O INESQUECÍVEL DIA DA VITÓRIA !

Texto do Escritor-Historiador Germano Seidl Vidal

Cumpre este Comando a determinação do IV Exército, transmitida pela 6ª RM (Mem nº 354-E3), relembrando aos seus comandados os aspectos julgados mais relevantes da "participação do Brasil na II Guerra Mundial".

Historicamente, tem-se concluído que o renascimento da Alemanha militarista e agressiva, sob o domínio nazista, foi propiciada pelas imperfeições do Tratado de Versalhes, que lacrou a paz após a I Guerra Mundial, a complacência da França e Inglaterra com o vencido e a fraqueza da extinta Liga das Nações na manutenção da ordem jurídica internacional.

Assim, a 1º de setembro de 1939, o Mundo aturdido teve ciência da invasão da Polônia pelos alemães, seguida pelos russos.

Era o estopim da segunda conflagração mundial, logo envolvendo na sua voragem as potências européias.

As nações americanas, lideradas pelo grande Estado do Norte, mantiveram-se, de início, neutras, dentro do princípio isolacionista do bloco continental.

A esse tempo, um tríplice pacto reuniu as aspirações totalitárias no eixo Berlim-Roma-Tóquio, fazendo dêle o instrumento de conquistas imperialistas.

A Alemanha ocupou países limítrofes, a Itália invadiu a África e o Japão, num rasgo de audácia, atacou Pearl Harbour, as Filipinas e a Malásia.

A solidariedade continental americana se expressou numa Declaração de 26 Nações LIvres, estabelecendo o rompimento de relações diplomáticas com os países do Eixo e, posterior e isoladamente, o reconhecimento do estado de beligerância, face aos numerosos casos de agressão em alto-mar e nas próprias águas territoriais contra barcos de bandeira nacional.

As violências sofridas levaram, assim, em 1942, nosso país a entrar na guerra, atendendo veemente anseio popular, com o elevado propósito de contribuir, na medida de suas possibilidades, para a defesa do Mundo Livre, onde as nações se respeitam e a dignidade da pessoa humana é garantida.

A participação brasileira no conflito pode ser reexaminada pelo esforço bélico desenvolvido em nosso território, no mar e no além-mar.

Dentro das nossas lindes terrestres manteve-se a defesa de nosa imensidão geográfica e, particularmente, do importante saliente nordestino.

Acelerou-se a exportação de minerais estratégicos (ferro, manganês e cristal de rocha), produtos agropecuários (café, fumo, algodão, pinho, borracha, cacau, cera de carnaúba, frutas e carnes) e artigos manufaturados (tecidos de algodão), indispensáveis aos nossos aliados e a preços estipulados por eles próprios.

Manteve-se rigoroso racionamento interno, em especial de bens alimentícios, com sacrifício do consumo calorífico da já minguada dieta da nossa gente em prol do esforço de guerra nacional.

Além disso, permitimos aos EEUU a instalação de bases navais e aéreas no nordeste, assegurando melhores recursos ao apoio das operações militares na África e, posteriormente, na Europa.

No Oceano Atlântico, no qual extensamente nos debruçamos, garantiu-se a defesa do litoral, infestado de agressivos submarinos, mantendo-se a proteção do tráfego marítimo aliado, num intenso patrulhamento aeronaval.

Arrendamos doze navios mercantes ao preço simbólico de um dólar mensal por unidade e destinamos 23 dos que nos restavam ao tráfego exclusivo para os portos americanos.

Disso resultou a perda de 36 navios, num total de 150,2 mil toneladas, correspondendo a um terço de nossa já deficiente frota mercante e a morte de 975 bravos tripulantes e passageiros.

A Marinha de Guerra, no afã de desincumbir-se de sua árdua missão, sacrificou 465 heróicos marujos e perdeu três navios (Corveta Camacã - sossobrado, Cruzador Bahia - explodiu em exercicio e Vital de Oliveira - torpeadeado).

Além-mar, pela primeira vez na História, enviamos ao Velho-Mundo um contingente para lutar pela sua libertação.

Foi a Força Expedicionária Brasileira, constituída de uma Divisão de Infantaria, com 14.254 homens e elementos de Corpo de Exército, Serviços Gerais e Depósito de Pessoal totalizando 25.445 homens; mais um Grupo de Caça, da FAB, com 30 aviões e 458 homens, sendo 49 pilotos.

