O PACIFISMO ATIVO

Texto do Escritor-Historiador Germano Seidl Vidal



Temos, para nós, momentos de pensar e os de agir.

Embora o processo que movimenta os neurônios seja idêntico, na verdade eles representam ações distintas no comportamento humano.

Uns agem sem pensar e outros pensam, sem agir...

Essa cogitação vem ao caso da temática atual do "NÃO À GUERRA" e do "NÃO À VIOLÊNCIA" como reafirmação do mais elementar dos Direitos Humanos.

A cada uma dessas atitudes caberia indagar qual o antídoto social que seja capaz de ter como colaborador os eloqüentes "NÃO", para que o Homem não descambe para a barbárie e retome sua evolução, preservando ao máximo a solidariedade.

Daí porque, sugerimos enfatizar-se um novo conceito, o do PACIFISMO ATIVO, com seu corolário de conceituação ideológica e pragmática na forma de agir na solução de conflitos regionais, nacionais e internacionais, sejam eles sociais, religiosos, étnicos, econômicos ou políticos e seus desdobramentos, no campo estratégico, com o uso de recursos militares.

Essa disposição, quase utópica, vale para todos os níveis sociais, dos menos aquinhoados pela Criação até os mais poderosos representantes do Poder Mundial.

O Pacifismo Ativo diferencia-se da Resistência Pacífica com que o Mahatma Gandhi mobilizou milhões de indianos a se sublevarem contra a ocupação britânica nos idos de 1940, simplesmente declarando-se PACIFISTAS dispostos a negar qualquer contribuição ao Império Britânico e seus representantes na gestão colonial.

"Cruzar os braços" a qualquer ordem do poder imperial e, deste modo, inviabilizar a governabilidade a despeito do uso imoderado da violência pelos seus dominadores, sem reação dos sofredores súditos.

O Pacifismo Ativo, ao contrário, propõe o "Descruzar os braços", reagir na medida de suas possibilidades e no âmbito de suas comunidades ao conviver com o uso de força, em qualquer de suas formas: arbitrariedade, prepotência, discriminação, perseguição, tortura e morte violenta, atingindo todas as camadas sociais, sobretudo a do homem comum, todos igualmente resistentes aos tentames dos "donos" do poder, na sanha da ampliação de seus Impérios.

O Pacifismo Ativo está, assim, coerente com o Manifesto 2000, elaborado por 23 laureados com o Prêmio Nobel da Paz, que o assinaram em Paris, em março de 1999, partindo de um compromisso individual, via Internet, aceito por mais de 100 milhões de pessoas, para ser encaminhado à Assembléia Geral da ONU em fins de 2000.

"Na comemoração do 50º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, subscreveram o referido Manifesto:

Nana Konadu AGYEMAN-RAWLINGS - Clémence Aissa BARE - Norman BORLAUG - D. Agustín CONDE BAJEN - Dalai Lama - Adolfo Perez ESQUIVEL - Don Carlos Roberto FLORES FACUSSE - Don Manuel FRAGA IRIBARNE - Mikhail Sergeyeviovh GORBACHEV - Alpha Omar KONARE - Don Arnoldo LACAYO - Maired MAGUIRE - Nelson MANDELA - Rigoberta MENCHO TUM - Don Andrés PASTRANA - Shimom PERES - Jose RAMOS HORTA - Joseph ROBLAT - Coreta SCOTT KING - Desmond Mipilo TUTU - David TRIMBLE - Elie WIESEL - Carlos Felipo XIMENES BELO estiveram entre os primeiros a assinar o Manifesto 2000.
"

Nele consta o seguinte:

"Por uma Cultura de Paz e Não-Violência

Reconhecendo minha porção de responsabilidade em relação ao futuro da humanidade, especialmente pelas criaturas de hoje e aquelas das futuras gerações, prometo - em minha vida diária, em minha família, meu trabalho, minha comunidade, meu país e minha região:

Respeitar a vida e a dignidade de cada pessoa sem discriminação ou preconceito;

Praticar a não-violência ativa, rejeitando a violência em todas as suas formas: física, sexual, psicológica, econômica e social particularmente em relação aos mais desprovidos e vulneráveis, tais como crianças e adolescentes;

Compartilhar meu tempo e recursos materiais em um espírito de generosidade a fim de acabar com a exclusão, a injustiça e a opressão política e econômica;

Defender a liberdade de expressão e diversidade cultural sempre dando preferência ao diálogo e a razão em vez do fanatismo, difamação e rejeição de meus semelhantes;

Promover o comportamento de consumo responsável e práticas de desenvolvimento que respeitem todas as formas de vida e preservem o equilíbrio da natureza do planeta;

Contribuir para o desenvolvimento de minha comunidade, com plena participação das mulheres e respeito pelos princípios democráticos, a fim de criarmos juntos, novas formas de solidariedade
."

