ESTRELINHAS...

Texto da Colunista BEATRIZ KISTLER


Um pôr-do-sol perfeito.

Latidos – a fila no cio atrai todos os machos da região.

Cadê a bassê que estava aqui?

Chamados, uma corrida desabalada, um grito.
Tarde demais.

A barriga rasgada por dentes amigos, o corpo estendido na grama.

Natasha?!
A cachorrinha que parecia já sem vida dá um último suspiro, como para dizer adeus.

Conto logo ao meu filho de dois anos que sua preferida morreu, virou uma estrelinha.

“Por quê?”

O motivo, eu omito, apesar da raiva que sinto da fila, provável anjo da morte.

Bem disse minha mãe, ela é apenas um animal, seguiu o instinto, não entende o mal que fez.

Kita nasceu sob o reinado da bassê, que tanto lhe ensinou.
Eram companheiras.

Não foi por falta de amor, tampouco por falta de limites.

Do ocorrido, extraem-se dois importantes ensinamentos.

O primeiro é que por mais que um bicho seja domesticado, obediente, será sempre um bicho.
O segundo é a fragilidade da vida. Se todos pereceremos e é impossível saber quando, aproveitar cada instante é a única maneira de evitar arrependimentos.

Sei que Natasha aproveitou os sete anos que conviveu conosco – alegre, dócil, sempre pedindo mais.

Mas agora acabou.

O que dói na morte é esse nunca mais, esse não tem jeito.

A tristeza aperta a barriga, dá um nó na garganta.

Chorar a transforma em algo mais concreto e ajuda a tirá-la daqui de dentro.
Adiantar mesmo, não adianta.

Depois da noite mal-dormida, abro os olhos e as lágrimas voltam. Breno me consola:

“Não fica triste, com saudade. À noite, vêm todas as estrelinhas”.

Pois é bem isso que se tornam aqueles que nos deixam: estrelinhas.

Podem até já ter se apagado, mas sua luzinha ilumina nossas vidas ainda por muito tempo.

Podemos lembrar delas e até conversar, sabendo que não vão nos responder.

Anoitece.
Eufórico, Breno me puxa pela mão para o quintal e aponta:

“Olha! Todas as estrelinhas!”.
E acena, sorridente.


Beatriz Kistler
Jornalista


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