do Escritor-Historiador Germano Seidl Vidal

Custo da Guerra para o Brasil

UMA NOVA ABORDAGEM DO CUSTO GLOBAL PARA O BRASIL

Alimentava, de há muito, o desejo de perenizar o resultado do levantamento do custo da guerra para o Brasil publicando-o em livro.

O propósito seria divulgá-lo na forma apresentada em 1995, levando em conta possíveis atualizações dos valores incompletos e, talvez mesmo, de dificílima contabilização.

Constatou-se logo interessante coincidência com o teor de uma entrevista do então Presidente FERNANDO HENRIQUE CARDOSO, em Londres, noticiada pelo JORNAL DO BRASIL de 06/05/95, onde consta o que se segue:

"O presidente Fernando Henrique Cardoso cobrou ontem em Londres uma dívida que os Aliados têm com o Brasil desde a Segunda Guerra e sugeriu que ela seja paga com apoio explícito à reivindicação brasileira de um lugar permanente no Conselho de Segurança da ONU. "

Além dos 500 pracinhas da FEB (Força Expedicionária Brasileira) que morreram, os países aliados tinham dívidas financeiras com o Brasil, na época um país pobre, que exportou muito durante o conflito e na hora de receber o pagamento foi bastante compreensivo com seus devedores", afirmou.

O presidente estava na Grã-Bretanha para participar das cerimônias destinadas a marcar os 50 anos da vitória dos Aliados sobre o nazismo, a qual transformou os EUA em superpotência".

Estava referendada a tese que eu defendia e pelo seu mais autorizado depoente no foro internacional, o nosso Presidente da República.

Nessa seqüência de circunstâncias que cercaram meu modesto artigo, de um simples Tenente-Coronel, ainda na ativa, a se envolver com a política interna e externa do país em momento delicado da vida nacional, tive ocasião de receber visita em minha casa do "brazilianist" JOHN D.WIRTH, no final da década de 60, o qual vinha de concluir séria e longa pesquisa sobre o governo Vargas.

Fora um encontro cordial por ser JOHN casado com uma prima de minha tia, americana de nascimento.

Tinha ele interesse em conversar sobre seu livro com um "amador" da política nacional, fato que nos levou a sermos amigos até hoje.

Ao ser publicada a obra, sob o título THE POLITICS OF BRAZILIAN DEVELOPMENT (1930-1954), editada pela Universidade de Stanford, em 1970, recebi-a com delicada dedicatória em português:

"Ao meu caro Germano, com admiração e amizade de John - Belo Horizonte 23/07/70".

É um livro precioso pelas valiosas informações que contém, publicado pela FGV, em 1973, sob o título: "A POLÍTICA DE DESENVOLVIMENTO DA ERA VARGAS."

Naquela visita, conversei com JOHN sobre meu artigo tratando do custo da guerra para o Brasil.

Ele se interessou em levá-lo para os Estados Unidos, encaminhando-o, posteriormente, a FRANK MC CANN, Professor da Universidade de NEW HAMPSHIRE -onde ainda se encontra - como especialista em História Militar do Brasil.

Recebi de FRANK uma carta muito significativa datada de 23 Dez 1972, na qual, entre outras considerações, diz que o assunto tratado no meu artigo era pouco conhecido nos EUA e sugeriu, com conhecimento de causa, que eu ampliasse a minha pesquisa, retirasse a menção à I GM e os quadros estatísticos, talvez para adaptá-lo a um estilo mais pragmático para publicação nos Estados Unidos, conforme transcrição de parte do texto original:

"I read the article with considerable interest. John may have told you that Princeton University Press is now publishing my The Brazilian-American Alliance, 1937-1945 which deals with Brazil's role in the war. I did not, however, deal with the question that you posed of the direct cost of the war to Brazil. Certainly little of this is known in the United States. With some newriting I would think that the Military Review at Fort Leavenworth would be interested in publishing your article."

