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1a. Grande Aventura na Aviação
Brasileira Meu pai - o Maj. Brig. GODOFREDO VIDAL participou de uma das aventuras do início da história da aviação brasileira. Estou recordando esta aventura transcrevendo um texto, com pequenas correções, do "folder" do Museu Aero-Espacial, com o convite para Exposição comemorativa, realizado no período de 03 de outubro de 1995 a 03 de janeiro de 1996, editado sob o patrocínio da Touring Club do Brasil. Texto do "folder": 1ª Parte A Partida Numa manhã de setembro de 1931, três jovens ases da Aviação Militar brasileira subiram à incômoda carlinga de um avião de guerra e ganharam o céu luminoso do Campo dos Afonsos, no Rio. O Capitão Archimedes Cordeiro e os Tenentes Godofredo Vidal e Francisco de Assis Correa de Mello começavam então a escrever a primeira página audaciosa da história da Aviação Nacional - uma aventura de 53 dias sobre todos os países latino-americanos, indo pela costa do Pacífico e voltando pelo Atlântico, o qual terminou bruscamente num páramo movediço dos Andes equatorianos. 2ª Parte Uma missão de paz Foi um "raid" diplomático. O Brasil mandava seu avião e seus ases a 16 capitais latino-americanas com a missão de reforçar com nossos vizinhos velhos laços de amizade e "elevar no conceito dos povos americanos o nome do Brasil e sua Aviação Militar, conquistando a tradição de um longo vôo demonstrativo da sua experiência". Vinculando o "raid" às glórias brasileiras no capítulo das conquistas aéreas, fundamentados no pioneirismo de dois gênios, Bartolomeu de Gusmão e Santos Dumont. 3ª Parte O avião Batizado pelo próprio Ministro da Guerra de "Duque de Caxias". O avião escolhido foi o Amiot KG22, um dos melhores equipamentos disponíveis na época, com motor de 650 HP, com autonomia de vôo de 13 horas, a uma velocidade média de 160 km/h, podendo voar a uma altitude máxima superior a 4 mil metros e consumindo 0,9 litros por quilômetro voado. O Amiot KG22 era um avião de guerra, no qual a tripulação se encaixava em 3 carlingas estreitas, originalmente destinados ao piloto, metralhador e observador, que se comunicavam através de bilhetes e sem outra proteção que não fossem as próprias roupas, em caso de chuvas e ventos. Além da bússola, não havia instrumentos de orientação e as rotas eram seguidas por indicações de terra. 4ª Parte Os aviadores O "Duque de Caxias" foi tripulado por 3 oficiais escolhidos entre a nata da Escola de Aviação - Campo dos Afonsos (Rio de Janeiro). O comando ficou com o Capitão Archimedes Cordeiro e o piloto foi o 1º Tenente Correa de Mello, um ás da aviação que chegaria a Ministro da Aeronáutica. O terceiro nome foi o do º Tenente Godofredo Vidal - oficial de esmerada educação, com estudos no exterior e vivência européia, dominando idiomas e de natureza expansiva - um relações públicas do vôo. Nas asas do monomotor "Duque de Caxias", voava um sonho audacioso para a época (1931): um "raid" de amizade por 16 países latino-americanos. 5ª Parte Plano de vôo: 29.000 km, 48 dias e 70 contos As rotas sobre os Andes, tinham sido há pouco fixadas pelos pilotos mais audaciosos do Correio Aéreo, mas os pilotos brasileiros ainda não se inscreviam na galeria dos vôos clássicos que expandiam os horizontes da aviação. Com o apoio decisivo do Ministro da Guerra, General Leite de Castro, a Escola de Aviação foi autorizada a preparar o "raid". O plano do "raid" previa cerca de 29 mil km de vôo por rotas ainda não cobertas em sua totalidade. Com 1ª escala em Porto Alegre para Asunción, iniciando as etapas internacionais nas grandes capitais latino-americanas até a Cidade do México, além de escalas técnicas em outras cidades. No Panamá, o avião receberia um novo motor. E a mais longa e perigosa etapa de vôo direto previsto: Buenos Aires-Santiago, com 1.160 km e a passagem sobre a Cordilheira dos Andes. No total: 48 dias de viagem, 158 horas de vôo, a um custo de 70 contos, sendo 41 destinados a óleo e gasolina. 