Há hoje um espaço no cenário mundial para o exercício do Pacifismo Ativo diante de uma NOVA ORDEM MUNDIAL, sugestivamente dita como GUERRA AO TERRORISMO INTERNACIONAL, sob a tutela dos EUA.

Ainda é tempo de reagir, basta lembrar outros passos, ainda tímidos, de uma reação em cadeia a favor do retorno ao uso da negociação diplomática e do diálogo entre facções radicais para se preservar o Bem Comum da Humanidade, a ser repartido, de forma compatível com as conjunturas locais, regionais e nacionais.

Seria o primeiro passo para proteger o cidadão, cuja maior graça é o desfrute da vida.

Entre os instrumentos ainda válidos, estão na pauta a revisão dos Estatutos da ONU e da constituição de seu Conselho de Segurança, o revigoramento do Tribunal Penal Internacional (já instalado, infelizmente sem a ratificação do Brasil...), a formação dos Blocos para o Desenvolvimento Econômico e Social e o Intercâmbio Militar para se proteger ou se opor à hegemonia dos Sete Grandes, em particular dos EUA, e a "domesticação" do capitalismo selvagem diante dos limites das regras de convivência internacional.

O uso dos recursos bélicos, em "ultima ratio", pode ser evitado dentro do conceito de SUN TZU que "o importante é vencer sem lutar".

O intercâmbio militar sugerido tem em vista o efeito "dissuasório" e elimina a tendência dos "fabricantes" de guerras em identificar, potencializar e proclamar os "inimigos potenciais", como está acontecendo na atual conjuntura mundial, sob o eufemismo de "guerra preventiva", "defesa humanitária" ou "imposição da democracia" como panaceia para o entendimento universal.

É um NÃO à "estratégia da hipocrisia...".

Pacifismo Ativo não é, pois, sintoma da modernidade e sim da obsolescência.

É fruto do pensamento dos homens de bem capazes de assumir seu papel na sociedade visando o Bem Estar Social - utopia que se transforma em "realidade necessária e urgente" para salvar a Humanidade.

"O que se precisa, enfatizamos, é sair das culturas "regionalizadas" para uma "cultura universal do apreço à vida" onde quer que esteja o homem, com consciente respeito à sua cor, raça, crença, idioma, hábitos, nível social, condições de vida e, naturalmente, suas aspirações de melhoria de bem-estar social.

A universalização dessa expectativa parece-nos ser, como já adiantamos, uma tarefa da educação, para criar homens de bem que respeitem seus semelhantes.

Quando isto acontecer, não por milagre divino mas pelo trabalho dos educadores, os Tribunais Internacionais terão decidido, de forma inapelável, a proscrição da guerra, cujo descumprimento, a despeito dessa execração popular, seja considerada uma violação às regras, convenções, acordos e tratados internacionais que regem a vida dos povos.

E, dessa forma, os Estados-Nação violadores desse novo World Agreement responderão, no foro internacional do Mundo efetivamente Livre e Soberano, por danos e prejuízos causados, sujeitos às sanções julgadas pertinentes, bem como responderão criminalmente seus responsáveis diretos na Corte Internacional adequada."


A propósito vale lembrar dois acontecimentos que marcam profundamente, em nosso país, esses sentimentos humanitários.

O primeiro é o transcurso do 2º centenário de Luiz Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias e Patrono do Exército Brasileiro.

Ele traz da História o título de Pacificador por ter posto fim às revoltas internas ao 2º Reinado, ocorridas nas Províncias do Maranhão, São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul (1840-43).

Vencidos os revoltosos, que abjuravam a submissão ao Imperador, Caxias assumia o comando político da Província sublevada iniciando sua tarefa de pacificação com ampla anistia.

Teve êxito em todas as ocasiões.

É o principal responsável pela garantia da Unidade Nacional na América do Sul, diante do desmembramento do Vice-Reinado de Bacia do Prata.

Nesse contexto, Caxias mereceu do saudoso jornalista Barbosa Lima Sobrinho a alcunha de Patrono da Anistia.

Sendo chefe militar brilhante, à sua época, hoje poderia chamar-se de Prócer do Pacifista Ativo.