Sobre aquele livro de FRANK MC CANN JR., o Gen. CARLOS DE MEIRA MATOS, prefaciando a edição brasileira - ALIANÇA BRASIL-ESTADOS UNIDOS 1937-1945, BIBLIEX 1995 - assim se pronunciou:

"Este livro, nos Estados Unidos, já mereceu duas distinções: o Bolton Prêmio, por ocasião da Conferência de História Latino-Americana, e o Prêmio Stuart L. Bernarth concedido pela Sociedade de Historiadores de Relações Internacionais Americanas. O autor estuda a importância política da participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial, através das operações conjuntas para a defesa do Atlântico Sul e o envio da Força Expedicionária Brasileira e do Grupo de Caça da FAB ao teatro de operações na Itália. Poucos livros são tão elucidativos no estudo da presença militar brasileira entre as Forças Aliadas na Segunda Guerra Mundial."

Mas não ficaram aí as coincidências que me envolveram no assunto.

Trinta e cinco anos depois de publicado meu artigo, recebo uma telefonema de Roma da Marina Conti, representante da RADIO TELEVISONE ITALIANA (RAI-INTERNACIONAL), convidando-me para uma entrevista, no Rio, sobre a participação do Brasil na guerra, a fim de ser incluída em programação, de divulgação internacional, sobre a atuação brasileira na Itália durante a II Guerra Mundial.

Meu nome havia sido lembrado via ITAMARATY, depois de contatos iniciados com a visita a minha casa da Sra. MARIA DO CARMO STROZZI COUTINHO da Fundação Alexandre de Gusmão (órgão cultural do Ministério das Relações Exteriores), para obter subsídios no sentido de ser criado, na Embaixada do Brasil, em Roma, um núcleo de informações sobre tal assunto, hoje tão pouco conhecido na Itália.

Em abril de 1998, fiz a entrevista à RAI, respondendo a quatro perguntas, sem conversa prévia, para obter respostas curtas e espontâneas, pondo-me no Aterro da Glória, no Rio de Janeiro, tendo ao fundo a vista do marco natural da cidade:
o Pão de Açúcar.
Dado o conteúdo inopinado das perguntas, não pude, na ocasião, explorar melhor uma das questões propostas:

Qual o preço da libertação da Itália?

Logo escrevi à RAI, aos cuidados da produtora do programa, Marina Conti, bem como do entrevistador, Roberto Olla, sugerindo uma nova gravação, sob ônus pessoal meu, em carta transmitida para o FAX (0039-6) 3751932.

Dizia, então, o que pretendia que a Itália e o Mundo soubessem a respeito do assunto que me envolve tanto.

De fato, voltou a mesma equipe de gravação ao Rio, dirigida por uma profissional de S.Paulo, Acácia Dourado, que acompanhara os italianos, na visita ao Rio antes mencionada, e formulou, em italiano, não mais quatro perguntas, mas seis, sobre o tema da entrevista anterior no mesmo local e indumentária usados na gravação original.

Entretanto, no dia 16 Set 98, avisado de Roma, por telefone, pude assistir e gravar o Programa "I REMEMBER ITALY - BRASILE VA ALLA GUERRA (1944-45)", transmitido via NET, no qual alguns poucos brasileiros entre muitos aqui entrevistados apareceram na edição final daquele Programa.

Com certa frustração, verifiquei que a minha fala, de no máximo dois minutos, era exatamente referente à pergunta que julguei "incompletamente respondida" na 1ª gravação.

Perdia, assim, a chance da História para dizer ao Mundo o que então escrevi e gravara para a RAI.

Como se segue:

"O tratamento com o Brasil, no pós-guerra, foi muito injusto. Não tivemos ressarcimento dos ônus impostos pela guerra por termos sido excluídos da Conferência de Reparações de Guerra, em Paris, conforme nos estava assegurado pelos Acordos de YALTA e POTSDAM.

Não recebemos bens de capital para o nosso desenvolvimento, a fim de sair da economia de guerra para a de paz sem grande descompasso. Por tudo isto, vê-se o quanto expressiva foi a contribuição brasileira para o Mundo Livre, embora vivêssemos aqui em plena ditadura.

Podemos, pois, dizer, com ufania: Nós ajudamos a salvar a ITÁLIA dos dissabores da II Guerra Mundial!"


Cumpro, assim, compromisso comigo mesmo e atendo aos meus pares que me estimularam a prosseguir neste estudo, voltando ao cerne da questão ligada ao custo-benefício, para o que, inicialmente, devo produzir, com as incertezas que adiante aponto, qual teria sido o custo global da II Guerra Mundial para o Brasil.

