O BRASIL NA II GUERRA MUNDIAL

Texto do Escritor-Historiador Germano Seidl Vidal

PREÂMBULO

A II Guerra Mundial foi uma dura experiência para a Humanidade, vivida de 1939-45, sabendo-se hoje que o custo militar ascendeu a um trilhão e 200 bilhões de dólares americanos, com 230 bilhões de danos em propriedades, excluindo a China.

Morreram, em combate, 17 milhões de soldados, fora o sacrifício enorme da população civil. Em tópicos adaptados das fontes de referência a seguir mencionadas, montamos um escorço do que foi a grande contribuição do povo brasileiro para o Mundo Livre, durante longo período de inúmeros sacrifícios infligidos à nossa gente, além da efetiva participação na guerra de uma Divisão de Infantaria e um Grupo de Caça durante a Campanha da Itália (1944-45).

Esse trabalho foi divulgado, na década de 70, pelo antigo INSTITUTO NACIONAL DO CINEMA, como livro do professor de Ensino Médio para tirar partido de um diafilme, também preparado por mim, com 77 ilustrações, editado pelo Departamento de Filme Educativo e distribuído em âmbito nacional.

Ao final está a indicação da fonte básica para a referida compilação.

O ROMPIMENTO DE RELAÇÕES (1)

Há dois fatos a distinguir no estudo dos acontecimentos que levaram o Brasil a Guerra: o rompimento de relações com o Eixo e a declaração de guerra.

A declaração de neutralidade impusera ao Brasil a difícil tarefa de fazer respeitar suas águas territoriais que se estenderiam a 3895 milhas de costa atlântica.

Nossa Marinha de Guerra teve de enfrentar a missão com efetivos insuficientes, tanto no que se referia ao número de unidades, como no que respeitava a sua capacidade combativa.

À Marinha Mercante coube também uma tarefa importante e acima de suas possibilidades normais. Os navios eram antigos, desarmados, sem radar. A velocidade, em média, inferior aquela necessária para acompanhar comboios. Navegavam, por isso, quase sempre sem proteção.

Foi à custa de bravura e heroísmo que suas tripulações continuaram cobrindo as rotas comerciais, mantendo abertas às vias de abastecimento de víveres, armamentos, munições e transporte de tropa. O Brasil não estava preparado para a guerra.

As principais reservas, as iniciativas da diplomacia para que rompêssemos relações com o Eixo, quando os Estados Unidos foram atacados, eram de natureza militar.

Os chefes militares advertiam que não tínhamos condições para realizar um programa de guerra. O Brasil quisera se armar, em tempo.

As encomendas feitas e pagas antes de deflagrar o conflito, vinham em navios cobertos com o pavilhão brasileiro quando a Inglaterra decretou seu "Order in Council", a Lei de Represália, sujeitando a confisco todas as mercadorias de origem alemã, ou carregadas em porto alemão, transportado em navios neutro.

A medida afetou o Brasil, com o seqüestro do SIQUEIRA CAMPOS e do BAGÉ, carregados em Lisboa, com os canhões encomendados e pagos à Fábrica Krupp. Só mais tarde, quando o parque industrial norte-americano se transformou no Arsenal da Democracia, foi possível obter, sob as condições do "LEND-LEASE", as armas para fazermos a guerra.

Havia problemas internos. O Estado Novo tinha decretado a dissolução dos Partidos políticos.

Durante o período que precedeu à declaração de guerra, e, depois, até o Armistício, os políticos brasileiros só tiveram uma política - a do Brasil. Mas, nas grandes capitais e nas pequenas cidades de um vasto país de imigração, as colônias alemãs, italianas e japonesas foram pressionadas pelas respectivas representações diplomáticas para atuarem, como pudessem.

Era uma nova modalidade de guerra, que se disseminava, onde as tropas invasoras dispunham de armas fulminantes, empregadas em forma insólita de ataque - a blitzkrieg.

Precedendo seus regimentos, mobilizavam-se as minorias, os sudetos, a quinta coluna. Acreditando-se que o Exército alemão era imbatível, Vargas defendia a neutralidade. Defendendo-a, sua atitude parecia favorecer o Eixo.

O Brasil não podia fazer a guerra. E como devia solidariedade aos outros países americanos, durante algum tempo nossa política de guerra oscilou entre o dever e o poder.

Quando vem para a Conferência de Buenos Aires, a bordo do INDIANA, em 1936, Franklin Delano Roosevelt estabelece o primeiro contato com Getúlio Vargas. Roosevelt já despertara do sonho da neutralidade, em que se deleitavam ainda muitos americanos.

