LINCOLN E KENNEDY
HOMENS-SÍMBOLOS DE CADA GERAÇÃO


Texto de GERMANO SEIDL VIDAL



A História da Humanidade vale dizer a de multimilhões de criaturas, registra a vida de alguns homens-símbolo, cuja passagem terrena deixou marcas indeléveis.

Propomo-nos justificar por que Lincoln e Kennedy desfrutam daquele qualificativo, em duas gerações separadas de um século.

Abraham Lincoln nasceu pobre numa cabana de madeira de lenhadores na pátria onde explodiram os primeiros gritos pela liberdade e pelos direitos do homem contra a autocracia egressa dos tempos medievais.

O menino Abraham não teve educação regular e aprimorada. Auto-educou-se. Trabalhou arduamente até chegar a formar-se advogado.

De maneiras simples, desleixado nos trajes, mais parecia um pioneiro do Oeste americano que um homem fadado a guiar os destinos do seu país numa de suas fases mais difíceis.

Tornou-se político e ascendeu à Presidência em 1859, enfrentando preconceitos e privilégios enraizados na novel nação, até a "última ratio" - a Guerra Civil. A Guerra de Secessão Americana, entre o Norte industrial e próspero e o Sul agrícola e pobre, mantinha como ponto de discórdia a questão abolicionista.

Incompreendido por muitos, Lincoln enfrentou a luta fraticida e cruenta, deixando o seu pensamento gravado no célebre Discurso de Gettysburg, proferido no campo onde quatro meses antes 20 mil homens haviam se imolado lutando pela Confederação ou pela União.

"Há 87 anos, dizia ele, nossos pais criaram neste continente uma nova nação, concebida na liberdade e dedicada à proposição de que todos os homens são criados iguais".

Era a reafirmação de toda a grandeza de seu caráter na exigência de uma liberdade para todos e não para alguns. E adiante:

"O Mundo não prestará muita atenção, nem recordará por muito tempo o que aqui dissermos; mas não esquecerá nunca o que aqui fizeram esses homens".

Era meio-dia de 19 de novembro de 1863, no recém-inaugurado Cemitério dos heróis da guerra, e os repetidos "aqui" do orador tinham a força de obsessão de quem buscava uma lição perene dos que se digladiaram até as entranhas da carne para defender suas idéias - umas absurdas, outras razoáveis - mas ambas intransigentes e radicais, sem compaixão, sem piedade...

E concluiu naquele evento o grande líder:

"Somos antes nós, os vivos, que devemos comprometer-nos aqui a consagrar esta tarefa - ainda inconclusa - que eles com tanta nobreza prosseguiram até aqui.

Somos antes nós que devemos comprometer-nos aqui à grande tarefa que nos espera...; que aqui resolvamos nós que estes mortos não morreram em vão; que está nação terá, sob a proteção de Deus, um renascimento de liberdade, e que o governo do povo, pelo povo e para o povo, não desaparecerá da terra".


A multidão de 15 mil pessoas em Gettysburg recebeu friamente o discurso de nove minutos, desapontando o orador quanto às suas pretensões.

Mas, pouco a pouco, esse mesmo povo foi compreendendo a retórica usada e tomando consciência dos anseios de Lincoln, sendo hoje uma página gravada de cor por todo americano e esculpida na pedra no majestoso "Lincoln Memorial", em Washington.

A 14 de Abril de 1865, enquanto o público explodia em risadas na semi-escuridão de um teatro, John Wilkes Booth, um ator que brilhava na ribalta, deu um tiro na parte posterior da cabeça de Lincoln, que faleceu nove horas depois.

O seu desaparecimento engolfou as paixões, mas apressou a unidade americana.

Seu legado ao Mundo Moderno está na conceituação de que a democracia é o regime de liberdade para todos e cujo poder emana do povo.

Completando a definição de Thomas Cooper (1795) do "Governo do povo e para o povo", Lincoln colocou o "pelo povo", impedindo que se declarassem democratas aqueles que se alegando tutores do povo exercessem as odiosas tiranias dos governos totalitários. É este o símbolo que eternizou Lincoln nas gerações seguintes.


John Fitzgerald Kennedy nasceu numa rica família de católicos descendentes de irlandeses e formou-se pela Universidade de Harvard.

