LILI MARLENE

Texto da Colunista BEATRIZ KISTLER


A desilusão amorosa de um fuzileiro alemão durante a Primeira Guerra Mundial tornou-se o hino extra-oficial da Segunda.

Hans Leip era apaixonado por duas moças que sempre o esperavam na frente do quartel: Lili e Marleen.

Mas sua sorte mudou e ambas o deixaram por militares de patentes mais altas.

Hans, então, transformou sua dor dupla em poesia, que foi publicada em 1937 numa coletânea.

Os versos ganharam melodia um ano depois, quando o compositor Norbert Schultze descobriu o livro num sebo.

A Alemanha pré-guerra, no entanto, era entusiástica demais para acolher uma canção triste, e ela foi rejeitada por mais de 30 editores.

Norbert apelou para uma cantora de boate pouco conhecida, Lale Andersen, que chegou a gravar Lili Marleen.

Mas a música não fez sucesso e foi esquecida.

Quando a Segunda Guerra começou, novas estações de rádio surgiram.

Por causa da pressa com que foram organizadas, havia poucos discos.

Em busca de material para uma rádio de Belgrado que transmitia para tropas na África do Norte, o cabo Kistenmacher revirou um porão e selecionou a gravação com Lili Marleen.

A canção foi ao ar em 18 de agosto de 1941 e, uma semana depois, o general alemão Rommel solicitou que fosse incorporada à programação.

Lili Marleen passou a ser tocada diariamente às 21h55, logo antes do fim da transmissão.

Quem não gostou do hit foram os nazistas, que viam algo de derrotista na música.

Para tentar proibi-la, levantaram a ficha da cantora Lale e descobriram que era filha de um norueguês, o suficiente para afastá-la do ideal de mulher ariana.

Como o exército alemão insistia em ouvir Lili Marleen, o Terceiro Reich resolveu adaptá-la a seus propósitos: uma cantora genuinamente alemã, acompanhada por uma orquestra capaz de levantar o moral das tropas.

Mas a nova versão não seduziu os militares, que continuavam a pedir pela original.

Quando o Oitavo Exército Inglês começou a fazer prisioneiros, trouxe a reboque a canção.

O comediante inglês Tommy Trinder escutou-a ao visitar o Deserto Ocidental e se considera o primeiro a revelá-la ao público britânico.

A BBC transmitiu uma versão escrita pelo compositor inglês Tommie Connor.

Logo, os americanos também aderiram e uma versão mais virtuosa tornou-se sucesso nas transmissões aos Aliados.

Quando a Força Expedicionária Brasileira chegou à Itália, Lili Marleen era uma coqueluche.

Os Aliados ficaram perplexos, sem saber como agir com suas tropas cantando músicas do inimigo.

Em 1942, Lale foi proibida de se apresentar em público porque se correspondia com judeus.

Mas Goebbels, o ministro de Propaganda da Alemanha, percebeu que estava perdendo uma batalha moral e ordenou a Lale que cantasse em Belgrado.

Ela se recusou e ameaçaram mandá-la para um campo de concentração.

Tentando escapar, a cantora tomou uma overdose de soníferos, mas foi salva por médicos alemães e enviada para um campo, onde permaneceu até o fim da guerra.



A propaganda nazista não parava de tocar a música desde 1942, inclusive em inglês.

Nesse ano, a BBC divulgou uma versão anti-nazista, interpretada pela atriz alemã Lucie Mannheim, que havia fugido de seu país.

Até as tropas soviéticas se utilizaram de Lili Marleen para incentivar os alemães a retornarem para suas lilis.

Mesmo no campo de batalha a canção estava presente, como em Toruk, na Líbia, que tinha alto-falantes instalados na frente de guerra.

Com a vitória dos Aliados, Lili Marleen tornou-se definitivamente uma canção militar inglesa.

Passada a guerra, virou filme e, em 2001, foi tema de uma exposição na Alemanha.

Lili também emprestou seu nome à uma rosa e a um vinho.

Traduzida para mais de 40 idiomas, no Brasil, Lili Marlene ganhou a voz de Francisco Alves em 1947.

Abaixo, a versão em português e o original em alemão. Lili Marlene (versão de Murilo Moreira Jr., 2003:)

Em frente ao quartel
Diante do portão
Havia um poste com um lampião
E se ele ainda estiver lá
Lá desejamos nos reencontrar
Queremos junto ao lampião ficar
Como outrora, Lili Marlene (2x)

Nossas duas sombras
Pareciam uma só
Tínhamos tanto amor
Que todos logo percebiam
E toda a gente ficava a contemplar
Quando estávamos junto ao lampião
Como outrora, Lili Marlene (2x)

Gritou o sentinela
Que soaram o toque de recolher
(Um atraso) pode te custar três dias
Companheiro, já estou indo
E então dissemos adeus
Como gostaria de ir contigo
Contigo, Lili Marlene (2x)

O lampião conhece teus passos
Teu lindo caminhar
Todas as noites ele queima
Mas há tempos se esqueceu de mim
E, caso algo ruim me aconteça
Quem vai estar junto ao lampião
Contigo, Lili Marlene? (2x)

Do tranquilo céu,
Das profundezas da terra
Me surge como em sonho
Teu rosto amado
Envolto na névoa da noite
Será que voltarei para nosso lampião
Com outrora, Lili Marlene (2x)


Abaixo, a letra da música LILI MARLENE no original em alemão Lili Marleen (Hans Leip, 1915):

Vor der Kaserne
Vor dem grossen Tor
Stand eine Laterne
Und steht sie noch davor
So woll'n wir uns da wieder seh'n
Bei der Laterne wollen wir steh'n
Wie einst Lili Marleen. (2x)

Unsere beide Schatten
Sah'n wie einer aus
Dass wir so lieb uns hatten
Das sah man gleich daraus
Und alle Leute soll'n es seh'n
Wenn wir bei der Laterne steh'n
Wie einst Lili Marleen (2x)

Schon rief der Posten
Sie blasen Zapfenstreich
Das kann drei Tage kosten
Kam'rad, ich komme sogleich
Da sagten wir auf Wiedersehen
Wie gerne wollte ich mit dir geh'n
Mit dir Lili Marleen (2x)

Deine Schritte kennt sie,
Deinen zieren Gang
Alle Abend brennt sie,
Doch mich vergass sie lang
Und sollte mir ein Leids gescheh'n
Wer wird bei der Laterne stehen
Mit dir Lili Marleen? (2x)

Aus dem stillen Räume
Aus der Erde Grund
Hebt mich wie eine Träume
Dein verliebter Mund
Wenn sich die späten Nebel drehn
Werd' ich bei der Laterne steh'n Wie einst Lili Marleen (2x)


Clique a veja a partitura original

Beatriz Kistler
Jornalista



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