Mas se os Estados Unidos começavam a compreender que a neutralidade tornava-se perigosa, as demais nações americanas hesitavam em tomar uma decisão. Quando o Presidente americano quis articular o que chamaria de Defesa do Hemisfério, a receptividade aos seus apelos não foi encorajadora. Ainda conseguiu, e muito graças ao Brasil e ao seu Chanceler, estabelecer a unidade continental e alicerçar o princípio de solidariedade em face da agressão a qualquer um dos países americanos.

No dia 15 de janeiro de 1942, instalou-se, solenemente, no Palácio Tiradentes, a III Reunião de Consulta dos Ministros das Relações Exteriores das Repúblicas Americanas. Sentindo que aumentavam as possibilidades de uma ruptura de relações entre o Brasil e as nações filiadas ao Eixo, os Embaixadores da Itália, da Alemanha e do Japão, se apressam em escrever ao Ministro Osvaldo Aranha, acordes em que a ruptura das relações diplomáticas com o Eixo seria desde logo e nitidamente interpretada como manifestação da vontade das nações americanas de chegar, imediatamente ou dentro de curto prazo, a uma guerra de fato com os mesmos países.

Cresciam os rumores sobre a atitude divergente da Argentina. Summer Welles viera ao Brasil com um principal objetivo - obter a ruptura, unânime e imediata, de todas as relações comerciais, políticas, militares e diplomáticas entre as nações da União Pan-americana e as do Eixo. Viera disposto a pagar o preço em auxílio econômico e proteção militar, naval e aérea, pela fidelidade aos princípios pan-americanos, que os Estados Unidos buscavam. Aranha e Summer Welles tinham se dedicado, fundamente, em obter a ruptura das relações dos países americanos com o Eixo.

Seu empenho maior consistia em conseguir uma decisão unânime. Mas a Argentina não cedia. Defrontando esse impasse tiveram de decidir entre uma recomendação para um rompimento, decisão que obteria a unanimidade e uma ruptura pela grande maioria das nações americanas, mas sem uma decisão unânime.

Optaram pela primeira, a fim de preservarem a unidade continental.

DECLARAÇÃO DE GUERRA (1)

Desde fevereiro de 1942, o Alto Comando da Marinha alemã decidira, após uma Conferência no Estado-Maior da Wehrmacht, determinar a seus submarinos que atacassem navios brasileiros, participantes de comboios anglo-americanos ou que estivessem armados.

Essa ordem não foi cumprida à risca, pois a maioria dos nossos viajava isolada e só mais tarde é que alguns passaram a ter uma peça de artilharia.

Houve, também, casos de veleiros, pequenas embarcações que não ofereciam qualquer perigo aos alemães.

A 15 de junho, Hitler, depois de ouvir a Wehrmacht, resolvera determinar uma operação contra o Brasil. O rompimento de relações após a Conferência do Rio de Janeiro, irritara o Führer.

Era preciso dar um castigo ao Governo brasileiro que servisse como advertência. A operação consistiria ao envio de 10 submarinos aos portos brasileiros de Santos, Rio de Janeiro, Salvador e Recife. Os submarinos deveriam afundar todas as embarcações surtas nos portos e minar os canais de acesso regressando, depois, a Bordeaux, na França.

Entre 15 e 17 de agosto de 1942, a população brasileira sofreu uma série de impactos, com as notícias que se sucediam de torpedeamento de cinco navios mercantes que navegavam nas costas do país.

O afundamento das embarcações não revoltou tanto quanto as notícias das mortes e desaparecimentos de cerca de 610 pessoas, principalmente mulheres e crianças. Entre Bahia e Sergipe foram afundados: o BAEPENDI, o ARARAQUARA, o ITAGIBA e o ARARÁ.

No dia 18, o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) distribuiu uma nota à imprensa, denunciando o atentado e comunicando que o Governo examinava quais as medidas a tomar em face do ocorrido. O Itamarati remeteu a nota às nossas representações diplomáticas, solicitando que a transmitissem a todos os consulados de carreira.

De toda a parte chegam manifestações de solidariedade de todas as nações amigas. O Chanceler Osvaldo Aranha fez um resumo dos acontecimentos, em nota enviada às missões diplomáticas na América.

