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HISTÓRIA ORAL DO EXÉRCITO NA II GM PARTE II ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() Depoimento do Escritor-Historiador
Germano Seidl VidalNo final do mês de abril, quando a guerra se aproximava do seu término, além da carência de munição, faltou-lhes medicamentos básicos para atender aos seus feridos, em número muito elevado. Já o nosso apoio de saúde foi muito bom, tanto na prevenção de doenças (uso do DDT, dos preservativos, dos comprimidos para purificação da água e do combate à malária, do uso de vitamina C nos sucos etc.), como no tratamento curativo de emergência (padioleiros e médicos no front, e enfermeiras e competentes equipes médicas na retaguarda). Dizia-se na frente que o ferido grave que chegasse a um Hospital de Base estaria salvo, tais os recursos que lá se dispunha. Nas grandes cidades, à retaguarda, havia curiosos postos de saúde, os Prophylatic Station, sinalizados como Pro-Sta por toda a parte, para prevenção às doenças venéreas. É bom que se diga que não só o apoio de saúde, mas o apoio logístico em geral foi muito bom. Todos os itens de suprimento foram bem atendidos, tanto pelos órgãos funcionalmente voltados para esse fim na 1a DIE, quanto no apoio dos escalões superiores. Tratando-se, no meu caso, de uma Bia de obuses 155mm, para o CLF o item mais importante era o da manutenção dos obuses e tratores razão de ser da Subunidade. Por oportuno, transcrevo o que escrevi, como Tenente, em 1948, divulgado pela A Defesa Nacional: "Tivemos oportunidade de travar conhecimento com um 1o Tenente americano de um Grupo 155mm do V Exército. Ele fora encarregado de ministrar instruções na linha de frente sobre o nosso obus 155mm, conforme diretrizes do IV Corpo preparando e aperfeiçoando os quadros para a Ofensiva da Primavera. Este oficial era experimentadíssimo; sua Bateria já ultrapassara sessenta mil tiros e estava combatendo desde a campanha da Tunísia. Ficamos com excelente impressão do instrutor e do cuidado com que trazia suas instruções, corretamente datilografadas! Mais tarde, um nosso companheiro descobriu as suas lições no manual técnico do material. Nada de novo, então! Mas ele não viera 'contar vantagem' veio ensinar e só poderia fazêlo pelos regulamentos da matéria em questão." Num quadro de máxima eficiência, tivemos a prova na substituição de um trator cujo motor grimpara. Uma semana depois, recebíamos no front um outro novinho. Só não sabíamos que o Brasil, provavelmente, pagou mais um trator, incluído no Lend Lease (a Lei de Empréstimos e Arrendamentos, dos EUA) pela qual rearmamos nosso Exército e pagamos US$ 361 milhões, hoje valendo dez vezes mais, seria um montante igual à venda da Companhia Vale do Rio Doce 3,61 bilhões de dólares! Quanto ao apoio religioso, é bom lembrar que a existência de capelães militares era uma novidade recente no Exército. Os padres "convocados" acorreram de várias partes do País e ainda não estavam perfeitamente entrosados com a vida castrense, quando foram testados na sua dignificante missão. O resultado ora poderia parecer discreto, ora mais atuante, conforme as circunstâncias de seu papel complementar na manutenção do moral do combatente. Não encontro palavras melhores para julgar esse importante serviço, senão no trecho da referência elogiosa do próprio Comandante da FEB, publicado no BI no 45, de 14/2/1945, da 1a DIE, quando diz: "Alentando os feridos na frente do combate ou nos hospitais, aplicando-lhes os socorros espirituais tão necessários, esses missionários da paz muito têm feito pelo bom êxito da FEB na guerra." Tenho a foto de curioso flagrante de um altar montado em plena Posição de Bateria, entre dois obuses. Parece a primeira vista incrível, mas essa foi a realidade! Hoje, me pergunto: "O que meus soldados estariam pensando ao falar com Deus naquele instante..." Ainda