6ª Parte Início do "raid" Marcado por condições adversas só superadas pela habilidade e coragem dos pilotos, a partida foi em 11 de setembro de 1931, numa clara manhã carioca, diante do Ministro da Guerra e de entusiasmados homens da Aviação. O trecho Rio-Porto Alegre - que seria uma etapa tranqüila - foi cumprido na sua maior parte em vôo cego ou a baixas altitudes. Obrigados a pairar sobre nuvens a 2.500 metros ou voar a pouca distância do mar, chegando ao risco de voar a 10 metros de altura. O excesso de manobras e a necessidade de romper a força dos ventos, levaram a um consumo excessivo de combustível e o primeiro pouso foi de emergência, em Sapiranga, 40 km de Porto Alegre. 7ª Parte As etapas internacionais As dificuldades mecânicas surgiram no trecho Porto Alegre-Asunción, quando o motor começou a vazar óleo. Na etapa Buenos Aires-Santiago, um dos magnetos apresentou defeito, dificultando manobras entre os "passos" andinos. Apesar disso, o "Duque de Caxias" chegava ao seu destino. O "Duque de Caxias" fez sua primeira baixa em Arica. O Tenente Mello, piloto e mecânico sucumbiu ao esforço e foi obrigado a deixar o "raid". O avião pilotado pelo capitão Archimedes, voou pelo imenso deserto do Norte chileno até Antofagasta e Iquique, onde o "Duque de Caxias" seria preparado para a arriscada subida a La Paz, um dos mitos da Aviação. A capital boliviana, a 4 mil metros de altitude, desafiava a potência do Amiot KG22, cuja capacidade de elevar-se não superava os 4.200 metros, com o motor apresentando sérios desarranjos e com sucessivos pousos fora do plano de vôo. O General Leite de Castro determinou o cancelamento do "raid" e os jornais noticiaram o regresso, mas a etapa Arica-La Paz foi cumprida sem problemas, embora com a ausência de Mello. "Por fim, chegaram os aviadores brasileiros. Temos esperado por eles como moças bonitas". Coluna "El gorro de dormir" - jornal Ultima Hora - La Paz Na Bolívia, o Tenente Orsini Coriolano juntou-se à tripulação. Caberia a ele pilotar o "Duque de Caxias". Em 28 de outubro, os brasileiros chegaram a Lima e se preparavam para romper os Andes novamente, devendo chegar a 3 de novembro em Quito. Nesse dia, às 6 horas, o avião deixou Talara, no Peru, foi visto sobre Guaiaquil e deixou de dar sinais por volta de dez horas. 8ª Parte O acidente Sobre o Golfo do Guaiaquil, o piloto Orsini notou o timão de direção preso, mas um pouso em Guaiaquil seria impossível, devido às condições atmosféricas. Resolveram então seguir até Quito, apesar das dificuldades nas correções da rota, até que enfrentaram fortes ventos sobre a cordilheira. O recurso final foi planar sobre o páramo e tentar a aterrissagem de frente o que foi conseguido apesar da capotagem provocada pelo terreno movediço. Archimedes e Orsini escaparam quase ilesos, mas a posição do Tenente Vidal, na última carlinga, quase lhe foi fatal. A queda e o derramamento de gasolina causaram graves ferimentos. 9ª Parte O resgate Só no dia 6, os jornais noticiavam a aterrissagem forçada na região de Angamarca, num páramo pantanoso dos Andes. O acidente e as difíceis condições de resgate dos aviadores brasileiros foram seguidos passo a passo pela imprensa até dia 8 de novembro, quando finalmente os pilotos chegaram a Quito. "[...] os Andes do Equador emprestaram sua majestade para o cenário de uma aventura. Fica-me orgulho de haver caído dessas alturas"- Tenente Vidal - Hospital de Quito O Tenente Vidal passou um ano licenciado para tratamento por perda parcial de movimento do braço direito. Nesse período foi ser professor e matriculou-se em curso livre de pintura para movimentar o braço defeituoso, que o levaria a invalidez definitiva. 10ª Parte O término do vôo O objetivo dos pilotos era o de prosseguir o "raid", mas as condições do Tenente Vidal forçaram sua permanência em Quito até 6 de janeiro. No dia seguinte, em vôo comercial, os aviadores chegaram ao Rio. Apesar da gravidade dos ferimentos, o Tenente Godofredo Vidal permaneceu na carreira, chegando ao posto de Major-Brigadeiro. Mais tarde ingressou na Comissão de Turismo Aéreo do Touring Club do Brasil, sendo seu primeiro presidente e um dos fundadores da "Semana da Asa", em 1935. Quatro anos depois, em Curitiba, teve a iniciativa de fundar o 1º Grupo de Escoteiros do Ar - o que o levou ao posto de Comissário Nacional do Ar da União dos Escoteiros do Brasil. Clique aqui e veja algumas fotos do RAID DUQUE DE CAXIAS. |