Naquela data histórica de 22 de agosto de 1942, o Presidente Getúlio Vargas reuniu o Ministério. Diante da comprovação dos atos de guerra contra a nossa soberania, fora reconhecida a situação de beligerância entre o Brasil e as nações agressoras - Alemanha e Itália.

Pela primeira vez o Brasil ia se engajar num conflito nas proporções da Segunda Guerra Mundial.

ATUAÇÃO DA MARINHA DE GUERRA (2) (3)

A Nação confiou à sua Marinha de Guerra o árduo papel de a defender numa zona extensíssima de mar, onde o inimigo desenvolvia, ascendentemente, violenta destruição.

Fez-se imediatamente ao mar os antigos encouraçados, cruzadores e destroyers, e moderníssimos contra-torpedeiros, caça-submarinos e navios-mineiros, havia pouco incorporados à Armada.

Ao movimento da Nação correspondeu a Marinha com movimentos rápidos e intrépidos. Os oficiais , marinheiros e toda a gente, embarcada ou não, acorreram aos seus postos, a bordo ou em terra, para a ação imediata.

E de tal maneira se conduziram que, ao terminar o primeiro ano da nossa beligerância, o Almirante ERNEST KING, Comandante-em-Chefe da Esquadra Norte-Americana, anunciava: "Nenhum dos oitocentos e quarenta navios até agora escoltados pelos vasos de guerra brasileiros, no percurso entre RIO DE JANEIRO e TRINIDAD, e vice-versa, se perdeu."

Acrescentou aquele Almirante que a cooperação da Frota Brasileira, responsável pela escolta dos comboios em grande trecho do ATLÂNTICO, era "um modelo de eficiência, regularidade e boa execução".

O conceito do Almirantado Britânico, do Ministro CHURCHILL, do Presidente ROOSEVELT e do Secretário de Estado CORDELL HULL, sobre a nossa Marinha de Guerra, apoiado no dos chefes navais das duas grandes potências, britânica e norte-americana, é o mais honroso possível.

Esse conceito, com que é encarecida a corporação naval do Brasil na luta contra os submarinos do "Eixo" é ainda reforçado pelas declarações do Almirante JONAS H. INGRAM Comandante das Forças Navais do ATLÂNTICO SUL.

Isto é muito significativo e revela, a par da eficiência das unidades brasileiras o espírito de sacrifício e a combatividade das nossas guarnições. "Temos cumprido rigorosamente, o nosso programa no ATLÂNTICO SUL", declarou o Almirante INGRAM. "Limpamos a nossa zona de submarinos inimigos, estando a navegação aliada mais segura do que nunca. Devemos uma parte dessa eficiência à intrepidez dos marujos brasileiros, bem como a dos aviadores, cuja colaboração tem sido inestimável."

Duas forças navais - A Força Naval do Nordeste e a Força Naval do Sul - asseguraram proteção dos comboios nas linhas comerciais de abastecimento às nações aliadas, assim como aos comboios de caráter especial, organizado para a condução de tropa ou de material de guerra, além do transporte do Corpo Expedicionário à Itália.

Além disso, faziam a condução de material e de contingentes militares às ilhas de FERNANDO DE NORONHA e de TRINIDAD, e semelhantemente entre os portos do NORDESTE. Por vezes, o raio de ação desses comboios atingia a ilha ASCENÇÃO, para o lado da ÁFRICA DO SUL, e a Costa Atlântica dos ESTADOS UNIDOS.

Toda a ação naval no ATLÂNTICO SUL era feita, a princípio, em cooperação com a 4ª Esquadra Americana; mas, à medida que a nossa Esquadra era aumentada com novos navios, cresciam as tarefas e as suas responsabilidades.

A transferência do Almirante JONAS INGRAM para o comando supremo das Forças Navais Americanas em Operações no Oceano ATLÂNTICO, e a retirada da 4ª Esquadra para outro teatro de operações, o serviço de defesa do HEMISFÉRIO OCIDENTAL, no Sul, ficou exclusivamente a cargo da Esquadra Brasileira. Aquela medida do Governo dos ESTADOS UNIDOS foi muito honrosa para o Brasil, confiando à Marinha deste país à defesa de uma vasta região marítima do Globo, através da qual se desenvolveu muitas das mais vitais linhas de navegação das Nações Unidas

. O Almirante ARNALDO TOSCANO, Chefe do Estado-Maior da Armada, em ordem do dia 21 de julho de 1966, destacou a participação da Marinha na II Guerra Mundial através dos seguintes números: "De 1942 a 1945, nossos poucos navios participaram da escolta, interaliada de 251 comboios e efetuaram 195 de escolta exclusivamente brasileira.