sobre a atuação de minha Subunidade, gostaria de ler trechos da Citação de Combate concedida pelo Comandante da 1a DIE ao IV Grupo de Artilharia, pois, para fins históricos, nela estão as contribuições das Bias de Tiro ao desempenho do Grupo. Ei-los: "[...] Na fase defensiva do último inverno, que se prolongou por dois meses, seus fogos, bem ajustados e rápidos, prestaram às unidades de Infantaria, em cujo proveito atuavam, de dia e de noite, sob toda espécie de tempo, um apoio marcantemente eficaz. No ataque a Monte Castelo, na memorável jornada de 21 de fevereiro, reforçou os fogos de apoio direto, agindo como Artilharia de ação de conjunto. A sua atuação, nessa oportunidade, revestiu-se de marcante destaque, [...] os seus fogos foram de grande eficiência, bem ajustados e de desencadeamento extremamente rápido. Mais tarde, na jornada de 14 de abril, que assinalou o início da última ofensiva, atuou como Artilharia de ação de conjunto no ataque a Montese, cooperando destacadamente para o desmantelamento do sistema defensivo montado pelo inimigo. Na exploração do êxito e perseguição ao inimigo, concorreu com seus caminhões para o rápido deslocamento da Infantaria [...]. O IV Grupo confirmou, nos campos de batalha da Itália, os seus méritos de Unidade guerreira e as esplêndidas qualidades da Artilharia brasileira, dirigida por quadros capazes e por um Comando que soube elevar bem alto as nobres tradições da Artilharia de Mallet[...]" Fui instado pelo meu entrevistador a fazer uma referência especial a integrantes de minha Subunidade nesse meu relato. Sei que não se trata de contribuir para um quadro de honra ao mérito, visto que já existem as formas regulamentares para reconhecer tal mérito, seja em referências elogiosas, seja em Citações de Combate. Acho que me cabe tecer comentários sobre algum integrante como referência de conduta, cujo registro ficou simplesmente na minha memória. Nesse sentido, escolhi um soldado, um sargento e um Tenente. Coube ao Soldado no 905, ARI KERNE GENTIL SOBRAL, servente da 3a peça da 2a Bia, representar seus companheiros pelo seu constante esforço físico, levado ao extremo, quando no apoio ao ataque de Montese, flagrei-o carregando uma granada espoletada em cada ombro, vale dizer transportando, embora indevidamente, 86Kg de munição com TNT, como se observa na Fig. 24-1 que deixei, também, em minha pasta no Projeto História Oral do nosso Exército. A necessidade de rapidez e massa, princípios da Artilharia ali tão presentes, fê-lo despender tanta energia, pelo seu alto senso de responsabilidade. O 2o Sargento ALBERTO MELLO DA COSTA, da Seção de Reconhecimento, era o nosso especialista em minas, após curso com os americanos em Caserta, próximo a Roma. No desvio para Zocca, onde estávamos aguardando ordens, havia letreiros nas margens da estrada improvisada, avisando da existência de campos minados, como se vê na Fig. 24-2 em minha pasta-arquivo. Eu estava na testa da coluna com o Ten BANDEIRA, quando o sgt ALBERTO nos mostrou uma mina anticarro desmontada, completamente inerte. Soube-se, então, que havia outra igual próxima ao veículo cerra-fila. O sgt ALBERTO foi lá, afastou os soldados curiosos, pediu um alicate e, ao buscar desativá-la, ela explodiu e o nosso sargento desapareceu... Isto sucedeu no dia 22 de abril de 1945, dez dias antes da rendição no TO da Itália. No decreto que lhe concedeu a Cruz de Combate consta: "Por feito excepcional durante a Campanha da Itália." Finalmente, reporto-me ao 1o Ten GUSTAVO NILO ROMERO BANDEIRA DE MELLO, Comandante da Seção de Reconhecimento da 2a Bia, que trazia um invejável "curriculum" de formação castrense. Era órfão de militar morto na Revolução Constitucionalista de São Paulo e, por isso, fazia juz ao curso no Colégio Militar sem ônus para a família. Por necessidade, ingressou nesse Colégio por autorização do Ministro da Guerra, com