![]() |
Escotismo como vetor de educação Introdução Homenageamos hoje as mais altas autoridades civis e militares deste Estado, recebendo-as em nossa modesta sede para integrá-las no Movimento Escoteiro. Engalanam-se os corações dos escoteiros com a efeméride que, de forma inusitada, vem trazer a certeza de que os homens públicos da Bahia, têm suas vistas para o valiosos tesouro nacional representado pela sua juventude. Estamos convictos de que a presença de Vossas Excelências marcará nova fase para o escotismo nesta terra abençoada do Senhor de Bonfim, incentivando suas atividades para colaborar na educação de milhares de pessoas desta capital e do interior do Estado. Escotismo não é clube de recreação ao ar livre, nem sociedade de pedestrianismo e excursões, nem centro de instruções de grupos para-militares . Escotismo é assunto muito sério, apesar de praticada por homens de calças curtas... Escotismo é escola de educação integral, de formação de perfeitos cidadãos, de verdadeiros líderes democráticos, de homens, enfim, aptos a dar afetiva contribuição no aperfeiçoamento da sociedade e na preservação do bem comum das comunidades que integram. Escotismo se assenta em sólidos princípios morais, cívicos e patrióticos e é dirigido por idealistas que trocam horas de lazer por intensa atividade em benefício dos filhos dos outros. Fundamentos Históricos Vale aqui lembrar os pródomos do escotismo enaltecendo a imagem singular de seu criador: Robert Stephenson Smyth Baden Powell (1857-1941). Ele foi o 7º filho dum reverendo, professor de Geografia de Oxford. Estudou no Colégio de Charterhouse e cedo ingressou na carreira militar, indo aos 19 anos como alferes de cavalaria com os 13 dos Hussardos para a Índia. Lá passou sete anos, tornando-se excelente cavaleiro, ótimo atirador, exímio na técnica da exploração e na perigosa caça ao javali e adorado por seus soldados. Como capitão passou a maior parte de seu tempo na África do Sul onde combateu e aprisionou, Dinizulu, o rei dos Zulus e tomou parte nas primeiras escaramuças com os "boers". Serviu depois na ilha de Malta e já como Major recebeu missão de um comando indígena para a Campanha dos AXANTIS, na Costa Ocidental Africana, contra inimigos distribuídos em tribus guerreiras, sanguinárias e supersticiosas. O resultado pacífico valeu-lhe a promoção a Ten-Cel.. Com chefe do Estado-Maior tomou parte na Campanha dos MATABELES, na Redésia do Sul, contra 15 mil indígenas. Voltou como Coronel para a sua memorável atuação na defesa da pequena cidade de MAFEKING, na União Sul Africana, cercada durante meses pelos "boers" e de onde saiu herói venerado pela Inglaterra inteira. Foi ai que ele pôs em prática para os meninos os seus "subsídios para exploração" dos cavalarianos e passou historicamente como berço do movimento escoteiro. Disso resultou sua promoção a General aos 43 anos. Exerceu depois a direção do Corpo de Polícia Sul-Africana e o alto cargo de Inspetor Geral de Cavalaria para a Grã-Bretanha e Irlanda. O que se pode dizer desse militar é de que foi um chefe que empregou métodos então desusados. "A disciplina, dizia, deve vir do interior e os homens devem ser capazes de tomar iniciativas e agir sem ordem direta". Asseverou em tom profético: "O Exército é a melhor universidade que dispomos para dar uma educação pós-escolar a grande número de nossos futuros cidadãos. Estes adquirem pelo menos, para além de seus conhecimentos escolares, vigor e desenvolvimento físico e grande número de qualidades necessárias para saírem de dificuldades na vida e se tornarem úteis aos seus semelhantes. É por isso que um oficial dispõe dum poder real tão considerável como o de um professor primário ou de um padre, o que lhe permite, se dele sabe fazer uso, desenvolver nos seus homens os melhores atributos de bom cidadão". E, sintetizou em frase lapidar, o que cumpriu na vida da caserna: "Ó Chefe é aquele que sabe fazer-se amar pelos seus homens para melhor os conduzir depois". Como educador ultrapassou a todos os formuladores de novos métodos porque melhor que os ensinamentos exemplificou-os, por inteiro, como modelo durante sua vida. Fez as suas próprias experiências de educação desde os matagais de CHARTERHOUSE, nos países de AXANTIS ou dos MATABELES, como nos seus cargos de chefia, até consubstanciá-los no livro básico "Escotismo para rapazes". Passou depois a ação e aplicou seus princípios no Campo Experimental de BROWNSEA, na costa sul inglesa, de onde brotou, com pleno vigor, a idéia hoje vitoriosa do Movimento Escoteiro. Assim, quarenta milhões de adeptos respondem hoje em uníssono à chamada de Baden-Powell, afirmando estar: SEMPRE ALERTA PARA SERVIR O MELHOR POSSÍVEL ! Objetivos Sob a égide da doutrina do seu imortal criador, estruturou-se o movimento contando com chefes, pioneiros, escoteiros seniors, escoteiros