Honestamente, afirmo que, embora use a expressão consagrada de custo-benefício para o desenvolvimento do Sumário, na verdade, a expressão mais correta seria ônus e não custo assumido pelo Brasil.

Isto porque, nas parcelas que serão utilizadas na contabilidade geral de gastos, há algumas que foram posteriormente ressarcidas (saldos congelados no exterior, por exemplo) e outras referentes aos orçamentos militares, que incluem a manutenção da máquina administrativa dos Ministérios Militares, inclusive o pagamento de seu pessoal.

Estes últimos, obviamente muito acrescidos com despesas da mobilização do país para a guerra, têm itens que ocorreriam em qualquer hipótese da nossa participação direta ou não na guerra.

Além disso, inclui indenização por facilidades oferecidas aos americanos em alguns portos nacionais, bem assim a cessão de navios mercantes para o tráfego exclusivo com os EUA, cujo valor constou de Relatório do Ministério da Marinha para negociação, como foi relatado no Cap.VII.

Importante é também ressaltar que nessa contabilidade do ônus total, imposto ao Brasil com a guerra, está incluído o pagamento do "Lend-Lease", cujo montante se elevou a US$ 361 milhões, com cláusulas de pagamento parcelado após a guerra - mas nem por isto pode ser excluído daquele ônus.

Feitas estas restrições importantes e necessárias, vou tentar usar as Tabelas desses ônus, produzidas por mim e constantes da 1ª PARTE deste livro, para chegar a uma estimativa global, simplesmente com o objetivo de servir de fundo à correlação com eventuais benefícios para o Brasil, por ter sido um colaborador importante dos Aliados na luta contra o nazi-fascismo na Europa e, conseqüentemente, da obstrução ao seu nefasto predomínio em outras partes do Mundo.

Vejamos:

CUSTOS TANGÍVEIS em 1.000US$
Contabilizados 2.182.457
Ainda não contabilizados 500.000
CUSTOS INTANGÍVEIS (de difícil valorização) 500.000
Sub-Total 3.182.457

SALDOS CONGELADOS DAS NOSSAS EXPORTAÇÕES DURANTE A GUERRA
Na área do dólar 2.000.000
Na área da libra 877.000
Sub-Total 2.877.000
ÔNUS TOTAL HIPOTÉTICO Total 6.059.457


Este ônus estimado total de cerca de US$ 6 bilhões, assumido pelo Brasil por sua participação na II Guerra Mundial além de ser extremamente alto para um país pobre, como disse em Londres, em 1995, nosso Presidente, - o Brasil, em 1940, convivia com carências seríssimas para uma população de 40 milhões -, reflete também o nosso imenso e sofrido esforço de guerra de 1942 a 1945, sem obter o ressarcimento que nos cabia no "festim dos vencedores" daquele penoso conflito.

O valor ora estimado, se atualizado para o dólar de 1998, seria algo em torno de U$ 60 bilhões!

Verifica-se, pois, que o ônus da guerra para o Brasil compara-se a uma vez e meia do que o país obteve de um "pool" de Bancos e que foi capitaneado e fiscalizado pelo FMI (Fundo Monetário Internacional), para nos salvar da crise financeira em 1998/1999.

Com a ufania de ex-combatente, que viu os "pracinhas" do Brasil serem tratados carinhosamente como "liberatori" pela população italiana e que aqui chegaram festejados como heróis, reconheço-os realmente como vencedores, que encheram de glórias os fastos militares brasileiros.

Entretanto, o Brasil, por incúria de nossos Governos e desprezo de nossos então Aliados, foi fragosamente "derrotado"...

Uma guerra "perdida" que poucos dão conta do quanto repercutiu na longa e sofrida luta do povo brasileiro para vencer a chaga do subdesenvolvimento.

E ainda temos (em 1998) 16 milhões de "excluídos socialmente", estatisticamente classificados como "sem renda própria" ou socialmente colocados abaixo da linha da pobreza.

Uma lástima!

Honestamente, afirmo que, embora use a expressão consagrada de custo-benefício para o desenvolvimento do Sumário, na verdade a expressão mais correta seria ônus-benefício e não custo arcado pelo Brasil.

Isto porque nas parcelas que serão utilizadas na contabilidade geral de gastos há algumas que foram posteriormente ressarcidas (saldos congelados no exterior, por exemplo) e outras referentes aos orçamentos militares, que incluem a manutenção da máquina administrativa dos Ministérios Militares, inclusive o pagamento de seu pessoal.