um ano a menos que o limite de idade e foi o 1o aluno do primeiro ao último ano. Entrou na Escola Militar do Realengo, em 1939, também como um dos cadetes mais jovens e novamente foi o 1o da turma nos 4 anos letivos. Era, pois, inteligentíssimo e aplicado. Convivi com ele desde o Grupo Escola e como integrante da mesma Bateria, na Campanha da Itália (Fig. 24-3 em minha pasta-arquivo no Projeto). Sempre o vi simples, modesto, corretíssimo, excelente chefe e subordinado. A ninguém mencionava seus êxitos escolares, era pelo exemplo que se impunha! A FEB ganhou uma identidade própria na campanha da Itália. O esforço nacional para o revide à altura dos ataques por submarinos, que afundaram 36 navios, 1/3 da nossa frota mercante, no período de 1942-44, com elevado número de mortos (975 no total), fez o povo empolgar-se a favor da luta dos aliados. A nossa presença na Itália, com uma Divisão de Infantaria, completa segundo os padrões americanos, criou no "pracinha" uma postura original. Ele alterou o uniforme de campanha, mandando "recortar" pelas costureiras italianas o blusão sem bolsos e posto por fora da calça, transformando- o num blusão cintado, com 2 bolsos, substituindo o distintivo de braço simples, pelo colorido da "cobra fumando", que surgira de uma expressão emblemática criada para caracterizar uma situação crítica de combate. No inverno, suprimiu o uso do coturno, substituindo-o por palha colocada dentro dos galochões, o que impedia o congelamento dos pés. Inventou a "tocha" para sortidas não autorizadas regularmente com o assentimento dos comandantes das subunidades, enfrentando riscos e desafios pelo desconhecimento da língua inglesa, mas fazendo-se entender num italiano arrevesado, indo a lugares inimagináveis: Paris, por exemplo. Lutou bravamente substituindo a senha diária, em inglês, para o trânsito no front, cantarolando trecho de modinha da época. Não se sentia inferiorizado, nem submisso aos grandalhões das tropas aliadas. Tinha na mente um espírito de vencedor e, por isso, foi enfrentando óbices e se sentindo valorizado por ser brasileiro. Voltou mais patriota e mais orgulhoso! Soube relacionar-se muito bem com a população italiana, que, até hoje, guarda as melhores recordações de nossa gente. Em verdade, país invadido é indício de população sofrida. Escasseiam os mantimentos. Floresce o câmbio negro. As necessidades de sobrevivência afetam os padrões sociais. A prostituição não vê "bandeiras", prolifera implacavelmente, invadindo os lares com a convivência da abastança dos soldados. Nas localidades por onde transitou a Bateria, nas Posições de Tiro, nos Estacionamentos, vi e vivi esse quadro desolador. Estimulei, sem a obsessão de um franciscano, o bom relacionamento com a população local. Não vi excessos. A cada mil tiros da Bateria, "festejava" com a colocação de uma estrela azul na flâmula branca distintivo convencional da 2a Bateria. Ao ato compareciam os moradores locais, entre os quais estavam as moças da região, que lá iam, em busca dos chocolates que os soldados reuniam voluntariamente dos que acompanhavam sua etapa de alimentação. Havia, portanto, nesse caso, bom relacionamento, embora por motivações diferentes... A respeito de minhas impressões sobre os preparativos de nosso regresso à Pátria, após a campanha da Itália, reunidos na mesma área toda a 1a DIE, em Francolise, na estrada que segue para Nápoles. Local inóspito, quentíssimo, sujeito à transmissão da malária, com ar empoeirado, acampados em acomodações desconfortáveis face à concentração elevada do pessoal e o conseqüente adensamento das instalações para uso comum, agravado pela ausência de transporte adequado para se chegar a um grande centro urbano e desfrutar, momentaneamente, de algum entretenimento. Uma verdadeira provação... Para se ter idéia do moral abalado dos febianos, valho-me de um depoimento, em versos, assinado