Conduziram a porto seguro 2.881 navios aliados, totalizando 14 milhões de toneladas, por 3.895 milhas de oceano, entre o Rio Grande e Trinidad, nas Caraíbas, setor que nos coube proteger. No total, foram percorridas 600.000 milhas marítimas, credenciando o esforço realizado."

CAMPANHA DA FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA (4) (5)

Nossa participação na luta pode ser dividida em quatro períodos. O primeiro começa a 15 de setembro de 1944, quando um destacamento comandado pelo General ZENÓBIO DA COSTA, entrou em linha de fogo, perto da costa de oeste, depois de cerca de dois meses de treinamento na ITÁLIA. Havia elementos de todas as Armas e Serviços e o V Exército travava a batalha do rio ARNO, onde já havia alcançado sucesso.

Combatendo em Forças-Tarefa, os brasileiros progrediram profundamente, alcançando êxitos tais como a tomada de CAMAIORE e MONTE PRANO.

O segundo período de nossas operações estende-se de princípios de novembro de 44 a meados de fevereiro de 45. Começa aí o emprego da 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária na área ao norte e a oeste de PORRETA TERME, na margem oeste do rio RENO.

O General MASCARENHAS DE MORAES, que tinha estado supervisionando o treinamento das tropas mais recentemente chegadas assumiu o comando direto de todos os elementos da Divisão.

O terceiro período decorre desde a última parte de fevereiro até o princípio de março de 1945. Nesse período, as nossas operações caracterizam-se por ataques a posições fortificadas pelo inimigo. A neve desaparecera e o sol voltou a aquecer o soldado brasileiro.

Atacamos os alemães, como fez também a 10ª Divisão de Montanha dos Estados Unidos, que estava lutando conosco no conjunto do IV Corpo. Foi nessa ocasião que tomamos MONTE CASTELLO, que havíamos tentado tomar em novembro e dezembro.

O quarto período iniciou-se em abril e terminou com o encerramento da guerra na Itália, a 2 de maio de 1945.

Para nós, essa ofensiva pode ser dividida em três fases.

A primeira delas foi assinalada por nosso ataque às últimas posições alemães em nossa zona, culminando com a captura de MONTESE.

A segunda foi à exploração desse êxito, com os alemães em retirada organizada. Avançam rapidamente para VIGNOLA, travando combate em ZOCCA, e em MARANO SUL PANARO.

Na terceira fase os alemães já estavam desorganizados, muitos deles se rendendo e outros em fuga. Foi de então a nossa progressão por VIGNOLA e TORINO, passando por PIACENZA e ALEXANDRIA. A meio caminho, ocorreu o episódio espetacular de COLLECCHIO e FORNOVO, onde a FEB capturou uma das melhores divisões alemãs - a 14ª Divisão de Infantaria.

Chegou finalmente ao fim essa fase e a própria guerra, com as tropas brasileiras a oeste de TORINO, em SUSA, onde fizeram junção com as tropas francesas vindas de leste. Os efetivos da FEB chegaram a 25.334 dos quais 15.069 compuseram a tropa em ação de combate da 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária.

Em 239 dias de ação contínua contra o inimigo (de 6 de setembro de 1944 a 2 de maio de 1945) a FEB apresentou os seguintes dados:

Prisioneiros de guerra capturados Generais 2 Oficiais 892 Praças 19.679 Total 20.573

Nossas perdas

Mortos - Oficiais 13 Praças 430 Total 443

Feridos em ação de combate - 1.577

Acidentados em outras atividades - 658

Prisioneiros feitos pelo inimigo - Oficiais 1 Praças 34 Total 35

DEFESA DO TERRITÓRIO (6)

Competia ao Exército a defesa terrestre do território nacional compreendendo a cobertura do litoral, particularmente, o do Nordeste, a vigilância das fronteiras e a manutenção da ordem interna, dos poderes constitucionais e da lei, bem como a proteção dos estabelecimentos militares nele existentes.

Para a cobertura do litoral, poderia contar com a cooperação da Força do Atlântico Sul, enquanto que para o cumprimento das demais missões deveria haver-se, apenas, com os seus recursos próprios, pois seria muito difícil afastar as Forças Navais e Aéreas das suas missões no mar para apoiá-lo em terra.

