GEN. DIV. ALFREDO VIDAL (1868-1947)
1º Diretor do Serviço Geográfico do Exército e Introdutor da Estereo-Fotogrametria no Brasil


Texto do Escritor-Historiador Germano Seidl Vidal

Honrado com a distinção do digno e estimado Diretor desta Casa, em dar oportunidade a que se fizesse ouvir alguém da família Vidal, aqui estou para dar conta da missão que me outorgaram sete filhos, quinze netos e vinte e oito bisnetos de ALFREDO VIDAL - muitos deles aqui presentes, vivendo a mesma emoção que me assalta.

De início, formulo os sinceros agradecimentos da família pela presença de ilustres autoridades e pessoas gradas aos atos programados pela Diretoria do Serviço Geográfico do Exército.

Enchem-nos de desvanecimento e orgulho esse reconhecimento póstumo, a quem viveu exclusivamente para o Exército e a família, sem duvidar um instante em sacrificar o conforto do lar quando o dever o exigia.

O ilustre conferencista Ten-Cel Sérvulo Lisboa Braga, explanou, abalisadamente, sobre a vida profissional da figura cujo centenário comemoramos. Discorreu ele, com muita sabedoria, sobre um pouco da história da cartografia no Brasil e do Serviço Geográfico do Exército tão intimamente ligados ao aniversariante centenário.

Tenho para mim que me caberia um depoimento menos formal, em decorrência das credenciais de minha apresentação.

Falar-vos-ei, assim, do pai, do avô e do homem que eu conheci, muito estimei e admiro até hoje, fornecendo-me uma constante inspiração de sobranceria, independência e entusiasmo diante das agruras e do fascínio da vida militar.

Será portanto, perdoai-me, um relato pessoal de quem está eivado de suspeições, provocadas pelo sangue que lhe corre nas veias.

Meu avô sempre me pareceu um autodidata. Foi engenheiro e arquiteto brilhante, com admiráveis obras que engalanam a cidade e detentor de prêmio internacional por um amplo projeto de edifícios escolares.

Exerceu o magistério como um verdadeiro mestre. Tudo isso fez porque alimentava a curiosidade de saber, que, conquistado, não ficava limitado às metas intelectuais, passando logo ao domínio da realidade prática.

Dos livros, dizia ele, só se leva a aptidão para trabalhar.

Meu avô, enquanto no Serviço ativo, sempre esteve mergulhado no trabalho, buscando, cada vez mais e mais, trabalho. Ele era um obcecado pela produção individual.

Tal aspecto é tão marcante em sua personalidade que o seu substituto na Direção deste Serviço escreveu no primeiro Boletim da nova gestão, a respeito do chefe que se despedia: "Conheço-o de mais de dois decênios e nunca o encontrei em passeio, nunca o surpreendi em caso inativo. Não pára: busca o labor, toma-o, desenvolve-o; reflete, delineia um plano e começa a executa-lo. Surgem as dificuldades, complica-se o plano, pensa, vela, agita-se incansavelmente, obstina-se na luta e espera com fé os frutos de seus dobrados esforços".

Meu avô sempre foi um pai bom e enérgico. A educação da prole numerosa e espaçada contou com a dedicação e o carinho da esposa, a minha querida e saudosa vovó BELINHA.

O primogênito, Godofredo, é meu pai. Depois, Eulina, precocemente roubada ao nosso convívio; Nadia, Glorinha - esta casada com o Gen Cleisthenes Barbosa e Helena. Seguiram-se dois varões, Edmundo e Alfredinho. Vêm depois Celina e Jorginho, este já filho de Tenente-Coronel.

Quando na reserva ou reformado, após 43 anos de Serviço ativo, sempre vi meu avô muito ocupado. Tenho-o ainda na minha lembrança no porão da casa à Rua dos Araújos, às voltas com tornos, serras, ferramentas e bancadas, trabalhando com rara habilidade manual.

Fora daí, ele estava empenhado com livros, revistas, desenhos e projetos. Não esqueço as explicações que me deu sobre a escada que projetou para ligar o porão habitável ao primeiro piso da casa. Num rápido relance, parecia uma escada simples de madeira, em forma espiralada. Mas, contou-me ele, fora projetada tendo cada degrau uma forma diferente. Disse-me meu avô que quando a encomendara ao carpinteiro este jurou que a reunião das peças desenhadas jamais daria uma escada. Mas deu, e com uma precisão tal se ajustaram as peças, que intrigou sobremaneira o executor.

Uma outra vez, eu o visitei no apartamento novo em Copacabana, encontrando-o de tira-linhas em punho e várias plantas já caprichosamente desenhadas. A primeira vista, julguei tratar-se de um projeto de um edifício, o que já se constituía em moda daquele bairro. Ao procurar identificar as plantas, estarrecido verifiquei que era o projeto de um armário para cozinha do apartamento.

Meu avô era homem de sólidas convicções espirituais sem ser religioso. Ouvi dele muitas pregações nos vários campos filosóficos e percebo hoje que ele tinha a inteligência aberta a todas as idéias, submetendo-as ao raciocínio de quem está habituado às soluções matemáticas.

Meu avô era um homem de vontade, de decisão e de rigor.

Fez-se General, começando a trabalhar desde menino. E, nunca mais deixou de ser "General", mesmo em casa, dirigindo a sua vida particular com esmero.

Meu avô era um artista nato, sensível e caprichoso. Desenhava com perfeição, até quando já bastante idoso. Em 1945, eu recebi na Itália, em plena guerra, um cartão dele. Estava desenhada, a lápis, uma linda orquídea e, em baixo, uma frase de estímulo. Entendi a mensagem por intuição, estimando o tempo de confecção do desenho. Dessa forma, o breve cartão transformava-se numa "longa" carta, cheia de carinho...

Tudo isto foi meu avô.

O homem que, centenas de vezes, subiu a pé esta íngreme ladeira do Morro da Conceição para aqui plantar uma obra de expressão nacional. O General que, em pleno fastígio da carreira, solicitou exoneração da chefia do Serviço Geográfico Militar e, ao mesmo tempo, reforma do serviço ativo do Exército, por discordar de seus superiores quanto às profundas alterações que pretendiam introduzir naquele Serviço.

Escreveu ele, então: "não nos seria possível desviarmo-nos das responsabilidades já assumidas de 1906 a 1922".

Era um forte que caía de pé.

E que continuou caminhando, sempre e sempre, até Deus levar...

Nunca parou, nem mesmo para olhar atrás e verificar que as sementes lançadas por seu trabalho, deram grandes árvores e muitos frutos. A maior delas é a própria Diretoria do Serviço Geográfico, em cuja sede nos encontramos, e cujos frutos retratam a fisionomia do Brasil em todos os quadrantes.

Aplica-se, no caso, aquela filosofia de meu avô.

Não importam as palavras e sim os fatos, pois com eles podeis construir.
Não importa o que aprendeis, mas sim a vossa aptidão para trabalhar.

Esta é uma lição que revive o velho General Alfredo Vidal!

Germano Seidl Vidal
Escritor e Historiador

(Oração laudatória e de agradecimento, proferida pelo Cel Art Germano Seidl Vidal, neto do homenageado, na Sessão Cívica, realizada no Salão de Conferências da Diretoria do Serviço Geográfico, dia 28 Ago 1968, nas comemorações do centenário de nascimento do Gen Alfredo Vidal.).

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