em 2 de agosto de 1945, ainda em Francolise, pelo 1o Tenente de Artilharia Francisco Boaventura Cavalcanti Júnior, que sucedeu o Bandeira como primeiro da turma seguinte, a de março de 1943, da antiga Escola Militar do Realengo. Leio, não sem um grau elevado de emoção, as estrofes desse libelo poético documento que ofereço na íntegra em minha pasta, para a História da FEB: "OS HERÓIS DE CARA SUJA" ! Eram eles todos ínclitos heróis! O anjo da Vitória diáfano e brilhante, Em vôo condoreiro caindo lá do céu, Pusera-lhes na face um beijo palpitante, Pusera-lhes no peito um coração de ouro, E na cabeça altiva miríades de sóis! Vindos de além-mar, De terra mui distante De terra pura e bela, Cheia de amor, de paz, cheia de luz, Onde nas noites claras se revela, Um mistério de estrelas Em forma de alva cruz... Traziam n'alma todos, indomável chama Chama de amor terno, puro e filial, Pela terra berço, terra Pindorama, Terra das palmeiras, terra sem igual! Francolise! Martírio daqueles que um dia foram grandes E hoje vivem de lembrança! Parênteses na vida Vive-se tão somente, a vida vegetal, Os últimos lampejos d'alma enfraquecida São os alentos longínquos da esperança, De um dia retornar ao berço natal! Lance-se um olhar, Em torno desta área desolada, Nova Santa Helena, da águia brasileira: O Sol a pino ardente a causticar Raios de fogo, vomita todo o dia... A terra adusta, recebe o beijo quente, Concentra, aquece, reverbera, E pródiga irradia... [...] Jura seguir do medico o apelo Que a todos com carinho, todo o dia ensina: Amanhã ao quebrar a fome matinal, Engolirá com amor, com fé e com desvelo Num gole de café ou gole de mingau A pastilha amarela de atebrina... E é este o Francolise, Martírio daqueles que um dia foram grandes E hoje vivem de lembranças... Parênteses na vida Vive-se tão somente a vida vegetal, Os últimos lampejos d'alma enfraquecida, São os alentos longínquos da esperança, De um dia retornar ao berço natal! Padecer! Os maus tratos do norte-americano O ridículo daquele que diz ser nosso irmão... A mente ardente de delírio insano, E dentro ao peito o ódio sem perdão... Mas de certo, não és tu um homem? Chamam-te em vão: Herói de cara suja Ergue a cabeça! Limpa as estrelas Da fronte, que o pó enxovalhou! Se pelo mundo, novamente brilham, Da liberdade, luzes e centelhas Recorda-te com orgulho que o sangue brasileiro, Os campos da Europa também purificou! Viajei, com o terceiro escalão da FEB, partindo de Nápoles no dia 12 de agosto de 1945, no navio MARIPOSA, desembarcando no Rio de Janeiro dez dias após (Fig. 32- 1 de minha Pasta). O IV Grupo encontrou, no Cais do Porto, as viaturas, os tratores e os obuses para um desfile motorizado. Constatei não serem os mesmos obuses que usamos na campanha da Itália faltava o toque jocoso dos seus apelidos na guerra... Desfilamos, sob aplausos, pela Avenida Rio Branco. O povo nos recebia com entusiasmo e demonstrações de carinho. Depois, com as bagagens pessoais, seguimos o penoso trajeto da coluna motorizada até Deodoro, onde se instalara o aquartelamento provisório do Grupo. Já noite, cuidei, como devia, de estacionar as peças, desembarcar pessoal e bagagens e liberar meus subordinados, sem maiores formalidades, tal qual fôramos recebidos. Feitas as apresentações de praxe, peguei minha mala de lona e saí, já à noite, a pé, pelo portão... Ansioso para retornar ao convívio da família, minimizei a frustração latente: as glórias dos pracinhas haviam ficado na Itália... No Brasil, cuidava-se de extinguir, o quanto antes, a Força Expedicionária Brasileira! A respeito, o General João Baptista Mascarenhas de Moraes faz um registro melancólico em seu livro A FEB PELO SEU COMANDANTE (11 de março de 1947). Em aviso do Ministro da Guerra, de 6 de julho de 1945, ficou determinado que as unidades da FEB, desembarcadas no Rio de Janeiro, passassem ao Comando da 1a RM. Isso