A CRIAÇÃO DA FEB

Texto do Escritor-Historiador Germano Seidl Vidal

Lembranças oportunas e significativas

1. Antecedentes

ALDOUS HUXLEY (1894-1963), escritor inglês, tinha frases brilhantes cheias de ironia e ceticismo.
Entre elas lembro-me do que li alhures dizendo que o mecânico para consertar um motor-a-explosão não precisa conhecer a história dessa invenção.

Talvez ele pretendesse retirar dos historiadores a capacidade de buscar no passado o fulcro dos acontecimentos do presente.

Não desejo nem contestá-lo nem ir tão longe na minha pretensão.
Recordo, entretanto, que durante muitos anos os recém-nascidos países americanos, saindo da colonização e alguns até se tornando competidores das antigas metrópoles, tinham o propósito de não interferir nos problemas internos da Europa.

Assim, em 1823, o Presidente dos Estados Unidos, JAMES MONROE, desenvolveu a conhecida DOUTRINA MONROE, cujo cerne estava em formalizar uma união dos nascentes países do Hemisfério Novo para não absorver dissenções milenares que existiam entre os velhos impérios europeus.

Foi assim na I GUERRA MUNDIAL, quando os Estados Unidos só decidiram participar do conflito em 1917 e quando a Rússia se afastava da luta por problemas internos.

O conflito se alastrava desde 1914, colocando de um lado as Potências Aliadas Ocidentais e, de outro, a Alemanha e os Impérios Austro-Húngaro e Ottomano.

Era já uma guerra longa e de grande desgaste que havia começado na conturbada área dos Balcãs.
Com o armistício, em 1919, selou-se o Tratado de Versalhes, que impunha severos revezes à Alemanha; pretendia com isto terminar de vez com todas as guerras mas foi incapaz de conter a II Guerra Mundial, apenas vinte anos depois.

Em 1939, a Alemanha, sob o intenso proselitismo nazista do LEBENSRAUM (maior espaço para o povo alemão), após o colapso da República de WEIMAR, invadiu a ÁUSTRIA e os SUDETOS na ex-TCHECOSLOVÁQUIA, negociara o frustrado ACORDO DE MUNIQUE e, na primavera de 1940, desencadeou forte ofensiva ocupando a NORUEGA, a DINAMARCA, a HOLANDA, o LUXEMBURGO, a BÉLGICA e a FRANÇA, nesta última tornando inócua a inexpugnável LINHA MAGINOT.

Desistindo de invadir a GRÃ-BRETANHA, logo após a retirada de DUNQUERQUE, a Alemanha optou pela Batalha aérea, com pesado bombardeio para quebrar o moral dos ingleses, contida estoicamente pela reação da RAF.

Além disso, convém lembrar que, reforçando esse ataque aéreo, a Alemanha utilizou as chamadas "bombas voadoras", precursoras dos atuais mísseis.

Nesse quadro sinteticamente exposto, o Brasil seguia as decisões diplomáticas das Repúblicas Americanas, sob a liderança dos Estados Unidos, como herdeiros da DOUTRINA MONROE.

Vejamos os principais passos dessas decisões para depois comentarmos seus efeitos:

- DE CONSENSO PARA CONSULTA ENTRE OS PAÍSES AMERICANOS

- a partir de 1936, seguindo as deliberações tomadas nas Reuniões de Buenos Aires (1936) e reafirmadas na de LIMA (1938);

- DE NEUTRALIDADE, COM CRIAÇÃO DE UMA ZONA DE SEGURANÇA (esta última sem efeito prático, apesar dos nossos protestos via diplomática), de 1º Set 39 a Jul 40, seguindo recomendações decorrentes da reunião no PANAMÁ (1939).

- DE NEUTRALIDADE, COM COMPROMISSO DE COLABORAÇÃO NO CASO DE AGRESSÃO A QUALQUER DAS REPÚBLICAS AMERICANAS, de Jul 40 a 28 Jan 42, por decisão tomada na reunião de HAVANA (1940).

- DE SOLIDARIEDADE AOS ESTADOS UNIDOS, a partir de 28 Jan 42, por decisão tomada na reunião nessa data.

- DE RUPTURA DAS RELAÇÕES DIPLOMÁTICAS COM OS PAÍSES DO "EIXO" (Alemanha, Itália e Japão) - Em 28 Jan 42, por decisão na Conferência do Rio de Janeiro (1942).