A luta na Itália engrandeceu o nosso feito heróico escrevendo imorredouras páginas nas brilhantes vitórias como as de Monte Castelo, Castelnuovo, Montese e Collechio-Fornovo.

Os resultados numéricos foram bem expressivos para o julgamento dessas ações. A FEB teve 11618 baixas, das quais 1577 foram feridos e 443 mortos; e aprisionou 20573 inimigos, sendo 2 generais, 892 oficiais e 19679 praças.

A FAB efetuou 2560 sortidas em missões de caça-bombardeio, voando 5465 horas, dentro de intenso fogo antiaéreo.

Ao comemorarmos hoje, dia 8 de maio de 1966, a maioridade da Vitória dos Aliados vale analisar as consequências dessa contenda mundial na vida brasileira.

Sob o ponto de vista econômico é imperioso ressaltar que o pesado ônus da guerra não teve o ressarcimento justo, conforme acordaram os nossos próprios amigos em IALTA e POTSDAM.

Excluído da Conferência de Reparações da Guerra, realizada em Paris, o Brasil deveria pagar-se de seus prejuízos com os bens confiscados ao inimigo em solo brasileiro, já incorporados portanto à economia nacional.

Em vão protestamos contra essa exclusão da partilha pelos meios diplomáticos competentes.

Tiveramos além das perdas de vidas, o encargo de financiarmos a guerra em moeda forte, pagando pelo material bélico utilizado no país e além-mar, bem como o pessoal da FEB, FAB e Marinha quando em operações fora das águas territoriais.

Alteramos a pauta de nossos produtos de exportação e findo o conflito não conseguimos manter nem os novos nem os antigos compradores.

Perdemos substancial capacidade de transporte marítimo.

Emitimos, durante a guerra, para financiar a produção e esbanjamos os elevados saldos, congelados no exterior, os quais atingiram dois e meio bilhões de dólares com os EEUU e 250 milhões de esterlinos com a Inglaterra.

Os baixíssimos níveis de vida da população estavam agravados por perigosa diferença entre o Norte e o Sul do país.

Saímos da hecatombe com a economia exangue e apelamos para a desenfreada inflação que alimentou o curso desordenado de progresso de pós-guerra.

Sob a face política a participação brasileira para a derrocada das ditaduras nazi-fascistas fez extinguir a existente no país, redemocratizado com a Constituição de 1946.

Internamente, o fortalecimento da consciência nacional deu um sentido de maturidade para a solução de várias crises políticas.

No exterior, aprimorou-se a nossa liderança sul-americana e o prestígio internacional, com efetiva participação em importantes conclaves.

Recebeu-se a Missão Abink, sugeriu-se a Operação Pan-Americana e, hoje, estamos integrados na Aliança para o Progresso, voltados, permanentemente, para supressão do sub-desenvolvimento, pecado original das nascentes nações.

Integramos, com dignidade e independência, a Organização dos Estados Americanos e a das Nações Unidas, ligando nossos esforços à consecução de uma paz mundial e duradoura.

No campo social, tem-se acentuado a exigência de elites preparadas para a direção política e administrativa do país, mercê dos exemplos de rápida recuperação de nações devastadas pela guerra.

Nesses dois últimos decênios, verifica-se que o nosso país foi redescoberto por uma corrente migratória, de alta qualidade.

Há também nítida influência cultural norte-americana, vez por outra combatida pelos xenófobos, mas útil naquilo que contribuir para melhoria da ciência e tecnologia nacionais, de modo a nos permitir ampliar os meios de produção e aumentar o nível de educação do nosso povo.

Finalmente, deve ser mencionado o extraordinário crescimento demográfico do Brasil.

Possuindo 41.236.315 habitantes em 1940 passamos a 84.679.000, constituindo-se 52,8% de jovens menores de 20 anos e de quem o país espera grandes realizações.

Vinte e um anos passados do dia da Vitória dos Aliados pode o Brasil orgulhar-se de sua contribuição para esse evento e voltar-se, com toda sua potencialidade, para a conquista do progresso e bem-estar social do seu povo, que tanto sacrifício ofereceu pela causa da liberdade!

Germano Seidl Vidal
Escritor e Historiador

Ordem do dia do Cmt. CPOR/Salvador, Cel. Art. GERMANO SEIDL VIDAL, em 08/05/1966. Publicado no Boletim Interno do CPOR/Salvador de 08/05/1966 e transcrito no meu livro "LINHA DE PENSAMENTO MILITAR" (SENAI - Salvador - BA - 1967 - 155 pág.)

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