Embora a defesa da costa nordestina constituísse tarefa das mais importantes, a segurança interna e das fronteiras também assumia aspecto de suma gravidade, das ameaças em potencial que sobre elas recaiam, pois era evidente a periculosidade dos quistos raciais e bastante incômodas a atitude assumida pela Argentina, que não se inclinara a favor da causa aliada, mantendo-se, intransigentemente, no campo da neutralidade.

A esfera das atribuições do Exército era, portanto, ampla e complexa, correspondendo a todo o território nacional, posto que a segurança das instituições e a manutenção da lei e da ordem não poderiam sofrer restrições.

Para efeito operativo, todavia, criou-se uma Zona de Guerra (Decreto nº 10.490-A de 25 de setembro de 1942) envolvendo toda a faixa costeira, inclusive as águas do Atlântico Sul compreendidas na Zona de Segurança estabelecidas pela Declaração do Panamá, a fronteira sul e o vale do rio São Francisco, denominando-se Zona do Interior, o restante do território nacional.

A Zona de Guerra foi subdividida em cinco Teatros de Operações, o A (Amazônico) compreendendo os estados do Amazonas, Pará, Acre e NO de Mato Grosso; o NE (Nordeste-Este), os Estados do Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia (até o rio Jequitinhonha) exclusive; o CM (Centro Meridional), Distrito Federal, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Goiás, Espírito Santo e parte do sul da Bahia, até o rio Jequitinhonha, inclusive; o R (Meridional), Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, e o M (Mato Grosso), exclusive à parte NO pertencente ao TO A. O TO NE já havia sido organizado desde fevereiro de 1942. Compreendia, então, a área delimitada pelo rio Doce, ao S, e o estado do Maranhão, ao N, ambos inclusive.

O mesmo Decreto especificou mais que os Comandantes-em-Chefe dos diferentes TO, além das forças terrestres neles existentes, teriam, sob seu comando, as formações navais e aéreas de cooperação que fossem postas a sua disposição.

Nos principais portos a defesa apresentava certa consistência, contudo, nos demais ponto não possuía mais do que simples postos de vigilância, do valor de pelotões e grupos de combate, espalhados ao longo da extensa fimbria marítima, na maioria das vezes sem apoio adequado e sem comunicações eficientes.

Ficou, assim, o país envolvido por uma tênue e descontínua cortina de fogos, sem qualquer profundidade, que se estendia de Belém, ao N, a Rio Grande, ao S, dando a impressão de que seria incapaz de conter o inimigo que ousasse ameaçá-lo, tendo como sentinelas avançadas as guarnições das ilhas de Fernando de Noronha e Trindade.

Não era a rigor um sistema estático porque, uma vez recalcado, deveria retardar o invasor na direção do interior onde se pretendia oferecer uma resistência ilimitada. Seria, entretanto, duvidoso que, no Nordeste, com o polígono das secas as costas, tal ocorresse, pois, dificilmente uma força numerosa e regular poderiam manter-se ali por muito tempo.

O próprio inimigo talvez não tivesse interesse em acompanhar-lhe os passos para não ser vítima das mesmas agruras. Uma vez perdido núcleo, seus remanescentes deveriam refluir para o outro tal como, em épocas passadas, fizeram os portugueses e brasileiros em luta contra os holandeses. Perdido um engenho, a luta continuava no engenho seguinte onde sempre era mais fácil obter víveres, braços, armas e estímulos para o prosseguimento da luta.

Dada a pobreza das vias de transporte entre o Sul do país e o Nordeste e dentro deste, os núcleos deveriam estar devidamente providos de recursos de toda a sorte para que pudessem resistir o tempo suficiente ao acionamento das reservas que, em qualquer caso deveriam gravitar em torno dos eixos que conduziam ao Sul do país, se possível, nas proximidades da cidade do Recife que, pela sua posição e importância, seria fatalmente o principal núcleo deste sistema.

O percurso Rio de Janeiro - Pirapora - Juazeiro - Recife era, então, coberto, nas melhores condições, em 15 dias de penosas e intermináveis viagens através de zonas inóspitas, áridas e palustres do médio São Francisco, exigindo muita tempera a tenacidade dos que tivessem de palmilhá-lo.

Algumas tropas e materiais chegaram a ser transportados por esta via. Entretanto, se houvesse necessidade de deslocar grandes reservas para reforçar pontos ameaçados no Nordeste ou recalcar o invasor que nele se instalasse, seria tarefa de tamanha envergadura, que talvez fizesse relembrar o drama vivido pelo Império para socorrer a longínqua província de Mato Grosso invadida pelos paraguaios em 1865.