RELAÇÃO CUSTO-BENEFÍCIO

Escrevo este capítulo num misto de tristeza e inconformismo.

Tais sentimentos retiraram-me temporariamente a condição de historiador, de renitente pesquisador, de analista moderado de acontecimentos passados, presentes e de projeções futuras, questões que constituem o cerne de todo esse longo trabalho.

Sinto os arroubos da juventude que não chegam além da minha pena.

Lamento que nossos Aliados na guerra não honraram nossos mortos, que, se não foram muitos em relação aos milhões sacrificados na Europa e no Pacífico, são o nosso pranteado quinhão dos imolados no cumprimento das missões que nos couberam na Campanha da Itália e na do Atlântico Sul.

Nem se aperceberam de que submetemos nossa população, com cerca de 20 milhões de jovens de menos de 20 anos de idade, a longo racionamento alimentar de 3 anos, para nos dedicarmos ao abastecimento de materiais estratégicos e alimentos de nossos então Aliados.

Não consigo reler as páginas que já escrevi, nas 1ª e 2ª PARTES deste livro, sem vir a pelo um total inconformismo com o tratamento que nos foi dado no pós-guerra.

Em capítulo do livro A GUERRA PROSCRITA, sem mencionar explicitamente tal propósito, demos curso à revisão da estratégia "tupiniquim" para a instalação de nosso primeiro parque siderúrgico, a de vencer a pressão dos "trusts" estrangeiros, tornando vitoriosa a tese nacionalista do monopólio estatal do petróleo e de criação de seu instrumento de independência econômica, a nossa PETROBRÁS.

Sem esse caráter ideológico, mostrou-se como se chegou à estatização no setor de energia elétrica, que, nessa condição, instalou e operou 50.000 MW.

Tudo isto para quebrar tabus de que para desenvolver aquela estratégia dependeu-se de benesses do governo americano como ressarcimento por nossa atuação na Guerra.

Não foi.

A historiografia brasileira e estrangeira, que trata da participação do Brasil na II Guerra Mundial, aponta, de forma diferente mas quase exaustiva, as conseqüência para o nosso país de natureza política, econômica, social, psico-cultural, científica-tecnológica e militar.

Nesses textos, sempre muito elucidativos, sob os vários ângulos do flagelo da guerra, vê-se o nosso país sair da obscuridade no concerto mundial como um dos componentes dos Aliados e, conseqüentemente, da vitória final sobre o nazi-facismo. Homenageando o autor da mais completa obra sobre o assunto, o saudoso companheiro TenCel MANOEL THOMAZ CASTELLO BRANCO, extraí trecho de seu livro "O BRASIL NA II GUERRA MUNDIAL" (BIBLIEX - 1960):

"XXVIII CONSEQÜÊNCIAS DA GUERRA Pelo montante e natureza dos serviços prestados pelo Brasil à defesa das democracias, ninguém duvidaria que, no após-guerra, passasse a desfrutar de invejável posição no concerto internacional.

No campo político, tanto se solidarizou à causa aliada, arcando com todas as responsabilidades que pudessem advir de tal atitude, como fortaleceu, no plano continental e mundial, a posição dos aliados, no exato momento em que a união, mais do que nunca, representava força.

Na esfera econômica, a sua contribuição foi inestimável, cabendo-lhe fornecer, aos Estados Unidos e à Inglaterra, materiais estratégicos indispensáveis ao esforço de guerra, tendo ainda arrendado àqueles, ao preço simbólico de dólar mensal por unidade, 12 navios de sua frota mercante, assumindo ainda o compromisso de destinar 23 dos que restavam ao tráfego exclusivo entre os seus portos e os deles.

Tão importante foram estes serviços, que a United States War Production Board declarou, mais tarde, que "sem a produção brasileira de materiais estratégicos e a ponte aérea os Estados Unidos não teriam cumprido as suas metas."


Finalmente no campo militar, a sua participação foi igualmente expressiva.