- DE BELIGERÂNCIA SEGUIDA DO ESTADO DE GUERRA COM A ALEMANHA E A ITÁLIA - em 22 Ago 42, como revide ao afundamento de navios mercantes brasileiros em águas territoriais (Esta decisão foi unilateral do Brasil, bem como a declaração de guerra ao Japão, que só se deu em 6 Jun 45).

Internamente, o Brasil não cruzou os braços.
Tinha economia incipiente e grandes carências sociais, com índices de desenvolvimento social dos mais deprimentes do mundo e uma circulação interna precária, que isolava grandes regiões como verdadeiros arquipélagos.

Além disso, o Governo de Getúlio Vargas era de regime totalitário com sérias restrições à comunicação pública e tendências oscilantes, ora a favor das forças nazi-fascistas, ora das potências democráticas ocidentais.

Foram as circunstâncias que fizeram definhar essa ambígua ação política interna e surgir uma reação popular a favor da guerra, a partir dos ataques a navios mercantes brasileiros em nossas costas, com grande perda de vidas e de material (no total 36 navios torpedeados, correspondendo a 152.209t - 1/3 de nossa frota mercante - e 975 mortos).

Em 23 Mai 42, Getúlio e Roosevelt, em nome de seus respectivos Estados, firmaram um Acordo Político-Militar Secreto em que acordaram estabelecer normas e condições para regularem o concurso de suas forças militares e econômicas na defesa comum do continente americano.

Foram, então, criadas duas comissões técnico-militares mistas brasileiro-americanas: uma no Brasil e outra nos Estados Unidos.
Dessas, entretanto, só funcionou a instalada em Washington, na qual a Delegação Brasileira foi presidida pelo Gen. ESTEVÃO LEITÃO DE CARVALHO e a Americana, pelo Gen. J. GARESCHÉ ORD.

Constou explicitamente que "o emprego das forças brasileiras será dentro de seu território", complementando, em casos especiais, que aquelas forças possam vir a atuar em outros pontos de continente, "de cuja segurança e defesa venham de participar."

Estabeleceu que, no caso de ataque ao território nacional por forças extra-continentais, "os Estados Unidos darão auxílio imediato de suas forças para a defesa do Brasil."

Tratou das Bases Navais e Aéreas no território brasileiro que poderiam ser guarnecidas por forças dos Estados Unidos, a pedido do governo brasileiro, ficando a forma de operá-las a serem reguladas pelas Comissões Mistas antes referidas.

Estabeleceu que os Estados Unidos facilitariam imediatamente a aquisição pelo Brasil de material bélico necessário para completar suas formações de guerra, bem assim o desenvolvimento de sua indústria militar e ao aparelhamento de suas redes rodo-ferroviárias.

Isto veio a se efetivar através do "Lend-Lease" pelo qual o Brasil pagou US$ 361 milhões - a última parcela no dia 1º/7/54.
Para se comparar esse montante a valores de hoje, pode-se multiplicar por 10, ou seja valeriam US$ 3,61 bilhões (comparável ao que foi pago para privatizar a Companhia Vale do Rio Doce).

A Comissão Mista de Defesa Brasil-Estados Unidos, em Washington, desenvolveu detalhados estudos com ampla negociação entre os dois Governos.
No caso brasileiro, a nossa Comissão ficou subordinada ao Ministro das Relações Exteriores, OSWALDO ARANHA, porém dependendo de decisões que tivessem o aval do Ministro da Guerra, Gen. EURICO GASPAR DUTRA e do Chefe do Estado-Maior do Exército, Gen. GÓES MONTEIRO, ambos auto-suficientes em suas respectivas funções com largo prestígio político e militar.

O Gen. LEITÃO DE CARVALHO, em seu livro de MEMÓRIAS, relata todos esses entendimentos que alteram inclusive cláusula daquele Acordo de 23 Mai 42, em particular pela Resolução nº 16, que estabelece a participação direta do Brasil com um Corpo de Exército, constituído de 3 Divisões de Infantaria, após ter sido posto em prática o PLANO DE DEFESA DO NORDESTE, em parte superado pela derrota do Eixo na Campanha da África.

2. Atos Oficiais

Outras medidas foram elaboradas pelo Governo Brasileiro visando a defesa do país e o cumprimento de seus acordos internacionais.

