XVI.i - AS ORIGENS DA ESTRATÉGIA DO AÇO NO BRASIL

Revisado em Agosto de 2006



A partir do final da 1a. Guerra Mundial, o Brasil com uma economia dependente do capital estrangeiro, eminentemente importador de bens de consumo e exportador de um pequeno e nada expressivo volume de produtos agrícolas, como café, algodão, produtos alimentícios e algumas matérias-primas, o então governo de Getúlio Vargas optou por traçar um direcionamento estratégico no sentido de industrializar o País, com um forte apelo nacionalista nas áreas de comércio exterior, siderurgia e petróleo.

Os programas de nacionalização foram sendo discutidos e o governo Vargas ficara atento às ações do Congresso, visando instituir monopólios estatais nas áreas que mais sobressaíam aos planejamentos traçados: petróleo e siderurgia, aos quais se sucedem, por outras motivações, a de energia elétrica.

O planejamento econômico, na 1a. fase do Governo Vargas, como vinmos no Capítulo XIV, foi mais um elenco das intenções do que de efetivas realizações, estas no entanto muito significativas para o povo brasieliro em geral.

As discussões sobre o monopólio estatal do petróleo se iniciaram no 1º. governo da Era Vargas (1930) e foram consolidadas durante o segundo período (1951-1954), quando foi enviado ao Congresso o projeto de criação da estatal brasileira de petróleo - a PETROBRAS - em dezembro de 1951.

Na crescente determinação do governo de criar espaços no comércio internacional, o Brasil se viu diante de um impasse.

A Alemanha e os Estados Unidos deram início a uma ferrenha luta pela preferência dos brasileiros por produtos importados.

Porém, as políticas externas de cada parceiro eram excludentes e com fortes apelos ideológicos e políticos.

Para que lado deveríamos caminhar?

Para quem iríamos dar a preferência comercial?

Submeteram-nos, de novo, à dependência do capital internacional ?

Buscar soluções autóctones, menos ambiciosas e mais realistas ?

Os Estados Unidos ganharam o primeiro passo, quando, em 1934-1935, conseguiram que o Brasil rejeitasse um tratado bilateral comercial com a Alemanha, sendo substituído por acordos com o país norte-americano, com cláusula de nação mais favorecida.

Neste mesmo ano, os norte-americanos absorveram 55% de todas as exportações brasileiras de café.

Diante de tanta concentração com um único parceiro, o governo Vargas deu início a um programa de diversificação dos mercados, visando criar novos espaços com novos parceiros.

Era a necessidade de se diversificar em produtos e em destinos.

O algodão começou a substituir parte das exportações brasileiras, mas ainda longe de ser algo significativo.

O governo iniciou parcerias com o mercado britânico e, especialmente, o mercado alemão, com um ritmo extremamente crescente.

Surgiu, assim, um parceiro comercial significativo durante o período de 1934 a 1940, quando os norte-americanos cederam espaço fértil aos produtos alemães.

Isto ajudou as negociações posteriores.

Os problemas iniciaram quando o Reich impôs negociar as importações em "marcos de compensação" não conversíveis.

Não era a melhor forma de negociar, pois o Brasil necessitava conquistar divisas para melhorar a balança de pagamentos.

Nas ações de comércio exterior com os alemães, as divisas da balança de pagamentos brasileira iriam ficar cada vez mais escassas.

O jogo de decisões estava iniciado e o governo brasileiro ficou na encruzilhada.

O declínio das exportações de café e o aumento dos negócios de algodão com a Alemanha foram um decisivo e marcante fato nas decisões brasileiras.

Os norte-americanos não iriam suportar por muito tempo a falta de negócios com o Brasil, pois as negociações com o Reich em "marcos de compensação" traziam um grande prejuízo ao incremento de compras de produtos norte-americanos por falta de divisas.

O que fazer?

Como agir para manter dois parceiros importantes para o Brasil?

A quem favorecer ?

Foram tentadas operações de exportação na base da troca e o Brasil realizou compras de bens de consumo e bens de capital com pagamento em café.

Isto gerou um maior declínio dos preços internacionais do café, aumentando a crise de falta de divisas brasileiras para pagamento da dívida externa.

Quase uma inviabilidade.

Foram adotadas medidas de controle cambial, com restrições às importações e tarifas protecionistas, aliás, uma tendência mundial, diante da pressão do desequilíbrio monetário em várias economias.

Os fatores de ordem monetária influíram decisivamente para o governo Vargas optar por um parceiro forte e com grande capacidade de crescimento comercial, ao invés de explorar novas frentes com poder comercial junto aos alemães.

Era impossível manter negócios na base da troca (sistema de compensação).

O Brasil iria retirar do 'mercado livre' uma grande quantidade de produtos e impedir o aumento das reservas brasileiras na modalidade proposta pelos alemães.

Os negócios com algodão, já em fase de aumento significativo no volume da produção, seriam atingidos e não iriam contribuir para as exportações brasileiras.

O Reich controlava todas as operações de compras no exterior e insistia em vender grandes quantidades de bens de capital, parecendo querer ajudar-nos...

Os alemães perceberam mais rapidamente que os norte-americanos, a postura dos ideólogos e planejadores brasileiros, que, nitidamente, mantinham uma meta nacionalista a atingir, especificamente, visando a expansão industrial e, logicamente, a solução passaria pela construção de um complexo siderúrgico, produtos de papel e tecidos.

As ofertas de soluções começaram a surgir.

O período de 1934 a 1938 foi favorável para os alemães, oferecendo aos brasileiros soluções de aquisição de bens de capital.

Em 1938, os alemães tornaram-se mais interessados em exportar matérias-primas industriais e bens de consumo.

Foi aí que os norte-americanos iniciaram a formular importantes propostas comerciais com financiamento do Banco de Exportação e Importação (Eximbank).

Era a mudança nítida de parceiro comercial forte para os brasileiros.

A eminência da eclosão da guerra mudava radicalmente o quadro internacional de trocas comerciais.

Saberíamos explorar bem a posícão estratégica do Brasil e acabar com os arrufos internos de uma ditadura de direita, com capa de nacional-socialismo, "clone" dos nazistas e fascistas que infestaram o Mundo Ocidental, como sendo a "ultima ratio" contra o comunismo internacional e a frieza - talvez mesmo indiferença - das potências capitalistas ?

Vamos ver adiante.

Germano Sei dl Vidal
Escritor e Historiador

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