REDUCIONISMOS PROPOSITAIS

Texto de JARBAS PASSARINHO



Quando defendi a anistia, como líder do governo João Figueiredo, em 1979, no Congresso, uma frase do general, o último do ciclo militar, me causou entusiasmo:

"A anistia não significa exigir perdão, que pressupõe arrependimento. Não desejamos, nem dos comunistas, que reneguem suas crenças. Visamos à reconciliação nacional, o imprescindível esquecimento mútuo. Houve erros de parte a parte. Nem eles são escoteiros e filhas de Maria, nem nós estamos isentos de ter perdido a cabeça ao ver companheiros abatidos pelo terrorismo".

Os vencidos, porém, fazem questão de não esquecer.

Ao contrário, reescrevem a história a seu bel prazer. Embora discordando do marxismo-leninismo e a sua Guerra Revolucionária, com que se expandia no mundo, refletia eu sobre as injustiças que teriam levado o comunismo a vencer em certos países: a opressão dos mujiques, na Rússia, a colonização da China de Chang Kai-check e a corrupção de Fulgêncio Batista em Cuba.

Mas no Brasil, só a escravidão ao dogma ideológico motivou a luta armada derrotada desde 1935.

Na República Nova, de José Sarney, alçapremado à Presidência pela morte de Tancredo, nada obstante a presença forte do então ministro Leônidas Gonçalves, começou o revanchismo.

Oficiais brilhantes tiveram a carreira interrompida, devido a testemunhos altamente duvidosos.

Nunca se interrompeu o desmonte das atribuições das Forças Armadas.

Sob o argumento de que elas haviam extrapolado, começou-se por entregar a civis à Infraero.

Seguiu-se mais recentemente a mudança do nome do DAC, por uma Agência, ora chefiada por pessoa não qualificada, exceto ser do PT.

As fardas desceram a rampa.

A Casa Civil ficou, como Secretaria-Geral da Presidência.

A Militar virou especialista em assuntos institucionais e, segundo notícia recente, será extinta.

Agora, os sargentos, que depois de longo tempo de especialização, fazem o controle de vôos ao lado de civis, ou despirão a farda ou não mais serão controladores de vôo, porque o ministro da Defesa, que decerto entende dessas atividades especializadas quanto minha avó entendia de logaritmo neperiano, diante da colisão do avião da Gol com o jatinho Legacy, americano, decidiu-se "a criar um órgão público civil para controlar os vôos civis no país".

Aos militares é defeso sindicalizar-se e grevar.

Criou-se, então, a Associação, presidida por um controlador civil, que mascara a greve apelidando-a de "operação padrão".

Chulo, ofende, num panfleto, o comandante da Aeronáutica e exorta:

"Vamos pressionar, só quem anda de avião é rico, artista e político".

Ao lado da tragédia da colisão dos aviões, entra, de propósito, a forma inaceitável de reivindicar melhorias para a atividade dos controladores, que há décadas prestam bons serviços e passam a ser estigmatizados por serem parte de um órgão militar.

É fora de dúvida de que o serviço dos controladores tem falhas graves e mereceria providências saneadoras.

O relatório preliminar da Aeronáutica, modelar de isenção, não impede a suspeição de parte da mídia que a culpa foi dos controladores, na maioria sargentos especialistas.

Quando o encarregado da investigação diz que Brasília tentou 27 vezes falar com os pilotos americanos, o noticiário marotamente diz que foram só sete, e permite insinuações de parcialidade nas investigações por parte dos advogados brasileiros da tripulação do Legacy.

Já um advogado norte-americano, que defende indenizações para famílias de mortos, no acidente da maior magnitude ocorrido no espaço aéreo do Brasil, culpou os pilotos americanos, porque é ensinamento primário que eles deveriam ter seguido o plano de vôo com que iniciaram a viagem.

Só se tivessem recebido ordem de terra para mudá-lo é que poderiam alterá-lo.

Aduz o advogado americano que os pilotos não poderiam ignorar que a partir de Brasília, para o Norte, as altitudes são pares, o que os obrigaria a não continuar a voar aos 37 mil pés.

Desmilitarizar a profissão será atribuir aos sargentos especialistas a culpa do desastre.

Será?


Jarbas Passarinho

Coronel do Exército, Ex-Superintendente da Petrobrás na Região Amazônica, Ex-Chefe do Estado-Maior do Comando Militar da Amazônia, Ex-Ministro do Trabalho e Previdência Social, Ex-Ministro da Educação e Cultura, Ex-Ministro da Previdencia e Assistência Social, Ex-Ministro de Estado da Justiça, Senador e Governador do Estado do Pará.

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