ESPADA DE CAXIAS - ONTEM E HOJE !

Texto do Escritor-Historiador Germano Seidl Vidal

Jovens Aspirantes!

Neste dia solene, deveis ouvir a última ordem na condição de meus comandados.

Não escondo o orgulho com que me desincumbo do dever funcional.

Lembro-vos, de início, que quem assume um compromisso para cumpri-lo até com sacrifício da própria vida, como ireis em seguida fazer, deve bem compreendê-lo para jamais dele esquecer-se.

Honra, integridade e instituições a preservar são cláusulas de um contrato verbal, formalizado em público e de maneira solene, do qual somos todos testemunhas e beneficiários de sua adoção.

Visa ele a segurança e grandeza do Brasil e, por isso mesmo, leva o endosso de oitenta milhões de irmãos.

Recebestes, também, pelas mãos gentis de vossas madrinhas, a espada de oficial.

Outrora símbolo da honra e do orgulho, ela representa para o Exército Brasileiro a autoridade militar, cujos direitos e deveres estão previstos nas normas constitucionais e legais.

É, ainda, a espada prateada e reta do Exército de Caxias, uma expressão de dignidade, dentro do tradicional conceito de que jamais deverá ser desembainhada sem razão e nunca embainhada sem honra.

Para vos capacitardes a usufruir integralmente deste símbolo, fostes preparados dentro dos mais modernos princípios.

Os chefes militares de forma alguma se improvisam.

Eles devem ser paralelamente formados em escolas, centros e cursos, e adestrados em longa experimentação e atividade.

Existindo grandes chefes, porém sendo insuficiente o número de soldados, sempre haverá possibilidade de se formar um exército; com soldados mas sem chefes capazes, jamais poder-se-á constituir um eficiente exército.

O valor bélico não está, pois, no número de divisões de um exército, mas na capacidade dos chefes de conduzirem as tropas com entusiasmo, eficiência, coragem e disciplina que os rigores da guerra exigem.

Também não se pode medir o poder das forças militares exclusivamente em termos de seu armamento.

As modernas armas científicas, por mais colossais e destruidoras que sejam, serão sempre inferiores ao homem.

Elas poderão, é verdade, destrui-lo, mas não vencê-lo; porque onde haja sentimento e vontade de levar seus homens à vitória, haverá uma arma divina que, através do heroísmo, pode chegar ao milagre de, sem nada, derrotar tudo e todos.

Nos tempos tormentosos do mundo de nossos dias, não basta possuir uma arma na mão, se não houver uma idéia na cabeça e um sentimento no coração.

A força dos músculos não suporta a força da mente.

Na realidade, nações sucumbiram sem reagir, sem disparar um só tiro, derrotadas pelas idéias antes de o serem pelas armas.

Uma idéia nefasta, mesmo que negada, ignorada ou fulminada não é uma idéia derrotada, se a ela não se opuser outra idéia melhor.

Daí porque o espectro do marxismo cresceu em razão geométrica quando combatido pelas armas de Hitler e seus asseclas e estende agora seu manto tenebroso sobre 2/3 do efetivo demográfico mundial.

Para combater o comunismo não é suficiente ser contra a idéia ou simplesmente anti-comunista.

É indispensável consciência e conduta compatível com os postulados do Mundo Livre, embora saiba-se que nele se respeita a diversidade de opiniões, exceto a que profliga aqueles postulados visando sua execração e aniquilamento.

Há que atender-se uma gama de valores unanimemente reconhecida e de grande relevância: a dignidade da pessoal humana, sua liberdade e seus direitos, o privativismo como émulo do progresso e do bem estar social e a presença do Estado para alargar a ação do homem, dos grupos e do povo e nunca para escravizá-los.

Se os homens livres pretendem ganhar a guerra ideológica devem também possuir a sua ideologia e conduzir-se de acordo com ela.

Vossa preparação abordou esse tema de frente, com honestidade e convicção.