Aos vinte anos, como filho e secretário do embaixador norte-americano em Londres, aprimorou sua educação na côrte inglesa, em contato com a requintada representação diplomática de outros países naquela capital.

Nessa época, visitou a França, Polônia, Alemanha, Rússia, Turquia e Palestina, na qualidade de observador diplomático.

Na guerra, comandou o PT 109 - pequena embarcação que serviu de teste ao líder e ao herói.

Durante um combate, próximo às ilhas Salomão, seu barco foi cortado ao meio por um contra-torpedeiro japonês e o jovem Kennedy teve que nadar 45 minutos para atingir uma ilha, agravando seu mal na coluna, fraturada antes num acidente.

Iniciou sua carreira política aos 29 anos, eleito Senador pelo Partido Democrata.

Representava a elite norte-americana que nunca tinha tido poder político, aquela que estudara nas Universidades, era viajada, tinha bom gosto e, acima de tudo, usava a inteligência no diagnóstico e na solução dos problemas internos e na consecução da estratégia mundial da Democracia.

Como Senador, foi anti - Mc Carthy; combinava o pragmatismo com o idealismo e identificava as forças sociais que, despertadas nos gritos de liberdade americana, explodiram na Revolução Francesa e se acham hoje potencializadas pelas falácias marxistas-leninistas.

Em pleno vigor físico, com maciça experiência política e notável cultura humanista assimilada em volumosa literatura, assumiu em 1960 a Presidências dos EUA.

"Tinha crença apaixonada na democracia como revolução pacífica permanente, procurando sempre novas fronteiras para o espírito humano livre. E acreditava na missão de seu país como líder dessa revolução, liderando não pela conquista, mas pelo exemplo e pela persuasão" (in "A era de Kennedy" - Lincoln Gordon).

Cercado de intelectuais, estabeleceu seu programa de ação

. Os assuntos científicos, tecnológicos, sociológicos e econômicos eram tratados por peritos de alto gabarito, integrantes, na sua maioria, da nova geração americana.

Embaixadas e ministérios foram entregues a essa plêiade de professores, historiadores, sociólogos e economistas.

Não somos nós que devemos julgar os 36 meses do Governo Kennedy, na nação mais poderosa do Mundo Livre.

Examinamos, todavia, os fatos marcantes, conhecidos da opinião pública mundial, tal a repercussão com que a imprensa os consagrou.

Destaquemos, inicialmente, as medidas tomadas no âmbito interno dos EUA.

A maior de todas, com grande influência internacional, foi sem dúvida à luta contra a intolerância e discriminação raciais.

Os vestígios remanescentes dessa chaga social fazem-nos relembrar as atitudes de há cem anos passados, do outro líder focalizado, Abraham Lincoln, e deixam, hoje, os EUA. Em difícil posição para uma autêntica liderança, em nome da civilização livre.

A sua posição contra as exigências dos belicistas, poderosos capitães da indústria do aço americanos e seus comparsas, reafirmou a inteireza de caráter do ganhador do Prêmio Pulitzer 1957, com o livro "Profiles in Courage" - onde sobreleva a coragem diante das pressões.

Tomou medidas para a unificação da logística das FF.AA, cuja falta de integração dava ensejo a uma perdulária demonstração de abastança-e dos planos tecnológicos dos protótipos bélicos (como o famoso caso do avião FTX).

No campo político-administrativo interno, são conhecidas, ainda, as seguintes providências:
- fortalecimento da estrutura educacional,
- provisão de maior bem-estar para a velhice,
- renovação de centros urbanos e
- programas de treinamento para qualificar a mão-de-obra nacional diante da constante automação dos meios de produção, em face do problema do desemprego.

Na Europa, Ásia e África, deixou o sinal de sua estratégia inteligente.

Ajudou a países neutros e comunistas (Iugoslávia e Polônia), sem exigir alianças militares.

Apoiou moral e materialmente movimentos reformistas em várias partes daqueles continentes, visando ao bem-estar social.

Optou pelo neutralismo do Laos. Manifestou-se, finalmente, contra o governo antipopular de Diem, no Vietnam do Sul.