Vale listá-las como homenagem ao tirocínio dos que souberam garantir nossa soberania e integridade territorial, além da participação em operações no exterior:

1) Declaração do Estado de Guerra em todo o território nacional, em 31 Ago 42 (Decreto 10358);

2) Decretação da Mobilização Geral em 16 Set 42 (Decreto 10541);

3) Delimitação da Zona de Guerra e sua divisão em sub-zonas correspondentes aos Teatros de Operações, no âmbito nacional, em 25 Set 42 (Decreto 10490);

4) Instruções para a Organização da 1ª DIE, em 9 Ago 43 (Portaria 47-44), contendo instruções aos Cmts das 1ª, 3ª, 4ª e 9ª Regiões Militares, e às Diretorias das Armas, de Material Bélico, de Saúde de Engenharia, de Moto-mecanização e de Intendência, e onde estão nomeadas as Unidades que integrarão aquela grande Unidade Expedicionária, as quais serão dotadas de material, armamento e efetivos equivalentes às organizações similares do Exército dos Estados Unidos;

5) Diretrizes para a Instrução dos Quadros e da Tropa do Corpo Expedicionário Brasileiro, em 13 Ago 43 (Portaria 52-49), cabendo ao EME superintender todos os trabalhos de preparação como executor das ordens do Ministro de Guerra;

6) Nomeação do Gen MASCARENHAS para organizar e orientar o preparo da 1ª DIE, em 7 Out 43 (Aviso nº 471-398);

7) Efetivo em Pessoal às Unidades que integrarão a 1ª DIE, em 26 Out 43 (Aviso nº 496-421), estabelecendo que as mesmas atenderão à dotação tipo FEB;

8) Criação da Força Expedicionária Brasileira (FEB), inicialmente com três DI e elementos de Corpo de Exército, inclusive Aviação e Órgãos de Comando e Serviços, em 23 Nov 43 (Decreto-Lei 6018-A);

9) Designação de Oficiais que acompanharão o Gen Div. João Baptista Mascarenhas de Moraes a seguir para o estrangeiro, tendo como primeiro destino o Norte da África, com a missão de tomar o primeiro contato com o Comando Aliado do Mediterrâneo, em 30 Nov 43 (Aviso nº 543-460);

10) Nomeação do Gen MASCARENHAS DE MORAES, Cmt da 1ª DIE, 6 Dez 43;

11) Constituição das 2ª e 3ª DIE, em 7 Jan 44 (Aviso nº 77);

12) Subordina o Comando da 1ª DIE ao Ministro de Guerra, em 25 Jan 44 (Aviso nº 42-41);

13) Completa a constituição das 2ª e 3ª DIE, em 8 Fev 44 (Aviso 68-67);

14) Constituição do 1º Escalão da FEB, sob o Comando do Gen MASCARENHAS DE MORAES, Cmt. 1ª DIE, em 10 Mai 44 (Aviso nº 240-214).

A referência ao 1º Escalão subentendia os demais Escalões com as 2ª e 3ª DIE mais os Órgãos de Corpo de Exército, o que não veio a ocorrer, só corrigida em 6 Jul. 45, no mesmo ato que passa ao Comando da 1ª RM, as Unidades da FEB chegadas ao Rio de Janeiro.

Na verdade, aquele 1º Escalão, à época, teve 5 escalões de embarque, o 1º a 2 Jul. 44 e o 5º a 5 Fev 45, todos eles sob o comando do Gen MASCARENHAS, que, portanto, comandou sempre a 1ª DIE e a FEB, no Brasil e na Itália, sem solução de continuidade.

3. Repercussões

Os fatos relatados no tópico anterior estão grafados pelas ementas dos documentos sigilosos (à época) que lhe deram origem.

Não são versões que se propalam pelas repetições de textos ou pela transmissão oral e, desse modo, ganham foro de verdade versões às vezes fantasiosas.

Temo em dar guarida às que não estão relatadas pelos protagonistas, as procedentes de fontes parciais ou suspeitas ou ainda, não estejam documentadamente comprovadas. RENAN (1823-1892) dizia:

"A verdade é uma nuança entre mil erros."

Leio alhures sobre cogitações que permaneceram no terreno especulativo por meio século por terem se mantido como hipóteses.

Destaco três delas para comentar, pois trazem um demérito das partes envolvidas, no caso o Governo dos Estados Unidos ou o do Brasil. São as seguintes cogitações, aqui colocadas em termos interrogativos:

* Os Estados Unidos teriam planejado, chegando a marcar data, em 1942, para a conquista e a ocupação de pontos estratégicos no saliente nordestino?