Defendeu o litoral contra possíveis incursões inimigas que poderiam afetar a segurança do hemisfério, protegeu o tráfego marítimo aliado dentro das suas águas territoriais, bem como o tráfego aéreo entre a África e o Brasil na ocasião em que os norte-americanos se transferiam da Europa para o Pacífico, participou diretamente da luta na Itália, cooperando com o V Exército norte-americano num momento em que se encontrava em grandes dificuldades para encerrar a última fase da campanha, e não vacilou em ceder aos Estados Unidos bases aéreas existentes no norte e nordeste do país, que lhes serviram de instrumento da sua estratégia.

Referindo-se a estes últimos aspectos, Cordell Hull, num preito de reconhecimento e admiração aos seus esforços, assim se expressou nas suas memórias, repetindo, parcialmente, o que a United States War Production Board já havia dito:

"Sem as bases aéreas a vitória na Europa e na Ásia não teria ocorrido tão cedo.

Essas bases, projetando-se á distância no Atlântico Sul, permitiram que voassem os nossos aviões em grande número para a África Ocidental e dali para os teatros de operações na Europa e no Extremo Oriente. Não fossem as bases brasileiras, não nos teria sido possível ajudar os ingleses no Egito como fizemos no momento crucial da batalha de El Alamein".


E prossegue:

"Enviou ainda o Brasil uma Força Expedicionária à Europa. Sua Marinha de Guerra contribuiu para o patrulhamento do Atlântico. No esforço para abastecer os Estados Unidos, perdeu o Brasil parte considerável da sua Marinha Mercante".

Se adicionarmos a esta folha de serviços, os prejuízos decorrentes da sua atitude, veremos que a sua contribuição representou, inegavelmente, algo de ponderável no desenlace da guerra.

Entretanto, para surpresa dos que aguardavam melhor sorte, mantiveram-no numa situação discreta, cujos primeiros indícios residiam no fato de não ter sido chamado a participar da Conferência que se realizou em Paris para rateio das cotas de reparações, bem como na solução pouco satisfatória dada à questão, equiparando-o àqueles países americanos que pouco ou quase nada haviam realizado em proveito da vitória final, ao lhe comunicarem que poderia lançar mãos dos bens dos súditos alemães, já penhorados para tal efeito, esquecendo-se de que, na realidade, estavam integrados à economia nacional e que, sendo um país eminentemente de imigração, não ficaria bem punir aqueles que o procuravam livremente para cooperar no seu engrandecimento, quando outras soluções poderiam ser apresentadas.

Enquanto os Estados Unidos se mantiveram no firme propósito de fortalecer a política pan-americana, cujo apogeu correspondeu ao período governamental de Roosevelt, as diversas repúblicas americanas desfrutaram duma situação cômoda e futurosa.

Todavia, a partir da Conferência de São Francisco, realizado no ano de 1945, quando começaram a inclinar-se por uma política de concepção global e de segurança afastada, foram sendo aos poucos esquecidas e relegadas a segundo plano.

Suas vistas voltaram-se, assim, para os continentes europeu, africano e asiático, onde aplicaram fabulosos recursos através do chamado Plano Marshall, com a finalidade de ajudar os seus povos a recompor as suas economias e as suas Forças Armadas, levando a sua influência aos mais afastados recantos da terra.

O Brasil estava a exigir o mesmo amparo, mas é que a sua posição estratégica já não tinha a mesma expressão anterior, nem como fonte de matérias primas, nem tão pouco como base de operações, fatores esses decisivos para a conduta da guerra.

Não obstante, porém, esta brusca mudança de rumos, o Governo brasileiro continuou a insistir junto aos norte-americanos, "não na base de donativos - como frisou o Embaixador Antônio Camillo - mas de inversões reembolsáveis, com os respectivos juros, como sempre temos feito", convicto de que, por maiores que fossem os seus interesses fora do hemisfério, não poderiam enfraquecer velhos e tradicionais laços de amizade que remontavam o período áureo e decisivo da Independência."

Meu escopo agora é outro.

Preciso, simplesmente, confrontar os ônus financeiros da guerra com os benefícios que, obviamente, teriam decorrido de tais ônus, voltados para a nossa população, sejam eles diretos ou indiretos.

E o que vimos?

Internacionalmente, é estarrecedor o confronto dos nossos ônus, estimados em US$ 6 bilhões, com os recursos postos pelo Banco de Reconstrução Mundial (hoje Banco Mundial) da ordem de US$ 13,5 bilhões para a reconstrução da Europa.