Negociou o Tratado de Moscou sobre a proscrição das provas atômicas na atmosfera, sobrepondo-se às pressões de De Gaulle e dos alemães, tendo a coragem de dizer a respeito em discurso, a 16 de junho de 1963:

"O Primeiro-Ministro Kruschev, o V Mc Millan e eu concordamos em que as discussões de alto nível deverão começar brevemente em Moscou, visando a um acordo inicial na questão das provas atômicas. Nossas esperanças devem ser temperadas com a prudência que a História recomenda.

Com nossas esperanças de toda a humanidade.

Com o objetivo de deixar bem claro a nossa boa fé e convicção solene sobre o assunto, quero afirmar neste momento que os EUA não realização qualquer experiência nuclear na atmosfera, enquanto outros países fizerem o mesmo.

Não seremos os primeiros a recomeçar essas experiências.

Esta declaração não é um compromisso formal de tratado, mas espero que nos ajudará a alcançá-lo.

Tampouco um tratado significará o desarmamento, mas espero que nos ajudará a alcançá-lo."


Quanto à comunidade americana, Kennedy apoiou a filosofia de seus "experts", constantes de dois Relatórios, um subscrito por 30 intelectuais, liberais e homens de negócios progressistas, e outro de um grupo do Pentágono, que passou a constituir o núcleo da chamada "Latin América Task Force".

As recomendações contidas nesses documentos, inteiramente divergentes da política míope de administrações anteriores, constam do seguinte:

1) dar ênfase ao planejamento de âmbito nacional, a longo prazo, até então olhado com desconfiança, como prática socializante que não deveria ser estimulada;
2) advogar reformas estruturais, como a agrária, até então considerada como exclusivo anseio de temidos grupos esquerdistas latino-americanos, na América Latina, como por exemplo, a PARA no Peru;
3) reconhecer o papel primordial e pioneiro do capital público no desenvolvimento econômico da América, área tradicionalmente reservada à iniciativa privada;
4) advogar empréstimos públicos a empresas estatais, inclusive de petróleo;
5) propor a adesão dos EUA a esquemas de estabilização dos mercados de produtos primários, sobretudo de café;
6) reconhecer o importante papel da industrialização no processo de desenvolvimento latino-americano; e
7) dar menor importância aos ditados ortodoxos em matéria de política monetária, refletindo a mudança da política interna, dos republicanos, fiéis aos dogmas de balance-your-1budget, para os democratas, mais interessados no ritmo e crescimento econômico.
("Aliança para o Progresso", de Marcilio Marques Moreira, publicado no Jornal do Brasil, de 27-10-63).

Tais conceitos acham-se objetivados na Carta de Punta Del Este "estabelecendo a Aliança para o Progresso dentro da Operação Pan-Americana", cujos resultados, infelizmente, não lograram êxito maior, talvez pela pressão do Congresso Americano e dos interesses econômicos particulares de americanos, do que pelos anseios de Kennedy e seu qualificado "staff".

O caso cubano mostrou que o jovem líder democrático aliava à sua estratégia uma tática realista e corajosa.

Sem pretender medir os erros de seus predecessores no apoio ao déspota Fulgêncio Batista, no engodo da revolução fidelista, abraçando o marxismo, a Kennedy coube duas atitudes: a primeira assumindo a responsabilidade pela frustrada invasão de Cuba em 1961, e a segunda, na crise de outubro de 1962, quando determinou o bloqueio de Cuba e convenceu os soviéticos a recuarem de seus desígnios bélicos nas costas americanas da conturbada zona do Mar das Caraíbas.

A idéia de conter o comunismo, no seu programa de expansão mundial, por um "cordão sanitário" constituído de bases americanas em torno da atual cortina de ferro, mostrara-se incapaz de vencer a luta ideológica, fomentadora de guerras revolucionárias a que estão sujeitas as nações subdesenvolvidas.

Assim, a estratégia kennediana vislumbrou o fortalecimento do Mundo Livre através do exercício real, efetivo e eficiente da democracia naqueles países.

Eis em rápidos traços o que sentimos do Governo Kennedy.

Ele, o líder, deixou aos seus compatriotas e ao Mundo uma página magistral, versão nova, atualizada e profética, como o discurso de Gettysburg, há um século.