* O Sub-secretário de Estado dos Estados Unidos, SUMMER WELLS, teria transmitido ao Presidente ROOSEVELT, durante a Conferência do Rio de Janeiro, a opinião do Gen. MARSCHALL, então Chefe do Estado-maior americano, que o acompanhava, "que não era seguro dar ao Brasil armas que poderiam voltar-se contra eles se nós acharmos necessário entrar a força no Nordeste?"

* A cessão de uma usina siderúrgica ao Brasil foi uma promessa de ROOSEVELT a GETÚLIO, ratificada no encontro de 28 Jan 42, em NATAL, no Rio Grande do Norte?

Vamos por partes.
Faço as perguntas, com alguns dos detalhes que colhi a respeito, por achar que os fatos são inverossímeis ou, talvez melhor, não factíveis, dadas as circunstâncias em que ocorreriam.

E isto tem importância para a História, pois envolvem duas figuras exponenciais de nosso Exército que, diretamente, pelo lado brasileiro, deram coerência e firmeza nos fatos, efetivamente ocorridos para uma defesa satisfatória, patriótica e inquestionável da mencionada área estratégica em face de qualquer agressão.

Voltamos às suposições.
Os alegados Planos de Conquista e Ocupação do Nordeste pelas tropas do Tio Sam, batizados com os apelidos de ARCO-ÍRIS (de I a V) em 1939, POTE DE OURO em 1940, LILAC em 1941 e BORRACHA em 1942 estão na contra-mão da doutrina de pan-americanismo que os Estados Unidos lideraram desde 1936 e, dentro desse espírito, mantiveram a neutralidade até o ataque de PEARL HARBOR, quando a maioria dos países do continente declararam solidariedade aos americanos.

O último daqueles Planos, mencionado em fontes duvidosas de forma arrogante, é divulgado com detalhes das praias que seriam bombardeadas em Natal, precedendo o desembarque anfíbio, dos efetivos a empregar e do número de baixas estimadas.

Parece até um arremedo do que sucedeu após entendimentos diplomáticos constantes do Acordo de Munique, entre a Alemanha, França e Inglaterra em 1938; Acordo de Não-Agressão entre a Alemanha e a União Soviética em 1939 e o fictício Acordo de Paz proposto aos Estados Unidos pelo Japão, em 1941, enganosamente conduzido pelo Embaixador japonês, em Washington, para esconder um ataque vil.

ROOSEVELT seguramente não aprovaria um ato daqueles, violando a confiança que desfrutou no cenário inter-americano.

Quanto ao fornecimento de material bélico ao Brasil sabe-se que o assunto foi intensamente discutido entre os dois governos, com exigências de ambos, cujo desfecho é o Acordo de Empréstimo e Arrendamento entre o Brasil e os Estados Unidos, de 3 Mar 1942, chamado de "LEND-LEASE", cujo primeiro "considerandum" diz, textualmente:

"Que os Estados Unidos do Brasil e os Estados Unidos da América concluíram, a 1º de Outubro de 1941, um acordo relativo ao fornecimento recíproco de materiais de defesa e informações sobre defesa;" [...] a ser modificado por interesse de ambas as partes.

No artigo II, do citado Acordo, consta o seguinte:

"Os Estados Unidos da América se propõem a transferir aos Estados Unidos do Brasil, nos termos deste acordo, armamentos e munições de guerra até o valor total aproximado de US$ 200 milhões;"

No artigo III ficou estabelecido uma redução de 65% do preço de tabela do material entregue.

A respeito desse episódio, cito HÉLIO SILVA (1942, Guerra no Continente - Ed. Civilização Brasileira), quando diz:

"[...] Os Estados Unidos começavam a fornecer a todos que combatiam o Eixo, os armamentos de que precisavam [...] É quando ROOSEVELT propõe ao Congresso a Lei de Empréstimo e Arrendamento, cuja amplitude fez tremer os senadores americanos. Mas, sem ela, não teria sido ganha a guerra."

Foi no discurso do Presidente da República aos Oficiais Generais, em 31 de dezembro de 1941, que Getúlio, tratando de questões ligadas à nossa defesa, afirmou:

"[...] Se formos agredidos, se tentarem violar qualquer trecho de nosso território, o Brasil coeso lutará... "[...]

E arremata LEITÃO DE CARVALHO:

" Nenhuma referência aos possíveis agressores, éramos solidários com os Estados Unidos na sua reação ao ataque japonês[...]"