Se a nossa situação no período de 1942-45 era de extrema pobreza, com carências graves para a população, o confronto de dois "brasis" - um paupérrimo e outro pródigo - é constrangedor.

Tal feito se verifica na adesão do Brasil ao Acordo de Bretton Woods, que em 1945 criou o Banco de Reconstrução Mundial, depositando logo US$ 1 bilhão dos US$ 2 bilhões que tínhamos de saldos congelados de exportação nos EUA e permanecermos ainda como dos maiores credores do Banco em 1957!

Vale dizer, por absurdo, que fomos financiadores do famoso PLANO MARSHALL com 7,4% do total distribuído pelo Congresso Americano, como investimentos para os países beneficiados.

Um verdadeiro descalabro diante de nossas prementes necessidades de bens de capital logo após a guerra.

Acrescenta-se a isto a nacionalização das estradas de ferro de companhias inglesas no Brasil, com material obsoleto e desvalorizado, pelos US$ 877 milhões de nossos saldos congelados na área da libra, por exportação para a Europa de alimentos e matérias-primas, sob um severo racionamento interno.

Finalmente, chamamos atenção para o total estimado do custo assumido pelo Brasil na guerra, estimativamente, para os itens ainda não-contabilizados, com o propósito de se ter, como uma primeira avaliação, aquele custo total, que monta a US$ 3 bilhões 337.

Tal valor não chegou a ser levado pelo Brasil à Conferência de Reparações da Guerra de Paris, por ter nosso país sido excluído de comparecer à mesma, embora outros países com menor valor estratégico e efetiva contribuição para a vitória final dos aliados tenham usufruído dessa condição e recebido reparações, como, por exemplo, Austrália, Egito, Índia, Nova Zelândia e União Sul-Africana, que foram contemplados com o rateio da frota comercial alemã.

Tudo isto referido ao "dólar da guerra", cujo valor hoje pode ser calculado, com razoável aproximação, multiplicando-se aqueles valores por 10 (1998).

Também, é importante ressaltar que nossa participação na Campanha da Itália foi expressiva, uma vez que levamos para o "front" uma Divisão de Infantaria, chegando a ter no Teatro de Operações entre Órgãos não-Divisionários e o Depósito de Recompletamento de Pessoal um total de 25334 homens, tendo feito 20573 prisioneiros.

A França, que saiu de um governo colaboracionista do Marechal PETAIN, só pôde incorporar aos Exércitos Aliados, após a epopéia da Normandia, 9 divisões. E a Itália, que passou metade da Campanha com dois governos, o de Badóglio do Sul e o de Mussolini ao Norte, não deu contribuição alguma aos Aliados.

Nossos soldados granjearam várias medalhas de bravura norte-americana, a "Distinguished Service", a "Silver Star" e a "Bronze Star" e um elogio, em conjunto, do Gen. MARK CLARK e do Gen. CRITTENBERG, Comandantes do V Exército e do IV Corpo de Exército respectivamente, que nos comandaram nas ações de combate.

O Grupo de Caça "Senta a Pua" teve 16 aviões abatidos com 5 pilotos mortos e se destacou no número de saídas dos P-47 muito acima da média das unidades semelhantes dos EUA, com 2546 saídas ofensivas em 239 dias de ação, pelo que mereceu a "Presidential Unit Citation", só concedida a mais 2 outras organizações militares estrangeiras.

Tínhamos Oswaldo Aranha e Souza Costa para assessorar o Governo no terreno político-diplomático, porém faltava disposição para enfrentar grandes interesses internacionais, acobertados pelos nossos antigos Aliados.

Só esses dados seriam suficientes para um balanço desfavorável na relação Custo & Benefício, conseqüente de guerra para o Brasil.

Mas para mostrar que a redemocratização do país, em 1945 e a conseqüente onda de liberalismo nas relações internacionais não nos elevaram ao 1º Mundo nem nos salvaram dos índices sociais deprimentes de 3º Mundo, mesmo passados 15 anos do término da guerra, apresentamos as tabelas e séries estatísticas .

Concluo, menos como historiador e mais como patriota, que, na verdade, fomos usurpados de nossos "direitos de guerra" e condenamos o povo a "pagar a conta" da vitória estrondosa...

Não houve benefícios!

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