significou, "em última análise, a formal dissolução da FEB". Entre as conseqüências na minha vida pessoal pela participação na campanha da Itália, creio ter sido a mais marcante o amadurecimento que acelerou o meu aprimoramento profissional e o voluntário incremento de minhas responsabilidades familiares. Casei-me em 1946. Em 1948, era Capitão, com dois filhos e o curso da EsAO. Em 1955, Major, com três filhos e o curso da ECEME. Em 1958, ainda Major, exerci meu primeiro comando de Unidade isolada e recebi a Ordem do Mérito Militar. Progredi profissionalmente e, muito, na vida pessoal. Hoje, com 78 anos, casado há 54 anos, com três filhos e oito netos, volvo meus olhos para o passado e acho que a guerra ensinou-me muito a viver... Em meu livro recente, A Guerra Proscrita, trago à colação o seguinte conceito: "A História tem sido um valioso escrínio da razão da civilização. Nesse 'cofre virtual' estão registrados os significativos acontecimentos na vida do homem, permitindo sua releitura muitos séculos depois..." Por isto, o estudo da HISTÓRIA CRÍTICA fornece hoje subsídios valiosos para novas comparações e avaliações de acontecimentos pregressos, dando-nos outros ensinamentos que a HISTÓRIA DESCRITIVA não registrou... É o caso da Força Expedicionária Brasileira (FEB), com seus insucessos e glórias, revistos sob um ângulo novo que remonta aos idos de 1940 e nos traz para realidades e premonições do início do milênio. Tenho a ousadia de fazer uma síntese da HISTÓRIA CRÍTICA, ultra-simplificada, do que foi a FEB para o Brasil e para o Mundo (Quadro incorporado à minha Pasta). Há quem diga, por maldade ou ignorância, que o Brasil chegou ao final da guerra encontrando os alemães mal armados e posicionados, com efetivos insuficientes para deter os aliados na Itália. Assim, nós teríamos ido para receber as coroas de louros dos vencedores... A realidade, porém, é bem outra. A Alemanha esbanjou poder militar, tanto pelas aguerridas tropas que preparou como pelo forte suporte de material bélico que produziu, incluindo aviões e carros-de-combate de alta eficiência. Com a cobiça dos imperialistas e os princípios hegemônicos do pan-germanismo, Hitler impôs o nazismo a um domínio tão amplo que não teve paralelo na História. Em 1942, dominava a Europa Ocidental, a Dinamarca e a Noruega, todo o Norte da África, desde a Tunísia e Líbia até o Egito, ocupava metade da Polônia e tinha um pacto de não agressão com a URSS. Entre janeiro de 1942 e julho de 1944, a Alemanha triplicou a produção de armamentos. A Alemanha vencia a guerra quando o Brasil declarou o estado de beligerância em agosto de 1942. Nessa época (junho de 1942), a Alemanha invadiu a URSS com 3,1 milhões de soldados e já estava às portas de Moscou, lutando em Stalingrado e Leningrado, em fevereiro de 1943. Quando a FEB foi criada em 9 de agosto de 19431, englobando a 1a DIE e elementos não Divisionários e dos Serviços Gerais, totalizando 25.334 homens, a Sicília havia sido, há apenas um mês, tomada (julho de 1943) e, em setembro do mesmo ano, o Gen Montgomery desembarcara comandando americanos e ingleses na ponta da bota italiana, movendo-se lentamente, com visível dificuldade, para o Norte. Quase ao mesmo tempo, o Gen Mark Clark desembarcara em Salerno, encontrando resistência tão forte, que chegou a cogitar de retirar-se das praias... Quando a FEB (1o escalão) chegou a Itália em julho de 1944, Roma havia sido capturada depois da célebre batalha de Monte Casino. Nossa tropa entrou em combate, com um Destacamento sob o Comando do Gen Zenóbio da Costa, no Vale do Serchio, em setembro do mesmo ano, atuando decisivamente para o recuo da linha de contato com os alemães. As vitórias de Camaiore e Monte Prano foram resultantes de uma primeira ação dos brasileiros, sob todo os ângulos, espetacular. Daí para a frente, a FEB foi prestigiada e promovida por seu eficaz