Segundo o Gen LEITÃO DE CARVALHO, ainda como Cmt. 3ª RM, ele soubera de fatos importantes que narra com detalhes nas suas memórias.

Dizia que, no último quartel de 1941, funcionara no Brasil, uma Comissão mista, brasileiro-americana, incumbida de estudar, no nosso Estado-Maior, para propor a organização que conviria ao sistema de defesa do Norte e Nordeste do Brasil. Participava da mesma o Gen. LEHMAN MILLER, Adido Militar à Embaixada americana no Rio de Janeiro.

Como os trabalhos caminhassem lentamente, dirigidos pelo Gen. Góes Monteiro, os americanos propuseram seguir, em companhia dos brasileiros, para um reconhecimento local que durou cerca de um mês e de lá trouxeram seu projeto, incluindo forças de seu país em cooperação com as nossas para manter a segurança daquela extensa região, com base em declarações de Góes de que o Brasil não possuía ainda os meios militares suficientes para tal.

A sugestão dos americanos levantara indignados protestos de nosso Chefe-de-Estado Maior, que "ameaçara lutar de tacape contra forças que pretendessem desembarcar no Brasil para aquele fim."

Os trabalhos da comissão interromperam-se para não mais se reaterem e o próprio governo brasileiro pedira a retirada do Adido Militar americano.

No que se refere à Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), que apareceu nas cogitações em lide de forma pouco lisonjeira para nossos reclamos patrióticos, parece, ao contrário, ter nascido no bojo de arroubos nacionalistas, inclusive dentro das Forças Armadas.

Assim, Getúlio Vargas, de forma surpreendente, criou-a em janeiro de 1941, como empresa inteiramente brasileira.
O seu capital inicial foi composto pela participação da Caixa Econômica Federal e dos Institutos de Previdência Social.
Dos US$ 75 milhões do capital inicial da empresa, US$ 45 milhões procederam de créditos americanos.

Em 31 de dezembro de 1944, as obras da CSN prosseguiam em bom ritmo tendo concluído 97% do alto-forno, 98% da coqueria e somente 20% da aciária.

O material procedente dos Estados Unidos atingia 50 061 toneladas. Todo o planejamento, a construção e a operação inicial esteve a cargo da McKee and Company, que somente a passou ao controle tecnológico exclusivamente brasileiro em 1947.

Foi ela privatizada em 1993, em leilão público, e produziu, no ano de 2000, 4,031 milhões de toneladas de aço, dos quais 76% destinados ao mercado interno.

Como se sabe, a CSN nasceu e cresceu como uma conquista de nosso povo, sem nenhum favor além dos legítimos interesses comerciais envolvidos.

Duas são as figuras que participaram, em posições destacadas, a serviço do Brasil na II Guerra Mundial e, por isto, protagonizaram fatos correlatos com os que vimos comentando.

São eles:

o Gen. Div. JOÃO BAPTISTA MASCARENHAS DE MORAES e o Gen. Div. ESTEVÃO LEITÃO DE CARVALHO, ambos autores de livros básicos para o entendimento das questões aqui formuladas.

MASCARENHAS foi o Comandantes da 7ª Região Militar, com sede em Recife, englobando à época os Estados de Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Maranhão e o Território de Fernando de Noronha, de 21 jan 1940 a 29 jan 1943, sendo responsável pela execução do Plano de Defesa do Nordeste que elevou o efetivo daquela Região Militar de 6 000h para 50 000 homens, sendo 4 mil em Fernando de Noronha.

O desempenho de MASCARENHAS DE MORAES foi por tal forma brilhante que mereceu a condecoração da Ordem da Legião do Mérito concedida pelo Presidente FRANKLIN D. ROOSEVELT, que ressaltou no Diploma dessa condecoração o seguinte:

[...] "Por conduta excepcionalmente meritória na execução de serviços notáveis como general-comandante da 7ª Região Militar [...]

Foi responsável pela instalação de tropas selecionadas brasileiras nos pontos mais críticos, medida esta necessária para uma defesa adequada.

[...]" O nosso homenageado foi ainda, e para júbilo nosso, o Comandante da Força Expedicionária Brasileira, merecendo os maiores encômios dos Chefes Aliados no Teatro de Operações do Mediterrâneo.

Em 30 Out 44, na Conferência de Passo de Futa, quando o Gen. MARK CLARK reuniu todos os Oficiais Generais do V Exército para as Instruções Preparatórias da Ofensiva da Primavera, ele deu seu aval ao engajamento da 1ª DIE no Vale do Reno dizendo que "agora os brasileiros entravam para o primeiro time do V Exército".

