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60 ANOS DA BOMBA ATÔMICA
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Estranho é que em vez de ser punido e servir de mau exemplo, Little Boy se tornou a menina dos olhos das nações mais poderosas. É preciso armas nucleares para garantir a paz, alegam em contradição. Foi também pela paz que justificaram a guerra no Iraque, pois o país teria armas de destruição em massa. Os Estados Unidos contam atualmente com cerca de onze mil ogivas nucleares... mas, nesse caso, a massa que corre o risco de ser destruída não é a turma do Tio Sam. Só o Japão conhece na pele - que se soltava do corpo após o ataque de Little Boy - uma bomba atômica. Mas a poesia triste das velas que iluminam o rio de Hiroshima a cada aniversário do horror não é suficiente para impedir que a tragédia se repita. Por isso, o país aproveita a repercussão mundial do 60º aniversário do lançamento da bomba atômica para conseguir apoio da opinião pública mundial e pedir a eliminação das armas nucleares. A proposta pretende revisar as minutas intituladas "Um caminho para a total eliminação de armas nucleares", que Tóquio envia à Assembléia Geral da ONU desde 1994. Este ano, o projeto foi atualizado para acompanhar as mudanças ocorridas na segurança mundial desde os atentados de 11 de setembro. Nele, ressalta-se a prioridade de restabelecer a confiança no Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares (TNP) e a determinação de eliminar "totalmente" as armas atômicas. O documento pretende aumentar as moratórias dos testes nucleares e negociar um tratado destinado a proibi-los, além de solicitar às potências nucleares que reduzam esse tipo de armamento, inclusive as bombas táticas, "de maneira irreversível". Em Tóquio ainda existe um mal-estar pelo fracasso da Conferência de revisão do TNP, em maio passado, em Nova York. Não foi possível sequer assinar uma declaração final devido às pressões dos Estados Unidos, "o maior acusado pela erosão do TNP", na opinião do ex-presidente americano Jimmy Carter. Enquanto alegavam proteger o mundo de ameaças de destruição em massa em Iraque, Líbia, Irã e Coréia do Norte, líderes americanos não apenas abandonaram restrições do tratado, como também declararam planos de testar e desenvolver novas armas, além de ameaçarem usá-las pela primeira vez contra Estados não-nucleares. O prefeito de Hiroshima, Tadatoshi Akiba, disse que pedirá à ONU a criação de um comitê especial para buscar meios de alcançar um mundo sem armas nucleares, com passos específicos que começariam em 2010, para que antes de 2020 o fim deste tipo de armamento seja uma realidade. Akiba levará oficialmente a proposta à ONU em outubro, durante a reunião da Assembléia Geral, após consultar outros países para obter apoio. Na ocasião, o texto de resolução sobre o desmantelamento nuclear do Japão também será examinado. Contudo, o governo japonês duvida do êxito de sua proposta, pois teme a rejeição dos Estados Unidos, maior potência nuclear do planeta. Um discurso do cientista e astrônomo Carl Sagan, proferido em 1998 durante o 125º aniversário da batalha de Gettysburg (Guerra de Secessão, Estados Unidos) expõe o maior problema do avanço da tecnologia de guerra: "De Gettysburg à bomba arrasa-quarteirão, mil vezes mais energia explosiva; da bomba arrasa-quarteirão à bomba atômica, mil vezes mais; e da bomba atômica à bomba de hidrogênio, outras mil vezes mais. Mil vezes mil, vezes mil, vezes mil é um bilhão; em menos de um século a nossa arma mais temível se tornou um bilhão de vezes mais mortal. Mas nós não nos tornamos um bilhão de vezes mais sábios" .[1] Beatriz Kistler Jornalista [1] In Vidal, Germano Seidl Guerra Proscrita, capítulo XX "Evolução do Poder das Armas", pg 221. 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