de enormes distâncias - cria a cooperação, a colaboração e o entendimento - ruindo por terra as marcas de fronteira e os preconceitos entre os homens".

"Cria e constrói, num ambiente de entendimento, para melhorar a vida e a paz".

"Leva ao rincão longínquo um palpitar de progresso, numa revoada de asas brancas de paz. Cria o progresso de uma Nação e constrói sua potencialidade econômica".

"Construtora e emissária dos anseios de um povo a outro povo - de uma terra a outra terra - da cidade ao vilarejo - tudo fazendo para que os homens se entendam e se unam melhor".

"Este foi o sonho realizado por Alberto Santos Dumont, mas desgraçadamente, a sua outra face é terrível - a aviação de guerra - elemento máximo da destruição
".

Em outra ocasião, em pronunciamento, dizia Vidal:

"Não poderá haver progresso possível, nem aperfeiçoamento realizável, não haverá ordem ou edifício social que se mantenha, se dominarem os fundibulários - os que destroem sem construir, os que agrilhoam, os que não respeitam convicção alheia, os que só agitam para destruir, pela catapulta da palavra intemperante, ação lenta dos que veramente labutam na colméia humana".

Em "Introdução do Estudo da Geopolítica", observou:

"O geógrafo que se ocupa das relações espaciais entre os Estados convertem-se em geógrafos políticos; o estudioso da ciência política e o estadista; poderíamos acrescentar, que aprende a empregar fatores geográficos para melhor compreensão da política, convertem-se em um geopolítico".

De derradeiro, meus senhores, para finalizar, sendo impossível adentrar em todos os trabalhos deixados por Godofredo Vidal, me permito transcrever, de seu texto "Entre Colunas", sua conclusão:

"A honra, a lealdade, a coragem, o espírito de sacrifício, a justiça, a verdade, a temperança, a condescência, a magnanimidade, o altruísmo, o amor, a noção do dever, a consciência da própria dignidade, a solidariedade, devem ser alimentos espirituais de todo homem apto para viver associado.

As disposições individuais para a prática dessas virtudes devem ser espontâneas, sem artificialismo, oportunas, sem cálculo".


Major Brigadeiro do Ar Godofredo Vidal, esta foi a sua vida.

Como seu subordinado que fui, como seu amigo, como seu admirador, me desvaneço com a oportunidade que tenho, neste instante, de cultuar a sua memória.

Valho-me de Ralph Waldo Emerson, para terminar:

"O segredo do mundo é que todas as coisas subsistem e não morrem, mas apenas se retiram da vista por algum tempo, voltando mais tarde...

Jesus não está morto: está bem vivo; João, Paulo, Maomé ou Aristóteles também não estão mortos.

Acreditamos em determinadas ocasiões em vemos a todos e podemos facilmente enunciar os nomes com os quais se apresentam.
"


A inauguração coincidiu com o centenário de nascimento de Godofredo Vidal