A outra figura que desejo ressaltar e, também - se me permitem, homenagear - é a do Gen. ESTEVÃO LEITÃO DE CARVALHO, que exerceu a função de Inspetor do 1º Grupo de Regiões (6ª e 7ª RM), cumulativamente com a de Comandante do Teatro de Operações do Nordeste, entre 1941 e 42, depois nomeado para presidir a Delegação Brasileira na Comissão Mista de Defesa Brasil-Estados Unidos, em Washington, no período de 1942 a 45, quando prestou relevantes serviços tanto no campo diplomático quanto no militar.

O livro de LEITÃO DE CARVALHO é uma jóia na historiografia nacional.

Seu Prefácio faz vale-lo para os dias atuais e, por isto, ouso ressaltar alguns trechos para reflexão:

[...] "Não tínhamos cogitado de divulgar os trabalhos da Delegação brasileira à Comissão Mista de Defesa Brasil-Estados Unidos, - para dar-lhe o nome por completo - embora reconhecêssemos a sua importância, tendo em vista os resultados práticos que produziram, de repercussão decisiva na política de guerra do Brasil.[...]"

[...] "O silêncio acêrca dos trabalhos realizados em Washington, que o país desconhece, foi impressionante. A revelação de alguns de seus aspectos, no estreito círculo de velhos camaradas de armas, foi recebida com espanto: nada se sabia sobre o assunto. Já não dizemos no seio da opinião pública, mas no meio militar, mesmo entre os participantes da guerra![...]"

[...] "Escrevendo para a História, [...]. Seria, pensávamos, uma contribuição autorizada ao esclarecimento dos atos relacionados com a colaboração militar dada, por nosso país, aos Estados Unidos, na Segunda Guerra Mundial, naquilo que só nós poderíamos explicar." [...]

[...] "Com esta orientação foi que escrevemos esta obra. Demos-lhe a forma de Memórias, para atenuar, em algumas partes, o cunho técnico que apresentavam. A rápida transformação sofrida pelo ambiente nacional, depois da guerra, com a mudança de governo e de Constituição política, trazendo à tona outros homens e outros interesses, firmou-nos a opinião de que não havia razões que justificassem sua publicação imediata." [...]

[...] "A confusão provocada, porém, nos meios políticos e econômicos do país pelos debates em tôrno do aproveitamento das riquezas minerais do Brasil, e os pronunciamentos de caráter nacionalista a que o assunto deu lugar, mal compreendidos por interesses contrariados." [...]

[...] "levaram-nos à convicção de que este era o momento (1952) de dar publicidade ao livro" [...]

[...] "Sirvam os fatos aqui narrados de estímulo aos que tiverem de vencer iguais dificuldades." [...]

Este é o recado: a nossa Amazônia é zona estratégica de grande importância em todo o cenário mundial.

Ela exige igual disposição de luta pela garantia da soberania nacional e descortino dos que conduzem os destinos do Brasil.

Também é questão de soberania a consideração do Acordo entre o Brasil e os Estados Unidos da América sobre salvaguardas tecnológicas relativas à participação deste último na utilização do Centro de Lançamentos de Alcântara, no Maranhão, assinado em Brasília, no dia 18 de abril de 2000 pelo Ministro de Estado da Ciência e Tecnologia, do Brasil, e pelo Embaixador dos Estados Unidos da América, no Brasil, ora sujeito à ratificação pelo Congresso Nacional.

Isto faz lembrar as tentativas de internacionalização da Amazônia feitas no âmbito da UNESCO, desde sua primeira conferência geral em Paris, em Nov de 1946 e na Conferência Científica de Belém (Pará) em Ago 1947, cujos estudos foram arrematados, em 1948, na Convenção de Iquitos, quando se criou o Instituto Internacional da Hiléia Amazônica, com o assentimento dos três representantes brasileiros, em boa hora obstada no Congresso Nacional pela campanha patriótica de dois ilustres parlamentares: Arthur Bernardes e Carlos de Lima Cavalcante.

É a História servindo a análises conjunturais do presente momento.

É a História na frente dos acontecimentos, sugerindo-lhes o rumo...

Germano Seidl Vidal
Escritor e Historiador

Este artigo foi .Publicado na REVISTA DA ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA- n° 41 - 2002

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