ARMAS NÃO-LETAIS

Texto da Colunista BEATRIZ KISTLER


Entregar uma arma a alguém e investir-lhe de autoridade para usá-la é dar licença para matar.

Afinal, se a Polícia e o Exército existem para garantir a segurança, é preciso lembrar que mesmo os mais bem-intencionados soldados são humanos e, como tais, erram.

Até os guardas britânicos, famosos por sua eficiência pacífica, se assustam com o terror e atiram em inocentes.

Desarmar a polícia, contraditoriamente, seria colaborar para o aumento da violência.

Uma saída são as armas não-letais.

Os "tasers, por exemplo, dão um choque que causa perda momentânea do controle muscular – mas o recurso é limitado porque necessita de contato e neutraliza apenas uma pessoa por vez.

Para controlar multidões, Europa e Estados Unidos pesquisam artifícios que possam disparar descargas elétricas a 600 metros de distância, atinjam vários alvos ao mesmo tempo e até parem carros.

Não-letais, prejudiciais sim.

Além de poderem atingir inocentes, como lembra Brian Wood, da Anistia Internacional, há o risco dessas armas se tornarem instrumentos de tortura, acrescenta Robin Coupland, da Cruz Vermelha.

Será difícil provar abusos, porque elas não deixam traços identificáveis, alerta Neil Davison, do Projeto de Pesquisa de Armas Não-Letais da Universidade de Bradford, no Reino Unido.


Os choques são ainda um risco potencial para quem usa drogas ou tem problemas de coração, afirma a Anistia Internacional, que catalogou, entre as milhares de pessoas atingidas, 103 casos de mortes.

Por isso, exige estudos independentes sobre esse tipo de arma.

Segundo Rick Smith, chefe do Taser Internacional, a causa dos óbitos teriam sido fatores como "overdose" de drogas e álcool.

Uma alternativa às descargas elétricas está sendo pesquisada pelas Forças Armadas americanas: um instrumento que provoque o máximo de dor sem causar lesões, mesmo a dois quilômetros de distância.

O projeto enfurece pesquisadores, cujos estudos para minimizar o sofrimento estão sendo usados para criar armas.

Dor persistente, no entanto, pode alterar o funcionamento do sistema nervoso, explica Amanda Williams, psicóloga da University College London, no Reino Unido.

E não há estudos a longo prazo sobre os efeitos psicológicos que tamanha dor pode causar, aponta Andrew Rice, consultor de medicina da dor nos hospitais de Chelsea e Westminster, no Reino Unido.

Uma arma teoricamente inofensiva está sendo estudada no Centro de Pesquisas Mannel, nos Estados Unidos: a bomba de fedor.

A fórmula é secreta, pois a intenção é comercializá-la; mas sabe-se que contém as substâncias responsáveis pelo odor do vômito e de corpos em decomposição.

Ao inalar o cheiro, o coração dispara e o corpo começa a suar.

O objetivo é usar a bomba no controle de multidões.

Ser uma boa intenção não isenta as armas não-letais de critérios.

"A comunidade de armas não-letais sempre reclama de mau tratamento na mídia. No entanto, sem maior transparência sobre o que está sendo desenvolvido e quais são os efeitos nas pessoas, a desconfiança permanece", conclui Neil Davison, do Projeto de Pesquisa de Armas Não-Letais da Universidade de Bradford, no Reino Unido.


Beatriz Kistler
Jornalista

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