O Revisionismo na nossa História, particularmente na História Militar do Brasil

Texto do Gen. JONAS CORREIA NETO



O que entendemos por revisionismo histórico é uma atividade cultural, em expansão acentuada, a qual consiste em revisar a História, tal como é reconhecida e acatada, a fim de:

- reenxergá-la, sob diferente óptica, se possível com dados novos;
- reformulá-la, priorizando outras idéias, velhas ou novas;
- reinterpretá-la segundo conceitos e direções pré-estabelecidos;
- reapresentá-la, destacando as mudanças incluídas.

A revisão continuada da História é, sem dúvida, louvável, necessária, a partir daquilo que já se tem por certo ou no bojo da constante busca da exatidão histórica.

Justifica-se, às vezes, mas nem sempre; não em qualquer caso, nem de qualquer maneira, mudando só por mudar.

Toda sociedade, mormente as sociedades nacionais, tem natural anseio de poder apoiar, sentimentalmente, na sua História pátria, que é a argamassa mais eficaz e durável da integridade social da Nação.

"Verdade histórica" é uma afirmação exagerada, algo com que se tem de ter cuidado. Como tantas verdades, essa também é relativa.

Pode ser falsa: é muito interpretativa, muito individualista e temporária, eis que a suposta verdade de hoje pode não ser a de amanhã, em face do aparecimento de novas provas que derrubem as existentes e vigentes.

As tais "novas provas" cabem no conceito de "fatos novos" da área judicial.

Aparecendo, permitem novas avaliações e novas conclusões, às vezes completamente opostas às convicções consolidadas. Isso é possível e válido.

Não basta o crivo de um pesquisador experiente.

É preciso o equilíbrio de um analista competente e desapaixonado, para que sejam pesadas todas as conseqüências de alguma revelação.

Há diversos fatores a serem balanceados.

Além da questão ética, também poderão estar em jogo a auto-imagem nacional (patriotismo!) e outros parâmetros.

Se forem achadas novas provas de algum acontecimento histórico, deverão elas ser utilizadas, ainda que polêmicas?

Achamos que sim, deverão.

Faça-se o registro, proceda-se à análise, com as técnicas recomendáveis, avaliem-se a conveniência, a oportunidade, a forma da divulgação. - porém, em nenhuma circunstância, poderá ser a da exploração ideológica, que é capaz de inventar, de deformar, de usar meias verdades, de subverter.

Com honestidade e cautela, é possível conseguirem-se efeitos construtivos da difusão de uma novidade.

Entretanto, se a intenção novidadeira for exatamente a finalidade desestabilizadora, desfigurativa, haverá um nítido objetivo visado.

Então, valerá tudo: desde o mais cínico "achamos" até a manipulação descarada de documentos apócrifos e forjados.

Na correta utilização de novos elementos, ou de novos enfoques de velhos fatos, a cautela levaria a se verificar em que os aspectos tratados foram embasados:

- credibilidade - fontes insuspeitas; melhor ainda se forem primárias;
- apresentação - sem vaidades, sem ranços, sem preconceitos;
- decorrências - "cascata cultural", com os reflexos educacionais, culturais, sociais e cívicos.

Será que vem ocorrendo assim, nessa onda persistente do chamado "revisionismo" na nossa História?

Parece-nos que nem sempre e cada vez menos estamos vigiando e cuidando desse mal, que vai abrindo seus caminhos, instalando-se nas mentes (sobretudo nas mais moças), gerando dúvidas, descréditos, questionamentos.

O revisionismo na nossa História Militar mostra-se bastante claro, no quadro amplo que estamos apreciando.

No entanto, existem aqui dois condicionantes que não se podem ignorar:

- um geral: repúdio popular às soluções de força, às ações bélicas; e daí, má vontade para com as instituições castrenses e seus integrantes, os militares;
- o então conjuntural: prestígio ímpar das nossas Forças Armadas, que ainda têm capacidade de bloquear ações diversas, nocivas à ordem, ao bem público e a outros ideais permanentes.

A força moral merece destaque.

É por isso que nossos contraditores tanto se esforçam por tentar abatê-la.

A História Militar Brasileira tem papel fundamental na formação e na manutenção da consciência dos militares.

Portanto, se as Forças Armadas ainda são alvo prioritário dos novos subversivos (novos pelo momento, pela disposição, pelos processos), e elas de fato são, imperioso lhes é enfraquecê-las, já que continuam sendo instrumentos e pilares da Nação.