Ganhou guerras e fez a paz. Historicamente, consagrou-se como estrategista conduzindo as armas do Império à vitória sobre adversários históricos e pelos seus compatriotas, respeitando os vencidos em busca de uma reconciliação.

Recentemente, o país e o Mundo se surpreenderam com a morte violenta do brasileiro Sergio Vieira de Melo, em atentado terrorista que explodiu parte do edifício sede da ONU, em Bagdá.

Ele exercia a função de Representante direto do Secretário Geral da ONU, no Iraque.

Vieira de Melo, após o doutoramento em filosofia na Sorbone, optou pela carreira da diplomacia internacional na ONU, deixando de iniciá-la no Brasil, por solidariedade com o pai que fora aposentado ex-ofício pelo Governo Militar em 1969.

A carreira de Vieira de Melo é uma sucessão de missões arriscadas e difíceis como as ocorridas na pacificação da Bósnia e a reconstrução de Timor-Leste.

Assassinado no Iraque, quando exercia, com empenho e expectativa de sucesso, a chefia de representação da ONU, no Iraque (2003).

Após a Reunião da ONU, em 1993, em Viena, foram universalmente reconhecidos os direitos humanos, segundo conceito expresso na Declaração Universal dos Direitos do Homem, da ONU, aprovada pela Assembléia Geral de 10 de dezembro de 1948.

Com tal desiderato, Vieira de Melo foi designado, pelo Secretário Geral da ONU, Kofy Anan, Alto Comissário para os Direitos Humanos.

Ele substituiu a irlandesa Mary Robinson.

Em entrevista a Marília Gabriela, retransmitida pela TV - GNT - Canal 41 da NET, em 24/08/03, gravada na sede da ONU ele disse que seu estilo tinha a marca da negociação e do convencimento pelo respeito àqueles Direitos Humanos, em particular os Sociais (educação, saúde, segurança e outros de natureza coletiva), em relação aos Direitos Individuais (liberdade de pensamento e opinião, direito ao voto e outros, entre os quais, obviamente, está o da preservação da vida, condição "sine qua non" dos demais direitos).

É, portanto, Vieira de Melo o êmulo atual da Paz que se espera seja o fator duradouro no Século XXI.

Basta de vítimas civis na guerra, nas cidades abertas, bem como nos movimentos clamando pela paz.

É um retrocesso que Clausewitz há 150 anos quis dizer ser a guerra à continuação da política por outros meios.

O mundo está cheio dos imolados pela guerra, como mártires da barbárie dos países ditos civilizados ou os de cultura fundamentalista religiosa que elegem heróis aos que se martirizam.

Haverá tempo em que a racionalidade retorne a preservar a paz mundial, com uso exclusivo dos meios pacíficos, de entendimento, do diálogo, da negociação bilateral, multilateral, com respaldo dos organismos internacionais criados para a convivência internacional.

"O humanitarismo não é uma ferramenta para encerrar uma guerra ou criar a paz. É a resposta do cidadão ao fracasso da política.

É uma ação imediata e de curto prazo que não substitui a necessidade de responsabilidade política a longo prazo."


Médicos sem Fronteiras (Prêmio Nobel da Paz em 1999)

É bem recente uma interpretação genial da letra e da ideologia contidas na "Canção do Soldado", criada antes da II GM, cantada entusiasticamente pelos soldados em nossos quartéis .

Isto foi feito pelo Embaixador Rubens Ricupero, pelas páginas do jornal "A Folha de São Paulo" (23 Novembro de 2004), quando diz, sob o título "Rebrilha a Glória", o seguinte:

"O outro aspecto é o da ideologia popular da rejeição da guerra, da cultura brasileira de paz.

Quem imaginaria o exército prussiano, os truculentos fuzileiros "yankees", até os chilenos de "passo de ganso", cujo lema é 'por la razón o por la fuerza', marchando ao som de um hino ao PACIFISMO ?

O trecho do "hino ao pacifismo" diz:

"[...] A paz, queremos com fervor,
a guerra só nos causa a dor [...]".


Germano Seidl Vidal
Escritor e Historiador

(Artigo de Germano Seidl Vidal escrito em Março de 2005)

==========================================================================

Nota importante:
Todo o texto deste "site" tem Direitos Reservados © (All Right Reserved), não podendo ser reproduzido total ou parcialmente, sem autorização expressa do autor. As opiniões aqui emitidas são de exclusiva responsabilidade do autor, na sua visão de Historiador e Escritor, não podendo servir de base para eventuais causas de questionamentos, seja de que tipo e objetivo forem.
Maiores informações sobre DIREITOS RESERVADOS, visite a página neste "site" - Direitos