DESARMAMENTO

Texto da Colunista BEATRIZ KISTLER


Imagine um país seguro.

Você não precisa temer que seu filho seja atingido por uma bala perdida ao ir para a escola.

Você não precisa se preocupar com tiroteios no túnel quando sua filha volta de madrugada.

Você não precisa ter medo de que, ao parar no sinal fechado, alguém encoste uma arma na janela do seu carro.

Bom, não?

Isso é o que a Campanha de Desarmamento sugere para nós:
menos violência, menos riscos.

Depois de mais de um ano comprando armamento da população, o Governo fará o Referendo sobre a Comercialização de Armas de Fogo e Munição, no dia 23 de outubro.

Todos os eleitores estão obrigados a participarem do primeiro plebiscito no mundo sobre o tema.

Antes de votar, é preciso pensar o que essa proibição realmente significa.

Há quem acredite que tudo é uma estratégia do Governo:
desarmar a população para possibilitar a revolução, unificando a América Latina num grande bloco socialista, como pretende o Foro de São Paulo.

Hitler, antes de aplicar o golpe, desarmou o povo.

Mas vamos supor que a intenção seja inocentemente boa e analisar fatos reais.

A Inglaterra começou a implantar políticas de desarmamento civil em 1997; desse ano até 2002, os roubos à mão armada aumentaram 117%.

Na contra-mão, a pacata Suíça entrega ela mesma um fuzil a todo homem entre 21 e 45 anos.

Não existe relação entre os índices de assassinatos e os de residências com armas de fogo.

No Brasil, ocorrem 27 homicídios por 100 mil habitantes e 3,5% de residências têm armas registradas.

Nos Estados Unidos, pelo contrário, são 6 homicídios por 100 mil habitantes e 52% de lares com armas de fogo.

Já na Itália, há 2 homicídios por 100 mil habitantes e 17% de lares com armas de fogo registradas.

No Brasil, existem 2 milhões de armas registradas e outras 20 milhões sem registro, segundo o relatório "Fiscalização de Armas de Fogo e Produtos Correlatos", elaborado pelo coronel de infantaria Diógenes Dantas Filho em conjunto com o Ministério Público Militar Federal.

Proibida a comercialização, o Estado perderá a possibilidade de controle e a investigação dos crimes ficará ainda mais difícil, alerta a juíza e deputada federal Denise Frossard.

Na sua opinião, outro problema é que se a criminalidade não diminuir, aumentará a incredulidade da população com as medidas que venham do Estado.

Hoje, no Estado do Rio de Janeiro, para cada policial, há no mínimo quatro pessoas prestando segurança privada.

Tal indústria, da qual são titulares, na maioria dos casos, os próprios policiais, cresceria rapidamente frente à população desarmada, prevê Flávio Bierrembach, ministro do Superior Tribunal Militar.

Os índices de morte por armas de fogo no Brasil giram em torno de 40 mil por ano - em sua esmagadora maioria, por armas ilegais.

Bandido não se preocupa em ter porte de arma, nem adquire a sua no shopping mais próximo.

As armas são traficadas, contrabandeadas, quando não desviadas dos próprios quartéis e delegacias.

Proibir o comércio delas, portanto, não faz diferença para os criminosos.

É como o que acontece com as drogas, que são proibidas:
se há quem queira, aparece quem tenha.

No Referendo de 23 de outubro, cada brasileiro precisa refletir bastante, para o tiro não sair pela culatra.

Como bem lembrou o Papa João Paulo II, "quem mata é o homem, e não seus mísseis ou canhões".


Beatriz Kistler
Jornalista

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