desempenho, que lhe trouxe um alto conceito junto ao V Exército de Mark Clark, passando a lutar no Vale do Reno, onde se travariam os combates decisivos na frente italiana. Vale lembrar que só em 5 de junho de 1944, os Aliados desencadearam a Operação Overlord com o desembarque na Normandia, chegando a Paris em luta aguerrida, para a declaração de libertação por De Gaulle em 25 de agosto de 1944. Para este êxito, a França havia concorrido com somente nove divisões. Outro "mito" ou "estória" contada de várias formas é sobre a defensiva alemã no inverno de 1944-45, na chamada Linha Gótica nos APENINOS, que teria sido uma tênue defesa por soldados bisonhos, ainda adolescentes... Essa Linha Defensiva foi muito bem planejada pelo Gen Kesselring que vinha comandando a resistência alemã desde a invasão dos aliados na Península italiana. Ele chegou a contar com 28 divisões, das quais a FEB teve contato com 13 que, embora incompletas em seu armamento de apoio, tinham supremacia do terreno para enfrentar as 20 dos Aliados, inclusive a brasileira. Acresce que a nossa tropa teve ainda que suportar os rigores do inverno, com temperaturas de até 18 graus negativos (frio, neve, lama), agravados pelo terreno montanhoso e minado, pleno de precipícios e de cotas elevadíssimas, onde o inimigo contava com o completo domínio de vistas e de fogos sobre nossas posições. Nos ataques frustrados ao Monte Castelo, a FEB atacou sozinha em toda a frente italiana. O ataque vitorioso, quando tivemos, finalmente, o flanco protegido, foi consagrador e taticamente perfeito. Na Ofensiva da Primavera, de abril a maio de 1945, a FEB atuou com máxima eficácia. No Aproveitamento do Êxito e na Perseguição, após a sangrenta vitória de Montese, renderam-se à 1a DIE, em Collecchio e Fornovo, 15 mil combatentes (duas divisões com 2 generais) e a nossa Divisão foi se unir às forças francesas em Susa. Em toda campanha, a 1a DIE capturou 20.573 prisioneiros e teve apenas 35 homens aprisionados, dado impressionante que mostra o que foi o excepcional soldado brasileiro. Para finalizar, não é sem tristeza que apresento as conclusões que julgo mais importantes. O Brasil entrou na guerra por solidariedade continental, o que nos valeu o afundamento de 36 dos nossos navios mercantes, totalizando 150.209 toneladas (Fonte: Mario Calabria O Problema das Reparações de Guerra RJ 1948 MRE). Fez um esforço que não podia fazer. Sacrificou sua economia, seu desenvolvimento e submeteu o povo a duro racionamento. Estava despreparado militarmente e a situação socioeconômica era muito deprimente. Recebeu pelo Lendlease dos EUA armamento militar moderno pago por nós integralmente no valor de US$ 361 milhões (hoje 3,61 bilhões, preço da venda da nossa Vale do Rio Doce). De um saldo congelado de nossas exportações, creditaram-se para os aliados US$ 2 bilhões, na área do dólar, e US$ 877 milhões, na área da libra. Após a guerra, não recebeu o ressarcimento de seus prejuízos, excluído da Conferência de Reparações de Guerra, Paris (1945). Ajudou países derrotados, como a Itália, hoje integrantes do G-7 e, apesar da vitoriosa campanha, não melhorou seus índices indicativos de país do 3o Mundo. Arcou, de 1942 a 1945, com a área global de US$ 6 bilhões (hoje US$ 60 bilhões) pela sua participação na guerra. Não teve, portanto, benefícios em relação aos custos, apesar de todos os êxitos obtidos, calcados em tanto sacrifício, como mostro claramente, valendo-me, agora, da palavra inquestionável do próprio Comandante da FEB, divulgada logo após a capitulação das tropas alemãs na Itália, através de uma Ordem do Dia, publicada no Boletim Interno da 1a DIE, de 3 de maio de 1945, de onde se extrai os seguintes termos: "[...] A Força Expedicionária que representou o Brasil nesta sanguinolenta guerra, cumpriu galhardamente a missão que lhe foi confiada, mercê de Deus e a despeito de condições e