A FORÇA AÉREA BRASIELIRA NA ITÁLIA (7) (8)

Para se poder apreciar devidamente a atuação da Força Aérea Brasileira na Itália, principalmente sob o aspecto quantitativo é necessário considerar:

1º - que em 1943, a Força Aérea Brasileira estava ainda em plena fase de desenvolvimento inicial, e que a maioria dos meios do Ministério da Aeronáutica estavam obrigatoriamente concentrados nas escolas de formação.

2º - que, desde 1942, todos os meios, que não estavam absorvidos nas escolas, eram lançados nas unidades de aviação encarregadas do patrulhamento contra submarinos e proteção aos comboios marítimos em águas brasileiras.

Pois bem, quando em fins de 1943, ficou resolvido o envio de forças brasileiras para o teatro de operações do Mediterrâneo, o Ministro da Aeronáutica logo resolveu que, por mais empenhada que estivesse a FAB no seu processo laborioso de desenvolvimento e organização, e por maiores que fossem os seus compromissos nas operações aéreas no Atlântico Sul, ela não poderia deixar de mandar um contingente para a luta na Europa.

Foi então resolvido que seria inicialmente organizado e treinado um Grupo de Caça; e assim que as disponibilidades em pessoal o permitissem, seriam organizadas outras unidades de aviação para serem enviadas para o Mediterrâneo. Ficou ainda resolvido que a FAB forneceria a Força Expedicionária do Exército o pessoal necessário para a organização da Esquadrilha de Observação e Ligação prevista na Artilharia Divisionária, com exceção dos observadores que seriam oficiais de Artilharia. Já em janeiro de 1944, partiram os homens chaves da constituição do Grupo de Caça para iniciarem o seu treinamento na Escola de Tática Aérea de Aviação Norte-Americana em Orlando, Flórida.

Durante os meses de janeiro e fevereiro de 1944, os demais elementos do Grupo de Caça, num total aproximado de 400 homens, foram parceladamente enviados, via aérea, para a base aérea de Água Dulce no Panamá, onde se realizou o treinamento mais importante da unidade já como um todo.

Daí o grupo foi enviado para a base aérea de Suffolk, próxima de Long Island, nos EUA. O treinamento então se aperfeiçoou com os aviões P-47-THUNDERBOLT. A 10 de setembro de 1944, iniciou-se o deslocamento da unidade para a Itália, terminando a 7 de outubro na base aérea de Tarquínea, próximo de Pisa.

O Grupo de Caça brasileiro operou durante a Campanha da Itália, principalmente como uma unidade de caça-bombardeio, cujos objetivos visavam a três fins:

1º - apoio às forças terrestres na frente de combate;
2º - isolamento do campo de batalha pela interrupção sistemática das vias de comunicação no vale do Pó;
3º - destruição da indústria e instalações militares ao Norte da Itália.

Para isto, o Grupo despendeu o seguinte cômputo de itens bélicos:

Total das missões executadas 445
Total de saídas ofensivas 2.546
Total de saídas defensivas 4
Total de horas de vôo em operações de guerra 5.465
Total de bombas lançadas 4.432
Total de tonelagem das bombas 1 010
Total de foguetes 850
Total de munição de metralhadora Cal. 50- 1.180.200

A FAB NA DEFESA DO LITORAL (9)

O Brasil ainda não declarara guerra aos países do Eixo, quando, em maio de 1942, a FAB começava a patrulhar as costas, principalmente da Bahia para o Norte. No dia 14 de maio, às 14 horas, acontecia o primeiro ataque a submarinos por avião da FAB.

A determinação para que o Brasil se defendesse do inimigo, em data anterior à declaração de guerra, partira do Brigadeiro Eduardo Gomes, comandante da II Zona Aérea, com sede em Recife. Ele decidira tomar a drástica medida em razão do afundamento de três navios estrangeiros nas proximidades do litoral entre Recife e Fortaleza. Antes, seis navios brasileiros haviam sido torpedeados, mas longe do Brasil, nas costas da América Central e América do Norte.

Tudo isso acontecera após o rompimento das relações diplomáticas entre a maioria dos países americanos e a Alemanha, Itália e Japão. Depois veio o torpedeamento do navio Comandante Lira, próximo ao território nacional, a Nordeste do arquipélago de Fernando de Noronha.