e lobinhos, uma feliz classificação de acordo com os respectivos grupo etários. Ainda que saibamos serem modestas nossas palavras para traduzir os objetivos do escotismo tentemos de relance interpretá-los. Um conceito amplo e paradoxalmente pragmático define tudo o que procuram obter os cruzados hodiernos do escudo da Flor de Liz: Auto-educação. Tal conceito, com os seus 58 anos de prática, responde bem ao axioma da moderna pedagogia que diz: "Só realizamos bem aquilo que realizamos por nós mesmos". O escotismo cria com eficiência uma sociedade mirim onde o menino e o rapaz se preparam precocemente para os embates da vida. A disciplina é aceita por imposição da consciência e o seu zelo cabe aos próprios praticantes, no sistema de associação de patrulhas, dirigidas por eles mesmos. A lei escoteira é corolário de princípios de honra e caráter, onde a lealdade com subordinados, pares, superiores e, em especial, consigo próprio, é a grande tônica. Baden-Powell disse inspirado: "O sorriso e a boa ação são nossa especialidade", pois a ausência deles constitui a origem dos grandes problemas sociais de hoje. O desenvolvimento de espírito de investigação, particularmente com as causas da Natureza, dá a inteligência o sentido útil para o que Deus dotou as criaturas humanas. A tonacidade é conseguida como resultado de estafantes tarefas que exigem do jovem excelente preparo físico e moral. A aventura, o vencer perigos e dificuldades, a auto-suficiência no campo e na cidade, a "Promessa" e os "Símbolos" escoteiros transmitem o marcante entusiasmo característico do movimento. O amor à Pátria, o culto às suas tradições e a preservação de seus ideais imarcescíveis, em todas as atividades, reforçam o sentido patriótico e cívico dessa doutrina de caráter mundial. Ideal de Servir Tudo isto se resume numa única palavra: SERVIR! Essa ação abrange toda uma filosofia de vida em que o homem para ser feliz não precisa necessariamente de riquezas, poder e posição, nem de ter vencido e ultrapassado os outros, mas sim a alegria de ter procurado ajudar ao próximo e contribuído, na medida de suas possibilidades, para melhorar o que estava errado na sua comunidade. A ânsia de servir é dogma da lei escoteira que se faz presente desde os 7 anos do lobinho e se estende à todas as idades, aos escoteiros e aos escotistas, e se integra na Fraternidade Mundial do Movimento, vencendo inclusive as barreiras da divisão política das nações. "Servir não inclui somente as pequenas ações pessoais de cortesia e bondade para as outras pessoas", disse Baden-Powell, explicando: "Servir significa também algo mais alto e maior, o serviço que o cidadão presta ao seu país". Cada homem, qualquer que seja sua posição na sociedade, tem um lugar no serviço do bem-estar comum. A colaboração que ele pode dar está mais nele próprio do que nas leis e nas exigências convencionais. O ideal de servir deve nascer no coração de cada um e passando pelo crivo de sua consciência exercitar-se de forma ativa, como, na rudimentar comparação de Baden-Powell, um jogador de futebol que primeiro necessita de tornar eficiente como indivíduo para que depois possa jogar eficientemente na sua equipe. Servir à comunidade e à Pátria e não servir-se delas para as insaciáveis conquistas do egoísmo. Servir e, cada vez mais, Servir, com os olhos fitos na grandeza do Brasil e na benquerência de seus filhos. Exaltação A honrosa presença nesta solenidade dos Exmos. Srs. Governador e Vice-Governador do Estado, Comandantes das três Forças Armadas desta Guarnição, Secretários de Estado, demais autoridades civis e militares, membros eleitos das Comissões Especiais de nosso Conselho Regional e outras pessoas gradas mostra, sem dúvida, salutar exemplo de Servir à causa escoteira e através dela à juventude baiana. Comovidos com o apreço de Vossas Excelências ao nosso convite formulamos os melhores agradecimentos pelo significativo apoio à União dos Escoteiros do Brasil, de que somos representantes na Bahia. Ajudem-nos porque precisamos de auxílio. Muitos milhares de jovens necessitam educar-se dentro de sadios princípios quando se sabe hoje que insidioso inimigo tenta penetrar na mente humana para desumanizá-la. Eles não têm vozes para pedir socorro porque desconhecem o perigo e, o que é aterrador, não tem representantes porque não vetam e não vão aos comícios. Precisamos unir as forças imanentes da Boa Terra, o poder civil e o poder militar, aglutinar os homens de bem, para salvar o futuro do país que está na educação de seus filhos. Urge responder, de modo incisivo, ao apelo que se fez um dia de um púlpito, ecoou pelo adro da igreja de São Gervásio em Paris e se espalhe pelo mundo: "Homens! Com a graça de Deus, sejam HOMENS!" . Palestra proferida em 04 de novembro de 1965 pelo Presidente Regional da UEB na Bahia - Germano Seidl Vidal |