Bomba do IRA: PAZ

Texto da Colunista BEATRIZ KISTLER


Mais de 30 anos de conflitos e 3.600 mortos não foram suficientes para reunificar a Irlanda.

Agora, o IRA (Exército Republicano Irlandês, guerilha católica) mudou de estratégia e lançou sua mais surpreendente bomba: chega de armas.

Em comunicado divulgado nesta quinta-feira, 28/07/05, o grupo ordena a seus integrantes que entreguem o arsenal, pois os instrumentos para lutar pela independência em relação à Coroa Britânica passarão a ser a política e a democracia.

O fim da violência foi solicitado há quase quatro meses pelo Sinn Fein, partido político que representa a minoria católica da Irlanda do Norte e sustenta o Exército.

Mas o desarmamento ainda não convenceu a todos.

Líderes protestantes não acreditam nas boas intenções do IRA, especialistas em segurança crêem que ele ainda detém boa parte de seu arsenal escondido em depósitos no país e a polícia acha que o grupo continua a contrabandear armas.

De fato, um comunicado não garante a paz.

No início da década de 70, por exemplo, um cessar-fogo foi declarado, mas não deu certo porque um lado dissidente do IRA iniciou uma campanha militar.

O conflito ganhou força após tropas britânicas atirarem contra manifestantes católicos da Irlanda do Norte, no conhecido "Domingo Sangrento".

Já o acordo de paz selado em 1994 foi quebrado dois anos depois com a explosão de uma bomba em Londres.

Outro cessar-fogo foi pretendido em 1997, mas o arsenal do grupo e seu envolvimento com o crime organizado atrapalharam a ação, e dissidentes se separaram em dois outros grupos.

As negociações prosseguiram até 1998, quando o Acordo de Paz da Sexta-Feira Santa foi assinado.

O desarmamento deveria ter ocorrido em 2000; o IRA, porém, não só não iniciou o processo de paz até o fim de 2001, como ainda o interrompeu em 2003.

Apesar da descrença, uma mudança em direção à paz não pode passar despercebida.

Em tempos de medo, o desarmamento de um grupo terrorista é motivo para comemoração.

O premiê britânico Tony Blair torce para que, dessa vez, a paz seja duradoura: "Este deve ser o dia em que, finalmente, depois de todas as esperanças frustradas, a paz irá substituir a guerra e a política substituirá o terror na Irlanda. (...) É um passo de magnitude sem paralelos para a história recente da Irlanda do Norte".

E um bom exemplo para o resto do mundo.


Beatriz Kistler
Jornalista

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