Àquela altura não havia mais dúvidas: a guerra submarina chegara às costas do Brasil. Por isso a FAB, colhida pela rapidez com que os atos belicosos se aproximavam, lançou-se numa atividade febril, tentando superar as suas dificuldades. E em todo o litoral brasileiro tiveram início os patrulhamentos aéreos, em muitos casos com aviões de instrução que, embora sem condições para atacar os submarinos pela simples presença restringiam em muito a liberdade de ação dos barcos hostis.

Localizados, estes passavam logo a ser seguidos por aviões de guerra. Os contendores ficavam assim em pé de igualdade para a luta.

PERDAS E GASTOS BRASILEIROS NA II GUERRA MUNDIAL (10 a 13)

O triste capítulo dos danos sofridos pelo Brasil, reexaminado pela perspectiva que o tempo permite, é uma inconteste prova do quanto de sacrifício foi exigido do nosso povo para lutar pela democracia mundial, quando não desfrutava da plenitude de suas virtudes no próprio âmbito nacional.

Alguns estudiosos desse problema reuniram preciosas informações a respeito, das quais destacamos algumas para citação.

O Ten.-Cel. Newton Corrêa de Andrade Mello, desbravando o intrincado problema, teceu interessantes considerações: "Não exageramos afirmando que a guerra dessangrou a nossa já frágil economia. A Lei de Empréstimos e Arrendamentos, que permitiu a revitalização de nossas Forças Armadas, o equipamento da FEB e a sua manutenção em campanha, custou-nos a cifra de 360 milhões de dólares, cuja última prestação foi paga no dia 1º de julho de 1954." (11)

Além das perdas da Marinha Mercante e de Guerra, de mais de duas mil vidas, e da manutenção da FEB na Campanha da Itália dever-se-á acrescer, na apuração de nossos gastos na guerra, "as despesas ligadas à convocação de reservas para as Forças Armadas, ao deslocamento de unidades para a alteração de nossa ordem de batalha, à criação de várias outras, à organização e equipamento da FEB, ao pagamento, em moeda forte, dos componentes desta, do Grupo de Caça e do Pessoal da Armada, em ação fora das águas nacionais". (11)

Outro escritor militar, o Ten.-Cel. Thomaz Castello Branco, em substancioso livro, reuniu dados conforme abaixo, os seguintes danos sofridos pelo Brasil: (6)

Aeronáutica - 8 (*) mortos - 22 aviões perdidos

Exército - 443 mortos - Materiais diversos perdidos

Marinha Mercante - 469 mortos - 31 navios perdidos

Marinha de Guerra - 476 mortos - 3 navios perdidos

Civis e Militares 503 (**) mortos - Bagagens perdidas

Total 1.899 mortos - (*) Todos oficiais. (**) Mortos nos torpedeamentos.

Despesas Totais em 1945 de Cr$ 21 Bilhões de Cruzeiros


Estudando o problema das reparações de guerra, Mário Calábria alinhou as seguintes considerações relativas aos prejuízos causados ao nosso país pela última guerra. "Os danos materiais sofridos pelo Brasil, particularmente no que diz respeito à sua Marinha Mercante, foram mais altos, na sua quantidade ou na sua proporção, isto é, totalmente ou proporcionalmente, que os de alguns países permeadas pela Conferência de Reparações de Paris.

A Marinha comercial brasileira perdeu mais de um terço de sua tonelagem bruta, que, posto em número, significa 36 navios, num total de 150.209 toneladas, das quais 73% do Lóide Brasileiro." (12)

Houve, ainda, outros sacrifícios impostos ao Brasil, como os relatados, em conferência, pelo Embaixador Camilo de Oliveira. Diz ele: "Em março de 1942, por acordos especiais com os Estados Unidos, concordamos em mobilizar todos os nossos recursos de produção em fornece-los aquele país amigo a preços fixados por ele próprio. Anteriormente, em 1940, por acordo assinado com os produtores de café, era-nos fixada uma quota certa de exportação do artigo, a preço também fixado pelo comprador. Seguiram-se depois da cessão de bases aéreas no norte e nordeste do país e a nossa própria entrada na guerra. Foi quando, a solicitação dos nossos amigos e já então aliados, consentimos em arrendar-lhes 12 navios de nossa frota mercante ao preço simbólico de dólar mensal por unidade, assumindo, nós, ao mesmo tempo, o compromisso de destinar 23 dos que nos restavam ao tráfego exclusivo entre este país e portos americanos." (13)

O esforço do Brasil para a consecução da vitória dos Aliados foi deveras pesado, dadas às condições de seu estágio de desenvolvimento econômico e social.