Isso poderia ser conseguido, primeiro, pela diminuição gradual da capacitação profissional; simultaneamente, pelo desvalimento do orgulho de classe.

A História Militar é um campo especialmente propício ao assalto cultural, em marcha paralela ao assalto político, dentro do esquema do "gramscismo" crioulo, em expansão quase sem barreiras.

A sua revisão teria de começar pelo questionamento dos sucessos militares tidos e celebrados como gloriosos e das qualidades, humanas e militares, de figuras festejadas como notáveis chefes militares e mostradas como modelos.

De fato, o que se procura é pôr em xeque questões político-militares e mesmo operações bélicas em que estiveram engajados, ao longo de muitos anos, o Brasil e suas Forças Armadas.

É o caso da participação brasileira na 2ª Grande Guerra, bem como das intervenções e conflitos platinos, onde se avulta a Guerra da Tríplice Aliança.

Em janeiro de 1964, apareciam, nos estabelecimentos de ensino e nas livrarias, os primeiros volumes de uma coleção oficial "História Nova".

A iniciativa era patrocinada pelo MEC. Constaria a coleção, inicialmente, de dez livrinhos, abordando capítulos da História do Brasil.

Os livros seriam entregues "a professores e estudantes", acrescentando-se que "de uma nova reflexão sobre os dados componentes de nossa História se passe de imediato àquela ação capaz de dar ao povo brasileiro o Brasil pelo qual ele realmente anseia".

Os autores eram da Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil sob coordenação do professor de esquerda (General na reserva) Nelson Werneck Sodré.

A postura básica do trabalho só poderia ser de cunho acentuadamente marxista e de viés stalinista, cheio dos chavões típicos, todavia nunca explicitado sequer na bibliografia constante de cada volume - não aparecem os nomes de Marx, Lenine, Stalin e outros gurus, porém aparece sempre a obra do próprio Werneck Sodré - "O Que Se Deve Ler para Conhecer o Brasil".

Passaram-se 40 anos.

Pouco a pouco, voltamos a ter uma problemática muito parecida.

O mais gritante e significativo está na nova e tremenda forma de agressão; dos processos reconhecíveis do tempo da "Guerra Fria", chegou-se aos procedimentos minuciosos, sugeridos por Gramsci, que estão em plena prática, com a virulência que possuem.

Publicado em O Globo de 05 Mar 2005: Cartilhas Contemporâneas - O governo lançou ontem o primeiro volume da série "Cartilhas Contemporâneas".

As primeiras 150 mil cartilhas, que serão distribuídas nas escolas da rede estadual, vão contar a vida do jornalista Vladimir Herzog, morto na prisão, em 1975, durante a ditadura militar.

Há algo parecido com a História Nova de quarenta anos atrás?

Estamos convencidos da ocorrência de um projeto de revisionismo da História brasileira, não inocente, a serviço da ressurgente causa comunista, que nos ameaça.

Mais concretamente, vamos expor à discussão umas quantas afirmações.

Assim, o "revisionismo" tem por finalidade: - numa primeira fase, colaborar para a vitória do Socialismo, através de intensa penetração cultural, valendo-se de uma História reformulada em aspectos selecionados, sob a óptica do ideário marxista e conforme as técnicas gramscistas; - subseqüentemente, prosseguir na campanha, em demanda do objetivo final - a sociedade comunista - a História, já adequada, será utilizada como importante meio de ação.

Evidentemente, as bases teórico-doutrinárias da ação se escoram na concepção doutrinária da História, fixada por Karl Marx e, agora, cristalizada na ardilosa montagem de Antonio Gramsci, a qual se direciona habilidosamente para o pleno controle das mentes humanas, das instituições políticas, da sociedade nacional, do Estado brasileiro.

Trata-se de uma programação cuja maior probabilidade de êxito reside justamente na sua lógica simples.

Os agentes revisionistas mais importantes são os professores (plantadores), os estudantes (repetidores), os historiadores (e historiógrafos), os escritores, os jornalistas, os editores e os artistas.

Os alvos preferenciais são evidentemente os professores, os estudantes, os jovens em geral, por serem mais permeáveis e, atualmente, sem limites familiares, as minorias ressentidas - (raciais, culturais, reivindicadoras, sociais e outras).