Seu discurso de posse embevece o espírito e carreia esperanças para os homens de todos os quadrantes do globo.



Diz ele, de início:

"Hoje, o mundo é muito diferente. Porque o homem retém em suas mãos mortais o poder de abolir toda forma de vida humana. Contudo, continuam ainda em litígio em todos os recantos do globo as mesmas crenças revolucionárias pelas quais lutaram nossos antepassados - a crença de que os direitos do homem não emanam da generosidade do Estado, mas das mãos de Deus".

Era a afirmação de quem, crente em Deus, sabe que o homem - centelha divina - tem direitos inalienáveis e imperecíveis, apesar de todos os megatons que a volúpia da autodestruição conseguiu reunir, provar, ativar e prometer disparar - sem qualquer outro sentido que o da morte total, global e definitiva do Homem da Terra.

Aos povos menos afortunados abriu uma réstea de luz, como um laivo de esperança às suas aspirações, dizendo:

"Aos que vivem em choças e aldeias, em metade do globo, lutando por romper as cadeias da miséria, prometemos nossos melhores esforços para ajudá-los a se ajudarem, durante o tempo que for preciso, não porque os comunistas o estão fazendo, não porque queremos seus votos, mas porque é justo. Se a sociedade livre não puder ajudar os muitos que são pobres, não poderá jamais salvar os poucos que são ricos".

Aos povos americanos prometeu um neomonroísmo, onde o respeito mútuo e a preservação da autonomia dos Estados fosse a marca das alianças, numa mensagem de compreensão e verdadeira fraternidade continental.

"As repúblicas irmãs ao sul de nossas fronteiras fazemos uma promessa especial - de transformar nossas boas palavras em atos bons, numa nova aliança para o progresso; de ajudar os homens e governos livres a se libertarem das cadeias da miséria.

Entretanto, esta pacífica revolução da esperança não se pode tornar uma presa de potências hostis.

Que saibam todos os nossos vizinhos que nos uniremos a eles na oposição à agressão e subversão, em qualquer parte das Américas.

E que saiba toda outra potência que este hemisfério pretende continuar dono de sua própria casa".


E, finalizou o grande Presidente, em apelo ecumênico:

"Assim, pois, compatriotas, não pergunteis o que o vosso país pode fazer por vós e sim o que podeis fazer por vosso país.

Concidadãos do mundo: não pergunteis o que os EUA podem fazer por vós e sim o que podeis fazer juntos pela liberdade do Homem.

Finalmente, sejais cidadãos norte-americano ou cidadãos do mundo, esperais de nós o mesmo alto nível de força e sacrifício que esperamos de vós.

Com uma consciência tranqüila como única recompensa, com a História como juiz final de nossos atos, marchemos avante para guiar a terra que amamos, implorando a benção e a ajuda de DEUS, porém sabendo que aqui na Terra o trabalho de Deus deve ser, na realidade, o nosso próprio trabalho."


Na tragédia de Dallas, ocorria às 14:00 horas de 22 de novembro de 1963, morreu um homem-símbolo desta geração.

O sicário que quis mudar o curso a História, com um tiro de fuzil à distância e pelas costas de sua vítima, terá atingido seus maus desígnios ?

Ou os EUA e a Humanidade aprenderão depressa as lições deixadas pela clarividência de Kennedy ?

As lições dos homens como Abraham Lincoln e John Kennedy são eternas e se assentam nas virtudes de caráter que fazem dos líderes os obreiros da civilização em marcha.

E a criação humana, para ser perene, precisa estar ajustada às máximas morais que diferenciam o homem-animal do homem-espírito.

Agora mesmo, assistimos ao gigante movimento do neto de Gandhi, o jovem Raymohan, o qual busca, através de uma revolução pacífica de milhões de indianos, criar uma"nova ordem social onde o homem não mais defraude, insulte, adule, corrompa e explore seus semelhantes; onde homens e mulheres vivam como filhos e filhas de Deus !


Germano Seidl Vidal
Coronel do Exército, Escritor e Historiador e Membro-Efetivo do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e da Academia de História Militar Terrestre do Brasil.

Publicado na Revista A DEFESA NACIONAL na edição de JAN/FEV de 1967

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