O nosso empenho na luta foi reconhecido pelo nosso principal aliado, os Estados Unidos

CONSEQUÊNCIAS DA GUERRA

Tantas desditas porque passou o país não impediram, talvez mesmo tenham estimulado, uma tomada de posição nacional para seu desenvolvimento econômico, político e social.

No campo econômico, a taxa de crescimento do produto bruto nacional mostrou-se das mais altas do Mundo.

No campo político, foram definitivamente assimilados pela maioria do povo brasileiro os sadios ideais da democracia, únicos compatíveis com a dignidade de pessoa humana, apesar das crises internas porque o país tem passado.

Finalmente, no campo social, há que se reconhecer o fortalecimento de uma consciência nacional, prenhe de civismo e amor a Pátria, cujo fim único está na supressão de chagas sociais - do pauperismo, da miséria, da ignorância, da fome e das doenças endêmicas - respeitando-se os alienáveis princípios de justiça social e os cânones da democracia que nos regem infensa aos processos violentos dos extremismos.

EPÍLOGO

Reconhecemos que, apesar de tantos prejuízos a economia nacional, a arrancada do Brasil para o progresso, em clima de paz e de ordem, é uma lição ao Mundo e uma prova do acerto do dístico de nossa bandeira, que resumiu a expressão:

"O amor por princípio e a ordem por base: o progresso por fim!"

Omitiu-se somente a palavra Amor dessa trilogia positivista.

Mas precisaria escrever isto na bandeira desta terra abençoada para quem nasce sob o signo do Cruzeiro do Sul?

Germano Seidl Vidal
Escritor e Historiador

(1) HÉLIO SILVA e MARIA CECÍLIA RIBAS CARNEIRO - O Brasil na II Guerra Mundial - artigo publicado no JORNAL DO BRASIL - 20 Ago 72 - Rio de Janeiro.
(2) A atuação da Nossa Marinha - Serviço de Documentação da Marinha - in A Presença do Brasil na 2ª Guerra Mundial (uma antologia) - Biblioteca do Exército - 1966 - Rio de Janeiro.
(3) GERMANO SEIDL VIDAL, Cel. - Linha de Pensamento Militar - SENAI da Bahia - 1967 - Salvador.
(4) HUMBERTO CASTELLO BRANCO, Cel. - A Campanha da FEB na Itália - Military Review - 1946 - Kansas City - Fort Leavenworth - EUA - in A Presença do Brasil na 2ª Guerra Mundial - (uma antologia) - Biblioteca do Exército - 1966 - Rio de Janeiro.
(5) J. B. MASCARENHAS DE MORAES, Mar. - A FEB pelo seu Comandante - Instituto Progresso Editorial S.A. - 1947 - S. Paulo.
(6) MANOEL THOMAZ CASTELLO BRANCO, Ten.-Cel. - O Brasil na II Grande Guerra - Biblioteca do Exército - 1968 - Rio de Janeiro.
(7) NELSON FREIRE LAVENERE WANDERLEY, Ten.-Cel.-Av. - A Força Aérea Brasileira na Campanha da Itália - Conferência no Clube Militar em 20 Nov. 45 - in A Presença do Brasil na II Guerra Mundial (uma antologia) - Biblioteca do Exército - 1966 - Rio de Janeiro.
(8) LUIZ F. PERDIGÃO, Ten.-Cel.-Av. - Missão de Guerra - Biblioteca do Exército - 1958 - Rio de Janeiro.
(9) A FAB na defesa do litoral brasileiro - Artigo publicado no JORNAL DO BRASIL - 9 Jun 71 - Rio de Janeiro.
(10) GERMANO SEIDL VIDAL, Ten.-Cel. - Quanto Custou ao Brasil a II Guerra Mundial? - artigo publicado no Mensário de Cultural Militar do Estado-Maior do Exército - Mar/Abr 63 - Rio de Janeiro.
(11) NEWTON C. DE ANDRADE MELLO, Ten.-Cel. - Causas e Conseqüências da Participação do Brasil na II Grande Guerra - Departamento de Imprensa Nacional - 1958 - Rio de Janeiro.
(12) MÁRIO CALÁBRIA - O Problema das Reparações de Guerra - Ministério das Relações Exteriores - 1948 - Rio de Janeiro.
(13) A. CAMILLO DE OLIVEIRA - Embaixador - A Política Exterior do Brasil, em particular com os EUA - Escola Superior de Guerra - 1956 - Rio de Janeiro.


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