circunstâncias adversas. Num terreno montanhoso, a cujos píncaros o homem chega com dificuldade; num inverno rigoroso que a totalidade da tropa veio enfrentar pela primeira vez e contra um inimigo audacioso, combativo e muito bem instruído, podemos dizer assim mesmo, e por isso mesmo, que os nossos bravos soldados não desmereceram a confiança que neles depositavam os seus chefes e a própria Nação Brasileira. Após oito meses de luta, em que, como todos os exércitos, sofremos pesados reveses e obtivemos brilhantes vitórias, o balanço de uns e outros mostrou-se favorável às nossas Armas. Desde o dia 16 de setembro de 1944, a FEB percorreu, conquistando ao inimigo, às vezes palmo a palmo, mais de quatrocentos quilômetros de Lucca a Alessandria, pelos vales dos rios Serchio, Reno e Panaro e pela Planície do Pó; - libertou quase meia centena de vilas e cidades; sofreu mais de duas mil baixas, entre mortos, feridos e desaparecidos; - fez o considerável número de mais de vinte mil prisioneiros, vencendo pelas armas e impondo a rendição incondicional a duas divisões inimigas. É um registro deveras honroso e de vulto para uma Divisão de Infantaria. Um dia se reconhecerá que o seu esforço foi superior às suas possibilidades materiais, porém, plenamente consentâneo com a noção de dever e amor à responsabilidade, revelados pelos nossos homens em todos os degraus e escalões da hierarquia, e em todas as crises e circunstâncias da campanha, que neste instante acabamos de encerrar." Para corroborar os êxitos alcançados em 239 dias de combate, a 1a DIE recebeu citações especiais dos comandantes das grandes unidades dos aliados, nomeadamente o Ten-Gen Mark Clark, Cmt do 15o Grupo de Exércitos e antes do V Exército, o 2 Transcrito do livro "A FEB PELO SEU COMANDANTE", Mal. J. B. Mascarenhas de Moraes 431 pág. 1a edição Instituto Progresso Editorial S.A. São Paulo SP 11 Mar 1947 3 Durante sua ação, a FEB fez 20.573 prisioneiros, teve 457 mortos (13 oficiais e 444 praças), sofreu 35 prisioneiros, 1.577 feridos em combate, 487 acidentados em ação de combate e 658 acidentados fora das linhas de combate. Dos 25.334 homens levados à Itália, 15.069 pertenciam a 1a DIE. Ten-Gen L.K.Truscott, Cmt do V Exército e Maj-Gen Willis D. Crittenberger, Cmt do IV Corpo de Exército ao qual estávamos diretamente vinculados. Este último, logo após o êxito do ataque ao Monte Castello, enviou ofício ao Comandante da FEB, datado de 26 de fevereiro de 1945, no qual consta o seguinte trecho: "Na captura de Monte Castelo e no avanço subsequente contra tenaz resistência inimiga foi revelado, por parte da Força Expedicionária Brasileira, um espírito altamente satisfatório... A coordenação de vosso ataque, tanto entre as próprias unidades como com a Divisão vizinha, evidenciou um meticuloso plano de Estado- Maior e uma excelente supervisão do campo de batalha. O honroso desempenho das tropas brasileiras estabelece um padrão elevado que servirá para estimular todos os outros elementos de vossa Divisão, quando chegar a oportunidade de lançá-los em nossas ações ofensivas." O Brasil ajudou a virar a página negra do apanágio do Nazismo no Mundo contemporâneo! Germano Seidl Vidal Escritor e Historiador (Continuação da PARTE I - TOMO 6 - Depoimento prestado em 09 de janeiro de 2001 - Publicado pela Biblioteca do Exército Editora ========================================================================== Nota importante: Todo o texto deste "site" tem Direitos Reservados (All Right Reserved), não podendo ser reproduzido total ou parcialmente, sem autorização expressa do autor. As opiniões aqui emitidas são de exclusiva responsabilidade do autor, na sua visão de Historiador e Escritor, não podendo servir de base para eventuais causas de questionamentos, seja de que tipo e objetivo forem. Maiores informações sobre DIREITOS RESERVADOS, visite a página neste "site" - Direitos |