Praticamente são usados todos os meios de comunicação, especialmente os informativos e didáticos de maior penetração, como: livros, mídia, expressão artística etc.

Além desses, podem ser usados, simbólicos e permanentemente à vista, os monumentos e nomes de logradouros (novos ou mudados).

O revisionismo da História Militar, no decurso de muitos anos, tem-se detido em diferentes temas, uns de envergadura, outros mais limitados. Vejamos alguns mais importantes.

I - Revolução Democrática de 1964 e Governos Militares

Distorcidas, não reconhecidas as razões do movimento cívico-militar de 64 - a "ditadura", os "anos de chumbo".

Negação ou minimização dos sucessos e das conquistas do período. Repetição exaustiva de acusações - violência, torturas, repressão, censura.

Procura-se colocar o povo contra os militares e fraturar nossa homogeneidade espiritual, dando a entender que as Forças Armadas de hoje são diferentes das anteriores.

Campanha do silencio ... na qual estamos amarrados.

II - O Brasil na 2ª Guerra Mundial

Procura-se desmerecer a participação militar brasileira, levantar dúvidas sobre a atuação das Forças Armadas, em particular da FEB, e de comandantes militares - inclusive do Comandante da FEB, o Marechal Mascarenhas de Moraes.

III - Guerra da Tríplice Aliança

Os motivos da guerra são apresentados como injustos para com o Paraguai, mostrado como vítima indefesa, atacado em obediência à imposição da Inglaterra.

Teríamos aniquilado um país cujo progresso fazia sombra ao Brasil...

Todos os sacrifícios materiais e humanos, todos os heroísmos, tudo deve ser visto como vergonha para o Brasil.

Colocam-se também suspeitas, específicas ou veladas, sobre o procedimento e méritos de figuras militares renomadas.

São visados: Duque de Caxias, Conde de Porto Alegre, Gen Câmara, Alte Tamandaré, Alte Barroso e outros.

O Gen Osório tem sido poupado dos ataques maliciosos, de que são alvos outros grandes chefes militares históricos.

Sendo Osório mais simpático ao povo, pela sua natureza expansiva e bonachona, é possível que haja nisso, hoje, uma tentativa de confrontar o maior modelo de Comandante que tivemos: Caxias.

No espaço sócio-cultural do País, existem muitos movimentos atuando como pólos revisionistas.

São ONGs, associações, uma porção de denominações e direções de atuação. Buscam exercer certa influência, através, de afirmações ideológicas e revanchistas.

Alguns têm objetivos imediatos bem marcados, como o movimento negro, ecologistas e ambientalistas.

A partir deles, surgem casos e vultos, que passam a ser festejados, endeusados, sem menor análise do seu real valor.

São casos flagrantes Zumbi dos Palmares e Chico Mendes. Zumbi está imortalizado em bronze, em ponto nobre da Av. Pres. Vargas, e o Sr. Mendes, recém-elevado à dignidade de "Herói da Pátria", ombreia com velhos numes tutelares da alma brasileira.

É possível que estejamos no limiar de nova concepção de heroísmo, de nova listagem de heróis nacionais - na qual irão aparecer Zumbi, Lampião, Prestes, Lamarca, Betinho, Calabar, Apolônio de Carvalho, e, até, Olga Benário; e os tradicionais, os exemplares, os verdadeiros heróis, esses irão desaparecendo devagar, naturalmente, sem apelação.

O revisionismo bom deve ser apoiado, incentivado, aproveitado, mostrado, pois é correto, é construtivo, é fator de aprimoramento cultural e cívico.

O século XX, após a 2ª Guerra Mundial, viu aparecer aquele espécie de revisionismo que foi arma de subversão marxista-leninista.

Para os conhecedores, que somos, das táticas do Movimento Comunista Internacional da época, a presença daquele fermento era facilmente comprovada.

Atualmente, tendo permanecido ativa a ideologia, os modos de agir são principalmente outros.

Agora, são os preconizados por Gramsci, concebidos em momento de grande inspiração.

Então, mesmo para quem está ciente da nova estratégia, nem sempre fica fácil e tranqüila a identificação da mesma, em meio a tantos avanços da modernidade.


Jonas Correia Neto
General-de-Exército, ex-Ministro Chefe do EMFA e Membro-Efetivo do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e da Academia de História Militar Terrestre do Brasil.

Publicado na Revista do Clube Militar, Ano XXIX - nº 418 - de Jan/Fev de 2006

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