Destes prova de um eficiente aprendizado e uma resposta pública de vosso pensamento e modo de agir, quando escolhestes o patrono da turma: Ten Av FREDERICO GUSTAVO DOS SANTOS. Um moço-herói, nascido na Bahia e abatido no verdor de seus vinte anos, quando lutava contra a tirania nazi-fascista nos céus da Itália.

Ele foi um dos jovens brasileiros que no 1º Grupo de Caça da FAB, efetuaram, contra o inimigo, 2250 saídas individuais, em 5465 horas de vôo, disparando 4442 bombas, 850 foguetes e 1.180.200 cartuchos, e em cujas ações de combate imolaram-se oito pilotos.

Para que afinal?
Exatamente, para que vós pudésseis hoje orgulhar-se de serdes brasileiros e livres!

E a força desse hoje é também admirável, pois comemora-se nesta data, o nascimento de OLAVO BRAZ MARTINS DOS GUIMARÃES BILAC, o poeta sublime, prosador emérito e orador inflamado, cuja pregação cívica, entre 1915 e 16, mobilizou a consciência nacional para acolher a lei do serviço militar obrigatório mediante sorteio.

Recordo-vos, neste instante, reverente a memória do inolvidável OLAVO BILAC, brilhantes expressões que usou em sua memorável campanha.

"Todo brasileiro, disse ele, pode ser um admirável soldado, um admirável cidadão. O que preciso é que todos os brasileiros sejam educados. E o Brasil será uma das maiores, uma das mais formidáveis nações do mundo, quando todos brasileiros tiverem a consciência de ser brasileiros."

"Queremos um exército verdadeiramente nacional, sendo a própria nação composta de cidadãos-soldados, em que cada brasileiro seja o próprio exército e o exército seja todo o povo."

Esse exército, diz finalmente BILAC, "será um laboratório de civismo, uma escola de humanidade dentro do patriotismo; uma escola de energia nacional."

Temos, todos nós, inabalável fé no valor imanente desta nação colossal, bastando confiar em que cada um tome a si a tarefa de sua seara e faça dela o futuro de seu trabalho e a promissão de seu grupo, comunidade, estado e região.

Precisamos dos que, atacando a injustiça e a corrupção, destemidamente, não temam submeter-se ao crivo de suas próprias críticas; que enfrentem com tenacidade os nosso problemas sem fugir dêles; que apliquem com rigor os parâmetros de honestidade e altruísmo em si próprios antes de pretender fazê-lo aos outros; que tenham a consciência limpa e cristalina para falar a Deus, ao pleitear suas graças e ouvir-Lhe no fundo do coração.

De minha parte, eu confio em vós, a quem acompanhei diariamente durante dez meses. Confio na vossa inteligência, provada na rigorosa seleção, exercitada na preparação universitária e aprimorada nas lides intelectuais deste Centro.

Confio na vossa energia, proveniente da higidez física e moral que molda vosso corpo e espírito, tantas vezes posta a prova nas duras jornadas de nossos exercícios.

Confio no vosso patriotismo, incrementado diuturnamente na vida da caserna, no culto cívico à Bandeira e heróis nacionais e na inspiração permanente de nossas conquistas no campo econômico e social.

E porque confio em vós, acreditanto serdes a futura elite da Bahia, quedo-me aos valores novos da juventude, desde quando afinados ao ideal de construir pela experiência que lhe transmite a atual geração, para que, sem solução de continuidade, possais ajudar o país a emergir do estado de pobreza para o da abastança, sem ceder em dignidade e soberania e sim, especialmente, através do trabalho intenso de todos os seus filhos!


Germano Seidl Vidal
Escritor e Historiador

Ordem do dia do Cmt. CPOR/Salvador, Cel. Art. GERMANO SEIDL VIDAL, em 16/12/1966. Publicado no Boletim Interno do CPOR/Salvador de 16/12/1966 e transcrito no meu livro "LINHA DE PENSAMENTO MILITAR" (SENAI - Salvador - BA - 1967 - 155 pág.)

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